sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento

 

 


                                               

                                               Por Josué de A Soares

Introdução

O estudo da Teologia do Antigo Testamento exige não apenas devoção espiritual, mas também rigor acadêmico. Antes de adentrar nos grandes temas teológicos que permeiam os livros do Antigo Testamento, como: aliança, lei, profecia, santidade e redenção, faz-se necessário estabelecer fundamentos introdutórios que orientem o método, o objeto e a perspectiva da investigação. Esses fundamentos são tradicionalmente chamados de prolegômenos.

Os prolegômenos funcionam como um alicerce epistemológico e hermenêutico, preparando o intérprete para uma leitura responsável, coerente e fiel do texto sagrado. Assim, os Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento não são meros detalhes preliminares, mas elementos essenciais para a correta compreensão da revelação de Deus nas Escrituras hebraicas.

1. Definição de Prolegômenos

A palavra prolegômenos deriva do grego prolegómena, que significa “coisas ditas antes” ou “afirmações preliminares”¹. No campo da teologia, o termo refere-se ao conjunto de princípios introdutórios que antecedem o estudo sistemático de uma disciplina teológica específica.

Em termos acadêmicos, os prolegômenos tratam de questões como:

  • O objeto de estudo;
  • O método teológico;
  • As fontes da teologia;
  • A autoridade da revelação;
  • E os pressupostos hermenêuticos que guiam a interpretação bíblica.

Portanto, os prolegômenos não respondem imediatamente às perguntas centrais da teologia, mas esclarecem como e a partir de que fundamentos essas perguntas serão abordadas².

2. A Necessidade dos Prolegômenos na Teologia do Antigo Testamento

A Teologia do Antigo Testamento possui características próprias que tornam indispensável um tratamento introdutório cuidadoso. Diferente da teologia sistemática, ela se desenvolve de maneira histórica, progressiva e narrativa, acompanhando a revelação de Deus no contexto da história de Israel³.

Os prolegômenos ajudam o estudante a compreender que o Antigo Testamento:

  • Não é um tratado teológico abstrato;
  • Foi escrito em contextos históricos, culturais e linguísticos específicos;
  • Apresenta uma revelação progressiva de Deus;
  • Deve ser interpretado à luz de sua própria unidade interna e também em relação ao Novo Testamento.

Sem esses fundamentos, corre-se o risco de impor categorias teológicas externas ao texto, desconsiderando sua teologia própria e sua intenção original.

3. O Objeto da Teologia do Antigo Testamento

Nos prolegômenos, define-se claramente que o objeto da Teologia do Antigo Testamento é a revelação de Deus conforme testemunhada nos escritos do Antigo Testamento⁴. Trata-se de investigar quem Deus é, como Ele se revela, como se relaciona com o seu povo e quais são os princípios teológicos que emergem dessa revelação.

Essa teologia é teocêntrica, pois Deus é o sujeito ativo da história, e não apenas o tema sobre o qual se reflete. Ele se revela por meio de atos poderosos e palavras interpretativas, formando a base da fé de Israel⁵.

4. Método e Pressupostos Teológicos

Outro aspecto essencial dos prolegômenos é a definição do método. A Teologia do Antigo Testamento utiliza predominantemente o método histórico-redentivo, que considera:

  • A progressão da revelação;
  • O contexto histórico dos textos;
  • A diversidade literária (lei, narrativa, poesia, profecia, sabedoria);
  • A unidade teológica das Escrituras.

Além disso, parte-se do pressuposto da inspiração e autoridade divina das Escrituras, reconhecendo o Antigo Testamento como Palavra de Deus revelada de forma fiel, embora mediada por autores humanos⁶.

Conclusão

Os Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento constituem uma etapa indispensável para todo estudante sério da Bíblia. Eles fornecem as bases conceituais, metodológicas e teológicas que orientam a investigação da revelação divina no Antigo Testamento. Portanto, Prolegômenos é tudo aquilo que precisamos saber antes de estudar um assunto mais profundo, isto é, são as bases e explicações iniciais que nos preparam  para entender bem o conteúdo principal.

Ao estabelecer esses fundamentos, o intérprete é capacitado a ler o texto bíblico com reverência, responsabilidade acadêmica e sensibilidade espiritual, reconhecendo que a teologia do Antigo Testamento não é apenas um estudo do passado, mas uma voz viva que continua revelando o caráter, os propósitos e a fidelidade de Deus.

 

________________________________________________________________________________

  1. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 23.
  2. ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 71.
  3. KAISER JR., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 11.
  4. HASSEL, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: UNASPRESS, 2001, p. 45.
  5. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 105.
  6. GEISLER, Norman; NIX, William. Introdução Bíblica. São Paulo: Vida, 2011, p. 89.

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bíblia Sagrada, A Constituição Divina

                                                   


                                                                      Por Josué de A Soares

Introdução

Toda sociedade organizada se fundamenta em uma constituição, documento supremo que estabelece princípios, direitos, deveres e a forma correta de convivência. À luz da fé cristã, a Bíblia Sagrada pode ser compreendida como a Constituição Divina, isto é, o conjunto de leis, princípios e revelações que regulam a relação entre Deus e a humanidade. Não se trata apenas de um livro religioso, mas da expressão máxima da vontade soberana de Deus para a vida espiritual, moral e social do ser humano.

Ao longo da história, povos e nações criaram códigos jurídicos para ordenar a vida coletiva. Contudo, antes mesmo das constituições humanas, Deus já havia estabelecido Sua Palavra como regra de fé e prática. A Escritura se apresenta, portanto, como norma suprema, imutável em seus princípios e plenamente suficiente para conduzir o homem à salvação e a uma vida justa diante de Deus.

1. A Bíblia como fundamento da autoridade divina

A Bíblia reivindica para si mesma uma autoridade singular. Diferente de qualquer outro escrito, ela afirma ter origem divina: “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2Tm 3.16). O termo inspiração indica que a Palavra procede do próprio Deus, ainda que tenha sido registrada por autores humanos em contextos históricos distintos. Essa dupla autoria confere à Bíblia autoridade absoluta sobre a fé e a conduta cristã¹.

Como Constituição Divina, a Escritura não depende da validação humana para exercer sua autoridade. Ela é normativa porque procede do Legislador Supremo. Assim como uma constituição civil está acima das demais leis, a Palavra de Deus está acima de tradições, costumes e opiniões pessoais. Jesus confirmou essa supremacia ao declarar: “A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35).

2. Princípios, leis e valores da Constituição Divina

Uma constituição estabelece princípios fundamentais que orientam toda a vida social. De modo semelhante, a Bíblia apresenta valores eternos que regem o relacionamento do homem com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17) funcionam como um núcleo constitucional da revelação, revelando padrões morais que ultrapassam culturas e épocas².

Esses princípios não são meramente legais, mas espirituais e éticos. Eles visam a preservação da vida, da justiça, da dignidade humana e da santidade. O salmista reconhece essa excelência ao afirmar: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sl 19.7). A Constituição Divina não oprime, antes liberta, pois conduz o homem à verdadeira ordem estabelecida por Deus.

3. A Bíblia como guia para a vida pessoal e comunitária

Enquanto as constituições humanas regulam principalmente a esfera pública, a Bíblia alcança tanto o interior do indivíduo quanto a vida comunitária. Ela orienta pensamentos, intenções e atitudes, chamando o ser humano a uma transformação integral. O profeta Jeremias anuncia a promessa de uma lei escrita no coração (Jr 31.33), revelando que a Constituição Divina atua de dentro para fora.

Na comunidade de fé, a Bíblia serve como regra de organização, disciplina e missão. A igreja primitiva perseverava “na doutrina dos apóstolos” (At 2.42), reconhecendo a Palavra como base de sua vida espiritual e social. Onde a Escritura é respeitada como Constituição Divina, há ordem, edificação e crescimento saudável do povo de Deus³.

4. Cristo e o cumprimento da Constituição Divina

Jesus Cristo não aboliu a Constituição Divina, mas a cumpriu em sua plenitude. Ele afirmou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mt 5.17). Em Cristo, a Palavra se fez carne (Jo 1.14), revelando de forma perfeita o caráter e a vontade de Deus.

O Novo Testamento mostra que a Constituição Divina alcança seu ápice no amor, que resume toda a Lei (Mt 22.37-40). Assim, a obediência bíblica não se baseia apenas em mandamentos externos, mas em um relacionamento vivo com Deus, mediado por Cristo e aplicado pelo Espírito Santo.

Conclusão

Compreender a Bíblia Sagrada como Constituição Divina é reconhecer sua autoridade suprema, sua suficiência e sua relevância permanente. Em um mundo marcado por relativismo moral e instabilidade ética, a Palavra de Deus permanece firme como fundamento seguro para a fé, a vida e a esperança cristã.

A Escritura continua sendo o documento maior do Reino de Deus, orientando seus cidadãos quanto à verdade, à justiça e à salvação. Submeter-se à Constituição Divina não é perder liberdade, mas encontrar o verdadeiro propósito da existência sob o governo gracioso do Senhor.

__________________________________________________________________

  1. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
  2. WALTON, John H. Antigo Testamento: Contexto e Teologia. São Paulo: Vida Nova, 2018.
  3. STOTT, John. A Bíblia Contemporânea. São Paulo: ABU, 2007.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O DEUS QUE PRESERVA, RESTAURA E HONRA OS QUEM OUVEM A SUA VOZ


Texto Base: 2 Reis 8.1–6

 Introdução

 O contexto da passagem do capítulo 8 de 2 Reis nos reconecta à história da mulher sunamita, apresentada anteriormente em 2 Reis 4. Ela foi uma mulher sensível à presença de Deus, hospitaleira ao profeta Eliseu e profundamente marcada por milagres: a promessa de um filho e a ressurreição desse menino.

Agora, o texto revela um novo cenário: fome na terra, crise econômica e instabilidade social. Deus, porém, não abandona aqueles que andam em obediência. O mesmo Deus que gera vida, também preserva no tempo da escassez e restaura aquilo que foi perdido.

Esta passagem nos ensina que Deus age antes, durante e depois das crises.

 I – Entendendo o cenário.

Verso 1: Eliseu adverte a sunamita sobre uma fome de sete anos e orienta que ela se retire da terra.

 Versos 2–3: A mulher obedece, peregrina por sete anos e retorna buscando seus direitos.

 Versos 4–6: Deus orquestra o encontro entre o rei, Geazi e a mulher, resultando na restituição completa.

 Nada aqui é acaso. Tudo é providência divina.

 II - TRÊS VERDADES NO TEXTO

1ª VERDADE – DEUS AVISA ANTES DA CRISE - “Falou Eliseu àquela mulher… dizendo: Levanta-te e vai…” (v.1)

 a)     Ensino Bíblico - Deus não permitiu que a fome chegasse sem aviso. Ele falou por meio do profeta. O alerta não foi para causar medo, mas para preservar a vida.

 b)     Aplicação Espiritual - 1)Deus ainda fala antes das crises. 2)     A sensibilidade espiritual nos livra de perdas desnecessárias. 3)     Quem anda próximo da Palavra discerne o tempo certo de agir.

  Crise não surpreende quem anda em comunhão com Deus.

 2ª VERDADE – A OBEDIÊNCIA NOS GUARDA NO TEMPO DA ESCASSEZ  “Levantou-se a mulher e fez conforme a palavra do homem de Deus” (v.2)

 a)     Ensino Bíblico - A mulher não discutiu, não questionou, nem adiou. Ela obedeceu, mesmo sem garantias visíveis. Sete anos fora de sua terra, longe de sua casa, mas dentro da vontade de Deus.

 b)     Aplicação Espiritual - 1) Obediência pode parecer perda momentânea, mas é proteção eterna. 2)Às vezes Deus nos tira de um lugar para nos preservar. 3)  Fé verdadeira se manifesta em atitudes práticas.

 É melhor perder um lugar do que perder o propósito.

 3ª VERDADE – DEUS RESTAURA E HONRA QUEM PERMANECE FIEL  “Restitui-lhe tudo quanto era seu…” (v.6)

 a)     Ensino Bíblico -  No momento exato, Deus move o coração do rei. Geazi está contando os milagres, e justamente naquele instante a mulher entra. Não apenas sua terra foi devolvida, mas todo o rendimento dos anos anteriores.

 b)     Aplicação Espiritual - 1)Deus não esquece os que obedecem. 2) A restituição divina é completa. 3)     O que parecia atraso era preparação para algo maior.

Deus não apenas devolve; Ele compensa.

 Conclusão

 Esta passagem nos ensina que: a) Deus fala antes da crise. b) A obediência sustenta durante a crise, e c) A fidelidade é honrada após a crise.

 Quero que saiba: a) Antes da crise: ouça a voz de Deus. b) No meio da crise: permaneça obediente. E, c) Após a crise: prepare-se para a restituição.

 Diz a Palavra de Deus: “O Senhor guarda os fiéis” (Salmos 31.23)

 Deus continua sendo o mesmo: a) Ele avisa; b) Ele guarda; c) Ele restaura. Que o Espírito Santo nos conceda ouvidos sensíveis, coração obediente e fé perseverante.

 

                                                     Fraternalmente,  

                                               Josué de Asevedo soares

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Profetas em Tempos de Crise

                                             

                                                               Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

A trajetória do povo de Israel foi marcada por crises políticas, sociais e espirituais. Guerras, invasões estrangeiras, deportações e exílios constituíram momentos de ruptura profunda, que colocaram em xeque a identidade e a fé do povo da aliança. Foi nesse cenário turbulento que os profetas desempenharam papel essencial, sendo porta-vozes da justiça divina e, ao mesmo tempo, proclamadores de esperança.

Este estudo busca compreender a manifestação profética em períodos de crise, enfatizando a forma como os profetas interpretaram os acontecimentos à luz da soberania de Deus e anunciaram promessas de restauração. Para tal, recorreremos também a reflexões de teólogos que discutem a função profética nesses contextos de adversidade.

Profetas e a Interpretação da Crise

Os profetas interpretaram as crises históricas como consequência da infidelidade de Israel à aliança. Jeremias, por exemplo, compreendeu a queda de Jerusalém (586 a.C.) não apenas como uma catástrofe política, mas como juízo divino sobre a desobediência do povo (Jr 25:8-11). Walter Brueggemann observa que a profecia de Jeremias revela a tensão entre denúncia e consolo, pois o profeta não apenas anunciou destruição, mas também semeou esperança de renovação do pactoⁱ.

De modo semelhante, Ezequiel, no contexto do exílio babilónico, apresentou uma visão crítica sobre a corrupção religiosa e social de Israel (Ez 8–11). Contudo, anunciou também a promessa de um “novo coração” e de um “novo espírito” (Ez 36:26), indicando que a restauração espiritual precederia a reconstrução nacional. Para Brevard S. Childs, a mensagem de Ezequiel enfatiza que a crise não significava o fim da história da salvação, mas uma oportunidade para a renovação da relação com Deus².

A Mensagem Profética em Tempos de Guerra

Isaías é um dos profetas que mais se destacou no contexto de guerra. Durante a ameaça assíria, proclamou que a verdadeira segurança de Israel não estava em alianças políticas, mas na confiança em Javé (Is 7:9). Karl Barth interpreta Isaías como exemplo da proclamação da soberania absoluta de Deus em meio às potências mundiais, lembrando que somente em Deus há esperança de salvação³.

Amós e Oséias, por sua vez, profetizaram em tempos de prosperidade aparente, mas advertiram sobre o iminente juízo militar. Amós denunciou a injustiça social (Am 5:24) e Oséias usou a metáfora do matrimônio para expor a infidelidade espiritual de Israel (Os 2:2-13). Nesse sentido, ambos anteciparam que as crises militares eram, em última instância, reflexo da crise espiritual do povo.

O Exílio e a Esperança da Restauração

O exílio babilónico foi, sem dúvida, a maior crise da história de Israel. Nesse contexto, as mensagens de esperança tornaram-se ainda mais centrais. Jeremias anunciou o “novo pacto” escrito no coração (Jr 31:31-34), projetando uma renovação espiritual que se cumpriria plenamente em Cristo. Já o chamado “Segundo Isaías” (Is 40–55) destacou a promessa de libertação e a vinda do Servo do Senhor, apontando para um futuro messiânico de restauração universal.

Para Christopher J. H. Wright, os profetas do exílio não apenas confortaram o povo, mas também ofereceram uma visão missionária da esperança, projetando um futuro em que todas as nações reconheceriam a glória de Deus⁴. Essa dimensão escatológica amplia a compreensão da crise, transformando-a em ocasião para a revelação da fidelidade divina.

A Relevância Teológica da Profecia em Tempos de Crise

A atuação dos profetas em meio às crises demonstra que a mensagem profética não se limita à denúncia, mas inclui o anúncio de esperança. Como destaca Abraham Joshua Heschel, a profecia é “a voz que Deus empresta ao sofrimento humano, mas também a voz que anuncia a compaixão divina”⁵.

Na perspectiva evangélica, essa dinâmica revela a tipologia cristológica da profecia: em meio ao juízo, Deus prepara a redenção. Cristo, como cumprimento da esperança profética, é a resposta final de Deus às crises humanas. Assim, os profetas não apenas interpretaram o passado de Israel, mas apontaram para a esperança escatológica que se concretiza em Jesus.

Conclusão

Os profetas em tempos de crise exerceram função indispensável para a preservação da fé de Israel. Em meio a guerras, destruição e exílio, denunciaram o pecado, interpretaram a história à luz da aliança e anunciaram a esperança de restauração.

A análise teológica confirma que a profecia não é mero diagnóstico do presente, mas anúncio do futuro de Deus. Para a Igreja atual, esse testemunho permanece relevante, pois recorda que, mesmo em meio às maiores crises, a voz profética continua a apontar para a soberania divina e para a esperança em Cristo.

_________________________________________________________________

1.      Walter Brueggemann, Hopeful Imagination: Prophetic Voices in Exile (Philadelphia: Fortress Press, 1986), p. 42.

2.      Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 365.

3.      Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T Clark, 1957), p. 152.

4.      Christopher J. H. Wright, The Mission of God (Downers Grove: IVP Academic, 2006), p. 285.

5.      Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper & Row, 1962), p. 7.

 

O Chamado dos Profetas

 

    

Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

O chamado profético no Antigo Testamento representa um dos temas mais ricos e teologicamente significativos para a compreensão da relação entre Deus e o seu povo. Diferentes narrativas bíblicas descrevem como homens e mulheres foram convocados por Deus para se tornarem porta-vozes da sua vontade, geralmente em contextos de crise espiritual ou social. Esse chamado não foi apenas uma designação de função, mas uma experiência profunda de encontro com o divino, que frequentemente provocava temor, resistência e transformação.

Este ensaio procura analisar como os profetas foram chamados por Deus, destacando experiências específicas e as reações iniciais registradas nas Escrituras. Além disso, recorreremos à reflexão de pensadores da teologia que examinaram a natureza e o significado desse chamado, enfatizando a dimensão espiritual e pastoral que ele revela para a fé cristã.

Narrativas Bíblicas do Chamado Profético

Isaías: A Santidade de Deus e a Purificação do Chamado

Em Isaías 6, o profeta descreve sua visão do trono de Deus, onde serafins proclamam a santidade do Senhor. Confrontado com a glória divina, Isaías responde: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6:5). Somente após a purificação de seus lábios pelo carvão ardente, ele aceita a missão, respondendo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8). Karl Barth interpreta esse episódio como a revelação do contraste absoluto entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana, mostrando que o chamado profético nasce da graça purificadoraⁱ.

Jeremias: A Juventude e a Resistência Inicial

O chamado de Jeremias (Jr 1:4-10) é marcado por sua resistência inicial: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (v. 6). Deus, porém, o encoraja, prometendo-lhe presença e autoridade sobre nações e reinos. Walter Brueggemann observa que a vocação de Jeremias reflete o padrão de “resistência e superação”, típico da experiência profética, em que a fragilidade humana se torna instrumento da força divina².

Ezequiel: O Profeta do Espírito

A narrativa do chamado de Ezequiel (Ez 1–3) apresenta visões apocalípticas e a experiência da presença do Espírito de Deus. O profeta é comissionado a falar a um povo obstinado, recebendo um rolo para comer como sinal de que a palavra divina se tornaria parte do seu ser (Ez 3:3). Brevard S. Childs enfatiza que o chamado de Ezequiel destaca a interiorização da mensagem profética, mostrando que a autoridade não estava em si mesmo, mas na palavra de Deus internalizada³.

Moisés e Outros Chamados Significativos

Embora Moisés seja tradicionalmente identificado como legislador, sua experiência no episódio da sarça ardente (Êx 3) carrega elementos comuns ao chamado profético: temor, resistência e a promessa da presença divina. Abraham J. Heschel ressalta que a vocação profética, em geral, é um encontro radical que rompe a normalidade da vida, revelando que o profeta é “um homem tomado pelo pathos divino”⁴.

Reações Iniciais ao Chamado Profético

Um elemento comum nos relatos é a reação inicial de temor, inadequação ou resistência. Isaías sente-se impuro, Jeremias sente-se incapaz por ser jovem, Moisés alega falta de eloquência. Essas respostas humanas revelam a desproporção entre a grandeza da missão e a limitação do mensageiro.

Hans Walter Wolff sublinha que essa dinâmica é essencial para compreender a teologia da vocação: o profeta nunca é um voluntário autônomo, mas um escolhido pela soberania divina, que capacita o chamado⁵. Assim, a resistência inicial, longe de invalidar a missão, reforça a dependência da graça de Deus.

O Significado Teológico do Chamado Profético

O chamado dos profetas mostra que a iniciativa sempre pertence a Deus. Eles não se autoproclamam; são interrompidos e transformados por uma experiência que redefine suas vidas. Na perspectiva evangélica, esse padrão aponta para o princípio da graça: Deus chama os improváveis para manifestar sua glória.

Além disso, o chamado profético revela uma dimensão cristológica. Para a teologia reformada, os profetas prefiguram o chamado e a missão de Cristo, o Profeta supremo, que veio anunciar a plenitude da revelação de Deus (Hb 1:1-2). A Igreja, como corpo de Cristo, continua a ser chamada para testemunhar a palavra profética no mundo, sendo fiel ao Evangelho mesmo em meio a resistências e perseguições.

Conclusão

O estudo do chamado dos profetas mostra que a vocação profética é, antes de tudo, um encontro com o Deus vivo, que transforma a fragilidade humana em instrumento da sua vontade. As narrativas bíblicas de Isaías, Jeremias, Ezequiel e Moisés revelam que o chamado é marcado por temor e resistência, mas também pela graça capacitadora de Deus.

Pensadores como Barth, Brueggemann, Childs, Heschel e Wolff evidenciam que a vocação profética não é mero episódio histórico, mas paradigma teológico que continua a inspirar a Igreja. Para a fé evangélica, a experiência desses profetas aponta para a centralidade da obediência a Deus, lembrando que cada chamado é expressão da soberania e do amor divinos.

_____________________________________________________________________

1.      Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T Clark, 1957), p. 142.

2.      Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination (Philadelphia: Fortress Press, 1978), p. 29.

3.      Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 375.

4.      Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper & Row, 1962), p. 21.

5.      Hans Walter Wolff, Amos the Prophet (Philadelphia: Fortress Press, 1973), p. 11.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A ESPADA E A COLHER DE PEDREIRO: UM CHAMADO URGENTE À IGREJA DO NOSSO TEMPO

 

“Os que edificavam o muro, e os que traziam as cargas, cada um com uma mão fazia a obra, e na outra tinha a espada.”  (Neemias 4.17)

                                                             Por Josué de Asevedo Soares  

Há momentos na história do povo de Deus em que não é mais possível escolher entre lutar ou construir. É preciso fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Em Neemias 4, encontramos uma geração que edificava os muros de Jerusalém com a colher de pedreiro em uma mão e a espada na outra. Aquela imagem não é apenas histórica; ela é profética. Fala diretamente à Igreja dos nossos dias.

Vivemos tempos de distração espiritual, acomodação ministerial e, em muitos casos, de um cristianismo reduzido ao culto, mas distante da missão. Há louvor, há programação, há estrutura, mas falta urgência. Falta o peso da responsabilidade espiritual. Falta o senso de que a obra de Deus precisa ser feita enquanto ainda é dia.

Jesus foi claro: “Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (João 9.4). A Igreja não foi chamada apenas para se proteger do mundo, mas para edificar o Reino em meio a um mundo em ruínas.

A ESPADA: A PALAVRA QUE DEFENDE, CORRIGE E DESPERTA

A espada, nas Escrituras, representa a Palavra de Deus. Paulo afirma que ela é “a espada do Espírito” (Efésios 6.17). Não é uma arma carnal, mas espiritual. Não serve para ferir pessoas, mas para destruir fortalezas, confrontar o pecado e discernir os pensamentos do coração.

Charles Spurgeon dizia que “a Bíblia que está se desfazendo geralmente pertence a alguém que não está”. A Igreja precisa voltar a empunhar a espada com reverência, fidelidade e coragem. Não uma palavra diluída para agradar, mas uma Palavra viva, que confronta, cura e transforma.

Martyn Lloyd-Jones alertava que o maior perigo da Igreja não é a perseguição externa, mas a perda da autoridade espiritual da Palavra. Quando o púlpito perde a espada, a Igreja perde sua voz profética. Onde não há Palavra, há entretenimento; onde não há confronto, há conformismo; onde não há verdade, há uma fé frágil e superficial.

A espada precisa estar na mão da Igreja para defender a fé, guardar a doutrina, resistir ao erro e despertar consciências adormecidas. Uma Igreja sem espada é uma Igreja vulnerável.

A COLHER DE PEDREIRO: A OBRA QUE EXIGE SUOR, CONSTÂNCIA E SERVIÇO

Mas Neemias não fala apenas de espada. Fala também da colher de pedreiro, símbolo do trabalho diário, silencioso e persistente. Edificar muros exige esforço, paciência e comprometimento. Não há glamour na construção; há poeira, cansaço e mãos calejadas.

D. L. Moody dizia que “o mundo ainda não viu o que Deus pode fazer com um homem totalmente consagrado a Ele”. Consagração não é apenas emoção no altar; é fidelidade no serviço. É entender que cada tijolo colocado importa. Cada alma cuidada conta. Cada ministério exercido com amor faz diferença.

A Igreja precisa redescobrir o valor do trabalho no Reino: ensinar, discipular, evangelizar, cuidar dos necessitados, visitar, interceder, servir. Não fomos chamados apenas para defender a fé, mas para construir vidas, restaurar famílias e edificar uma geração firme em Deus.

Não se constrói a obra de Deus apenas com discursos inflamados, mas com mãos dispostas. A colher de pedreiro fala de compromisso prático com a missão.

UM CHAMADO À IGREJA: NÃO SOLTE NEM A ESPADA, NEM A COLHER

O erro de muitos é querer escolher entre uma coisa e outra. Alguns querem apenas a espada: combatem, discutem, confrontam, mas não constroem. Outros querem apenas a colher: trabalham, servem, mas evitam o confronto da verdade. Neemias nos ensina que a maturidade espiritual está no equilíbrio.

A Igreja do Senhor precisa da espada e da colher ao mesmo tempo. Precisamos de oração e ação. Doutrina e compaixão. Santidade e serviço. Firmeza na verdade e amor pelas pessoas.

Spurgeon afirmou certa vez: “Se Deus chamou você para ser pregador, não desça ao nível de um político; se chamou para ser servo, não abandone o altar”. O chamado de Deus exige entrega total. Não há espaço para neutralidade em tempos de guerra espiritual.

UM DESPERTAR NECESSÁRIO

Este é um chamado ao despertar. O muro ainda não está completo. O inimigo ainda ronda. As brechas ainda existem. O mundo geme. As famílias sofrem. As almas perecem. E Deus continua chamando Seu povo para a obra.

Não é tempo de espectadores. É tempo de trabalhadores. Não é tempo de descanso espiritual. É tempo de vigilância. Não é tempo de soltar as ferramentas. É tempo de segurar firme a espada e continuar edificando.

Que o Espírito Santo desperte a Igreja. Que desperte líderes cansados, obreiros desanimados, crentes acomodados. Que voltemos ao propósito original: amar a Deus, servir ao próximo e fazer a obra enquanto ainda há tempo.

Como nos dias de Neemias, que se diga de nós: “O povo tinha ânimo para trabalhar” (Neemias 4.6).

Que o Senhor encontre em nossa geração uma Igreja com a espada na mão e a colher de pedreiro firme no coração. Uma Igreja que luta, constrói, persevera e não recua. Uma Igreja viva, comprometida e cheia do Espírito Santo.

A obra é grande. O chamado é urgente. O tempo é agora. 

                                                 

                                                                Fraternalmente em Cristo. 

                            

sábado, 10 de janeiro de 2026

A VERDADE NÃO É APENAS ALGO QUE SE DIZ; É ALGO QUE SE VIVE.

 


                "Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade." (2 Co 13.8).

Ela não grita para ser percebida, nem precisa de adornos para se sustentar. A verdade permanece firme mesmo quando é ignorada, rejeitada ou silenciada. Diferente da mentira, que depende de conveniência e circunstância, a verdade subsiste por si mesma.

Vivemos em tempos em que muitas “verdades” são fabricadas conforme interesses, emoções ou maiorias momentâneas. Ainda assim, a verdade autêntica não muda com o passar das gerações nem se adapta ao gosto do tempo. Ela confronta, liberta e, muitas vezes, fere antes de curar. Por isso, nem sempre é confortável, mas sempre é necessária.

No campo espiritual, a verdade não é apenas um conceito abstrato, mas uma realidade que orienta a vida. Ela ilumina o caminho, revela intenções do coração e expõe aquilo que precisa ser transformado. A verdade de Deus não nos é dada para nos condenar, mas para nos conduzir à liberdade. Como luz, ela mostra tanto o caminho certo quanto os perigos ocultos da estrada.

Buscar a verdade exige humildade. Quem pensa já possuí-la por completo corre o risco de se fechar ao aprendizado. A verdade se revela àqueles que têm coragem de abandonar ilusões, reconhecer limites e submeter suas certezas a uma consciência reta e sincera.

Viver na verdade é alinhar palavras, atitudes e fé. É escolher a integridade mesmo quando o silêncio seria mais conveniente. É permanecer fiel ao que é justo, ainda que isso custe aprovação ou aplausos. No fim, a verdade pode até ser questionada por um tempo, mas jamais será vencida.

                                      Porque tudo o que é verdadeiro permanece.   

                                                       Josué de Asevedo Soares

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A FÉ QUE PERMANCE EM MEIO AOS CAOS

 


Poucos livros bíblicos expressam com tanta honestidade a tensão entre fé e caos quanto o livro do profeta Habacuque. Diferente de outros profetas que falam ao povo em nome de Deus, Habacuque dialoga com o próprio Senhor a partir de sua perplexidade diante da realidade. Seu livro nasce em um contexto de colapso moral, injustiça social e ameaça iminente de destruição nacional. É nesse cenário de instabilidade que a fé deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma experiência existencial profunda. Habacuque nos ensina que a vitória da fé não consiste em compreender plenamente os caminhos de Deus, mas em confiar n’Ele apesar do caos.

O caos como ponto de partida da fé consciente

Habacuque não inicia sua profecia com declarações de certeza, mas com perguntas angustiadas. Ele observa a violência, a corrupção e a perversão da justiça, e clama: “Até quando, Senhor?” (Hc 1.2). Essa pergunta não é sinal de incredulidade, mas de uma fé que se recusa a ser superficial. Teologicamente, isso é fundamental: a fé bíblica não elimina o questionamento; ela o conduz à presença de Deus.

O caos percebido pelo profeta não é apenas político ou social, mas espiritual. A lei está enfraquecida, o direito não prevalece e o justo sofre diante da prosperidade do ímpio. Esse cenário cria uma tensão que desafia qualquer teologia simplista da retribuição imediata. Habacuque compreende que a fé verdadeira precisa lidar com a aparente incoerência entre a justiça divina e a realidade histórica.

A revelação de Deus no meio da perplexidade

A resposta divina ao profeta não elimina o caos; ao contrário, aprofunda a crise. Deus revela que usará os caldeus, um povo ainda mais perverso, como instrumento de juízo. Essa revelação desestabiliza completamente a lógica humana de Habacuque. Surge, então, uma segunda rodada de questionamentos, ainda mais intensos. O profeta se vê diante de um Deus que governa a história de maneira soberana, mas não previsível.

É nesse ponto que a fé começa a ser redefinida. Habacuque decide se posicionar espiritualmente: “Pôr-me-ei na minha torre de vigia” (Hc 2.1). Essa atitude revela um aspecto essencial da fé perseverante: ela escolhe esperar. Não é uma espera passiva, mas vigilante, consciente e submissa à revelação divina. A fé, aqui, torna-se uma postura espiritual diante do caos.

“O justo viverá pela sua fé”: o eixo teológico do livro

A resposta central de Deus ao profeta vem em forma de um princípio eterno: “O justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4). Essa declaração não oferece explicações detalhadas sobre os eventos futuros, mas estabelece o fundamento da relação entre Deus e o ser humano. A vida do justo não é sustentada pela previsibilidade das circunstâncias, mas pela confiança contínua no caráter de Deus.

Teologicamente, esse versículo redefine a vitória. Viver, no contexto de Habacuque, não significa prosperar externamente, mas permanecer fiel em meio à instabilidade. Essa fé não nega a realidade do juízo, nem minimiza o sofrimento iminente, mas afirma que a vida verdadeira é preservada pela confiança em Deus. Por isso, esse princípio atravessa as Escrituras e é retomado no Novo Testamento como base da justificação e da vida cristã.

Os tipos de fé revelados em Habacuque

O livro de Habacuque nos permite identificar diversas expressões de fé que se manifestam em meio ao caos.

Primeiramente, destaca-se a fé questionadora (Hc 1.2), que não aceita respostas fáceis e leva suas inquietações à presença de Deus. Essa fé reconhece a soberania divina, mas busca compreensão dentro dos limites humanos.

Em seguida, aparece a fé perseverante (Hc 2.3), expressa na decisão de esperar mesmo sem garantias imediatas. Habacuque aprende que a visão tem um tempo determinado e que a fé precisa acompanhar o ritmo do agir divino.

Também se evidencia a fé confiante (Hc 1.12), que descansa no caráter de Deus acima dos acontecimentos históricos. O profeta passa a compreender que Deus é eterno, santo e fiel, mesmo quando utiliza instrumentos inesperados para cumprir Seus propósitos.

Por fim, emerge a fé adoradora (Hc 3.17-18), que alcança seu ápice no capítulo final. Habacuque transforma sua angústia em louvor, revelando uma fé amadurecida, capaz de adorar antes da mudança das circunstâncias.

A fé que vence antes da mudança das circunstâncias

O capítulo 3 de Habacuque representa uma das declarações mais sublimes da Escritura sobre a vitória da fé. Diante da iminência da perda econômica, da fome e da devastação nacional, o profeta afirma que sua alegria não está condicionada à prosperidade visível. Ele escolhe se alegrar no Senhor, não porque o caos foi removido, mas porque Deus permanece sendo sua força.

Essa declaração revela o mais alto grau da fé bíblica: a fé que encontra sua vitória na comunhão com Deus, e não na alteração imediata da realidade. Habacuque aprende que Deus não é apenas o solucionador de crises, mas o fundamento da existência.

Habacuque e a fé cristológica

À luz do Novo Testamento, a experiência de Habacuque aponta para Cristo. Assim como o profeta, Jesus enfrentou o caos moral e espiritual de seu tempo. Assim como Habacuque, Ele confiou plenamente no Pai, mesmo quando o caminho conduziu à cruz. A fé que Habacuque anuncia encontra sua plenitude em Cristo, que vence o caos definitivo, o pecado e a morte, por meio da obediência e da entrega total.

A vitória da fé, portanto, não é uma abstração espiritual, mas uma realidade ancorada na fidelidade de Deus revelada ao longo da história da redenção.

Por fim, Habacuque nos ensina que a fé não elimina o caos, mas transforma a maneira como o enfrentamos. Ela começa com perguntas, amadurece na espera e culmina na adoração. A vitória da fé não está em controlar os acontecimentos, mas em permanecer firme quando eles parecem incontroláveis.

Em um mundo marcado por rupturas constantes, a mensagem de Habacuque continua atual: o justo viverá pela sua fé. E essa fé vence, não porque compreende tudo, mas porque confia plenamente naquele que governa a história e conduz Seus filhos até o fim.   


 Josué de Asevedo Soares