“E
perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e
nas orações.” (Atos 2.42)
Introdução
A doutrina sempre ocupou lugar central na vida da
Igreja cristã. Desde seus primórdios, o povo de Deus foi chamado não apenas a
crer, mas a permanecer na
verdade revelada. O testemunho de Atos dos Apóstolos apresenta uma Igreja que
nasce sob o ensino apostólico, sustentada pela Palavra, pela comunhão e pela
prática da fé. Nesse contexto, o culto
de doutrina emerge como expressão histórica e teológica da fidelidade da
Igreja à revelação divina.
No âmbito da Assembleia de Deus, o culto de doutrina assume papel estratégico
na preservação da fé bíblica, na formação espiritual dos crentes e na
manutenção da identidade pentecostal clássica. Em um cenário contemporâneo
marcado por pluralismo religioso, sincretismo teológico e relativização da
verdade, refletir academicamente sobre a importância desse culto torna-se não
apenas pertinente, mas necessário.
1. Fundamentos Bíblicos do Culto
de Doutrina
A Escritura Sagrada apresenta a doutrina como
elemento essencial da vida comunitária do povo de Deus. No Antigo Testamento, a
instrução divina (torah) já possuía caráter pedagógico e espiritual,
conduzindo Israel à obediência e à santidade (Dt 6.6-9). No Novo Testamento,
essa dimensão se aprofunda por meio do ensino de Cristo e dos apóstolos.
Jesus é apresentado nos Evangelhos como Mestre por excelência (Mt 7.28-29),
cuja autoridade estava fundamentada na verdade divina. Ele ordena aos seus
discípulos que façam novos discípulos, “ensinando-os a guardar todas as coisas” (Mt 28.20), o que
demonstra que o ensino não é periférico, mas parte essencial da missão da
Igreja.
A Igreja Primitiva perseverava na didachḗ
apostólica (At 2.42), evidenciando que a fé cristã é inseparável do conteúdo
que a sustenta. O apóstolo Paulo reforça esse princípio ao exortar Timóteo a
permanecer na sã doutrina, advertindo que chegariam tempos em que muitos não
suportariam o ensino saudável (2Tm 4.2-4). Assim, o culto de doutrina cumpre a
função bíblica de ensinar, corrigir,
exortar e edificar (cf. 2Tm 3.16).
2. Doutrina e Edificação
Espiritual da Igreja
Do ponto de vista teológico, a doutrina não se
limita à transmissão de informações, mas está diretamente ligada à formação espiritual do crente. Paulo
afirma que Deus concedeu ministérios à Igreja “até que todos cheguemos à
unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13). Tal
maturidade espiritual só é possível mediante ensino sólido e contínuo.
Wayne Grudem define a doutrina cristã como aquilo
que “toda a Bíblia ensina sobre determinado tema”¹, o que reforça a necessidade
de um ensino sistemático das Escrituras. Nesse sentido, o culto de doutrina
atua como instrumento pedagógico da Igreja, promovendo discernimento espiritual
e firmeza teológica.
Para a Assembleia de Deus, essa edificação
doutrinária sempre esteve associada à prática do culto público, onde a Palavra
é exposta de forma clara, reverente e dependente da ação do Espírito Santo.
Diferentemente de uma fé meramente emocional, o culto de doutrina busca
equilibrar experiência espiritual e
fundamento bíblico, evitando tanto o intelectualismo seco quanto o
emocionalismo vazio.
3. O Culto de Doutrina na
Tradição da Assembleia de Deus
Historicamente, a Assembleia de Deus no Brasil
nasceu com forte ênfase bíblica. Seus pioneiros compreenderam que o avivamento
pentecostal deveria estar alicerçado na Palavra. Antonio Gilberto, referência
na educação teológica assembleiana, afirma que “não existe verdadeira
espiritualidade sem compromisso com a sã doutrina”².
O culto de doutrina, portanto, tornou-se espaço
privilegiado para:
- Ensino
das verdades fundamentais da fé cristã;
- Formação
de obreiros e líderes;
- Preservação
da identidade confessional pentecostal;
- Combate
a heresias e modismos teológicos.
Além disso, esse culto reafirma a autoridade das
Escrituras como regra de fé e prática, princípio caro à tradição protestante e
pentecostal. Como observa Millard Erickson, a teologia cristã deve ser
“bíblica, histórica e prática”³ — elementos que se encontram integrados no
culto de doutrina quando bem conduzido.
4. Relevância Contemporânea do
Culto de Doutrina
No contexto atual, marcado por discursos religiosos
fragmentados e por uma espiritualidade muitas vezes desvinculada da verdade
bíblica, o culto de doutrina assume caráter contracultural. Ele chama a Igreja de volta à centralidade da
Palavra, à fidelidade ao evangelho e à responsabilidade teológica.
A negligência doutrinária tem produzido crentes
frágeis, facilmente levados por “ventos de doutrina” (Ef 4.14). Por isso, o
culto de doutrina não deve ser visto como repetitivo ou secundário, mas como ato de adoração consciente, no qual
Deus fala por meio das Escrituras e molda o caráter do seu povo.
Conclusão
À luz das Escrituras e da tradição da Assembleia de
Deus, conclui-se que o culto de doutrina é elemento indispensável para a saúde
espiritual da Igreja. Ele preserva a fé apostólica, promove maturidade cristã e
fortalece a identidade pentecostal bíblica.
Manter viva essa prática é honrar o legado da
Igreja Primitiva, obedecer ao ensino apostólico e preparar o povo de Deus para
permanecer firme em tempos de crise espiritual e teológica. Onde a doutrina é
valorizada, a Igreja cresce de forma saudável; onde é negligenciada, a fé se
enfraquece. Assim, perseverar na doutrina continua sendo um chamado urgente e
inegociável.
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¹ GRUDEM,
Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
² GILBERTO, Antonio. A Bíblia através dos Séculos. Rio de Janeiro: CPAD,
2010.
³ ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
⁴ BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.