Por Josué de A Soares.
A história da transmissão das Escrituras Sagradas é
marcada por eventos que transformaram profundamente o acesso e a difusão da
Palavra de Deus. Entre esses marcos, destacam-se a chamada Bíblia Mazarin, nome dado à Bíblia de
Gutenberg, o primeiro grande livro impresso com tipos móveis no Ocidente, e a
publicação, em 1516, do Novo Testamento
Grego organizado por Erasmo de Roterdã. Embora muitas vezes confundidos,
esses acontecimentos são distintos e possuem relevância própria na história da
Bíblia.
A Bíblia Mazarin (Bíblia de Gutenberg)
Cena histórica de impressão antiga
A chamada Bíblia
Mazarin é outro nome dado à famosa Bíblia de Gutenberg, impressa por Johannes Gutenberg por volta de 1454–1455, na cidade de Mainz, na
atual Alemanha.
O nome “Mazarin” surgiu porque um exemplar foi
encontrado na biblioteca do cardeal Jules
Mazarin, no século XVII. Durante muito tempo, esse foi o exemplar mais
conhecido da obra, e o nome acabou sendo associado à edição.
Características principais:
- Impressa em latim, baseada na Vulgata.
- Continha 42 linhas por página, sendo
conhecida também como “Bíblia das 42 linhas”.
- Foi o primeiro grande livro
impresso com tipos móveis
metálicos no Ocidente.
- Marcou o início da chamada Revolução da Imprensa.
A Bíblia de Gutenberg não foi o primeiro texto
bíblico escrito, mas foi o primeiro grande texto bíblico produzido em escala
por meio da tecnologia da imprensa. Isso revolucionou o acesso ao conhecimento
e abriu caminho para a ampla circulação das Escrituras.
O Novo Testamento Grego de 1516
Em 1516,
mais de meio século após a Bíblia de Gutenberg, foi publicado o Novum Instrumentum omne,
organizado por Erasmo de Roterdã.
Esse foi o primeiro
Novo Testamento impresso em grego. A obra apresentava:
- O texto grego do Novo
Testamento;
- Uma nova tradução latina
feita por Erasmo;
- Anotações críticas e
comentários.
Essa edição tornou-se extremamente influente, dando
origem ao que mais tarde ficou conhecido como Textus Receptus, texto que serviria de base para traduções
importantes, como a Bíblia de Lutero (em alemão) e, posteriormente, a versão
inglesa King James.
Diferença entre os dois marcos históricos
É
importante compreender a distinção histórica:
|
Bíblia Mazarin (Gutenberg) |
Novo Testamento Grego (1516) |
|
Impressa
em 1454–1455 |
Publicado
em 1516 |
|
Texto
em latim (Vulgata) |
Texto
em grego |
|
Primeiro
grande livro impresso com tipos móveis |
Primeiro
Novo Testamento grego impresso |
|
Revolução
tecnológica |
Marco
do humanismo e da crítica textual |
Enquanto Gutenberg revolucionou o meio de produção, Erasmo impactou o conteúdo textual, incentivando
o retorno às fontes originais (ad fontes), característica central do humanismo
renascentista.
Importância Teológica e Histórica
A Bíblia de Gutenberg democratizou o acesso às
Escrituras, preparando o terreno para a Reforma Protestante no século XVI. Já a
edição de Erasmo forneceu base textual para os reformadores, como Lutero, que
buscaram traduzir a Bíblia diretamente dos idiomas originais.
Assim,
ambos os eventos foram fundamentais para a consolidação do texto bíblico no
Ocidente e para a expansão do cristianismo em sua forma moderna.
Conclusão
A chamada Bíblia Mazarin e o Novo Testamento Grego
de 1516 não são a mesma obra, nem pertencem ao mesmo momento histórico. A
primeira representa a revolução da imprensa; a segunda, o avanço da crítica
textual e do retorno às línguas originais. Juntas, porém, simbolizam dois
pilares da história bíblica: a difusão e o aprimoramento do texto sagrado.
A compreensão desses marcos históricos fortalece
nossa percepção sobre como Deus, na Sua providência, utilizou avanços
tecnológicos e intelectuais para preservar e espalhar as Escrituras ao longo
dos séculos.
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- A Bíblia de Gutenberg foi
impressa por volta de 1454–1455 em Mainz, Alemanha, sendo considerada o
primeiro grande livro produzido com tipos móveis no Ocidente.
- O nome “Bíblia Mazarin”
deriva de um exemplar encontrado na biblioteca do cardeal Jules Mazarin no
século XVII.
- Erasmo publicou o Novum
Instrumentum omne em 1516, em Basileia, contendo o primeiro Novo
Testamento impresso em grego.
- O chamado Textus Receptus
deriva das edições posteriores do texto grego de Erasmo e tornou-se base
para diversas traduções da Reforma.
