quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bíblia Sagrada, A Constituição Divina

                                                   


                                                                      Por Josué de A Soares

Introdução

Toda sociedade organizada se fundamenta em uma constituição, documento supremo que estabelece princípios, direitos, deveres e a forma correta de convivência. À luz da fé cristã, a Bíblia Sagrada pode ser compreendida como a Constituição Divina, isto é, o conjunto de leis, princípios e revelações que regulam a relação entre Deus e a humanidade. Não se trata apenas de um livro religioso, mas da expressão máxima da vontade soberana de Deus para a vida espiritual, moral e social do ser humano.

Ao longo da história, povos e nações criaram códigos jurídicos para ordenar a vida coletiva. Contudo, antes mesmo das constituições humanas, Deus já havia estabelecido Sua Palavra como regra de fé e prática. A Escritura se apresenta, portanto, como norma suprema, imutável em seus princípios e plenamente suficiente para conduzir o homem à salvação e a uma vida justa diante de Deus.

1. A Bíblia como fundamento da autoridade divina

A Bíblia reivindica para si mesma uma autoridade singular. Diferente de qualquer outro escrito, ela afirma ter origem divina: “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2Tm 3.16). O termo inspiração indica que a Palavra procede do próprio Deus, ainda que tenha sido registrada por autores humanos em contextos históricos distintos. Essa dupla autoria confere à Bíblia autoridade absoluta sobre a fé e a conduta cristã¹.

Como Constituição Divina, a Escritura não depende da validação humana para exercer sua autoridade. Ela é normativa porque procede do Legislador Supremo. Assim como uma constituição civil está acima das demais leis, a Palavra de Deus está acima de tradições, costumes e opiniões pessoais. Jesus confirmou essa supremacia ao declarar: “A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35).

2. Princípios, leis e valores da Constituição Divina

Uma constituição estabelece princípios fundamentais que orientam toda a vida social. De modo semelhante, a Bíblia apresenta valores eternos que regem o relacionamento do homem com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17) funcionam como um núcleo constitucional da revelação, revelando padrões morais que ultrapassam culturas e épocas².

Esses princípios não são meramente legais, mas espirituais e éticos. Eles visam a preservação da vida, da justiça, da dignidade humana e da santidade. O salmista reconhece essa excelência ao afirmar: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sl 19.7). A Constituição Divina não oprime, antes liberta, pois conduz o homem à verdadeira ordem estabelecida por Deus.

3. A Bíblia como guia para a vida pessoal e comunitária

Enquanto as constituições humanas regulam principalmente a esfera pública, a Bíblia alcança tanto o interior do indivíduo quanto a vida comunitária. Ela orienta pensamentos, intenções e atitudes, chamando o ser humano a uma transformação integral. O profeta Jeremias anuncia a promessa de uma lei escrita no coração (Jr 31.33), revelando que a Constituição Divina atua de dentro para fora.

Na comunidade de fé, a Bíblia serve como regra de organização, disciplina e missão. A igreja primitiva perseverava “na doutrina dos apóstolos” (At 2.42), reconhecendo a Palavra como base de sua vida espiritual e social. Onde a Escritura é respeitada como Constituição Divina, há ordem, edificação e crescimento saudável do povo de Deus³.

4. Cristo e o cumprimento da Constituição Divina

Jesus Cristo não aboliu a Constituição Divina, mas a cumpriu em sua plenitude. Ele afirmou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mt 5.17). Em Cristo, a Palavra se fez carne (Jo 1.14), revelando de forma perfeita o caráter e a vontade de Deus.

O Novo Testamento mostra que a Constituição Divina alcança seu ápice no amor, que resume toda a Lei (Mt 22.37-40). Assim, a obediência bíblica não se baseia apenas em mandamentos externos, mas em um relacionamento vivo com Deus, mediado por Cristo e aplicado pelo Espírito Santo.

Conclusão

Compreender a Bíblia Sagrada como Constituição Divina é reconhecer sua autoridade suprema, sua suficiência e sua relevância permanente. Em um mundo marcado por relativismo moral e instabilidade ética, a Palavra de Deus permanece firme como fundamento seguro para a fé, a vida e a esperança cristã.

A Escritura continua sendo o documento maior do Reino de Deus, orientando seus cidadãos quanto à verdade, à justiça e à salvação. Submeter-se à Constituição Divina não é perder liberdade, mas encontrar o verdadeiro propósito da existência sob o governo gracioso do Senhor.

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  1. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
  2. WALTON, John H. Antigo Testamento: Contexto e Teologia. São Paulo: Vida Nova, 2018.
  3. STOTT, John. A Bíblia Contemporânea. São Paulo: ABU, 2007.

 

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