terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Culto de Doutrina à Luz da Bíblia e Tradição da Assembleia de Deus

 

                                                     
 Por Josué  de A Soares

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (Atos 2.42)

Introdução

A doutrina sempre ocupou lugar central na vida da Igreja cristã. Desde seus primórdios, o povo de Deus foi chamado não apenas a crer, mas a permanecer na verdade revelada. O testemunho de Atos dos Apóstolos apresenta uma Igreja que nasce sob o ensino apostólico, sustentada pela Palavra, pela comunhão e pela prática da fé. Nesse contexto, o culto de doutrina emerge como expressão histórica e teológica da fidelidade da Igreja à revelação divina.

No âmbito da Assembleia de Deus, o culto de doutrina assume papel estratégico na preservação da fé bíblica, na formação espiritual dos crentes e na manutenção da identidade pentecostal clássica. Em um cenário contemporâneo marcado por pluralismo religioso, sincretismo teológico e relativização da verdade, refletir academicamente sobre a importância desse culto torna-se não apenas pertinente, mas necessário.

1. Fundamentos Bíblicos do Culto de Doutrina

A Escritura Sagrada apresenta a doutrina como elemento essencial da vida comunitária do povo de Deus. No Antigo Testamento, a instrução divina (torah) já possuía caráter pedagógico e espiritual, conduzindo Israel à obediência e à santidade (Dt 6.6-9). No Novo Testamento, essa dimensão se aprofunda por meio do ensino de Cristo e dos apóstolos.

Jesus é apresentado nos Evangelhos como Mestre por excelência (Mt 7.28-29), cuja autoridade estava fundamentada na verdade divina. Ele ordena aos seus discípulos que façam novos discípulos, ensinando-os a guardar todas as coisas” (Mt 28.20), o que demonstra que o ensino não é periférico, mas parte essencial da missão da Igreja.

A Igreja Primitiva perseverava na didachḗ apostólica (At 2.42), evidenciando que a fé cristã é inseparável do conteúdo que a sustenta. O apóstolo Paulo reforça esse princípio ao exortar Timóteo a permanecer na sã doutrina, advertindo que chegariam tempos em que muitos não suportariam o ensino saudável (2Tm 4.2-4). Assim, o culto de doutrina cumpre a função bíblica de ensinar, corrigir, exortar e edificar (cf. 2Tm 3.16).

2. Doutrina e Edificação Espiritual da Igreja

Do ponto de vista teológico, a doutrina não se limita à transmissão de informações, mas está diretamente ligada à formação espiritual do crente. Paulo afirma que Deus concedeu ministérios à Igreja “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13). Tal maturidade espiritual só é possível mediante ensino sólido e contínuo.

Wayne Grudem define a doutrina cristã como aquilo que “toda a Bíblia ensina sobre determinado tema”¹, o que reforça a necessidade de um ensino sistemático das Escrituras. Nesse sentido, o culto de doutrina atua como instrumento pedagógico da Igreja, promovendo discernimento espiritual e firmeza teológica.

Para a Assembleia de Deus, essa edificação doutrinária sempre esteve associada à prática do culto público, onde a Palavra é exposta de forma clara, reverente e dependente da ação do Espírito Santo. Diferentemente de uma fé meramente emocional, o culto de doutrina busca equilibrar experiência espiritual e fundamento bíblico, evitando tanto o intelectualismo seco quanto o emocionalismo vazio.

3. O Culto de Doutrina na Tradição da Assembleia de Deus

Historicamente, a Assembleia de Deus no Brasil nasceu com forte ênfase bíblica. Seus pioneiros compreenderam que o avivamento pentecostal deveria estar alicerçado na Palavra. Antonio Gilberto, referência na educação teológica assembleiana, afirma que “não existe verdadeira espiritualidade sem compromisso com a sã doutrina”².

O culto de doutrina, portanto, tornou-se espaço privilegiado para:

  • Ensino das verdades fundamentais da fé cristã;
  • Formação de obreiros e líderes;
  • Preservação da identidade confessional pentecostal;
  • Combate a heresias e modismos teológicos.

Além disso, esse culto reafirma a autoridade das Escrituras como regra de fé e prática, princípio caro à tradição protestante e pentecostal. Como observa Millard Erickson, a teologia cristã deve ser “bíblica, histórica e prática”³ — elementos que se encontram integrados no culto de doutrina quando bem conduzido.

4. Relevância Contemporânea do Culto de Doutrina

No contexto atual, marcado por discursos religiosos fragmentados e por uma espiritualidade muitas vezes desvinculada da verdade bíblica, o culto de doutrina assume caráter contracultural. Ele chama a Igreja de volta à centralidade da Palavra, à fidelidade ao evangelho e à responsabilidade teológica.

A negligência doutrinária tem produzido crentes frágeis, facilmente levados por “ventos de doutrina” (Ef 4.14). Por isso, o culto de doutrina não deve ser visto como repetitivo ou secundário, mas como ato de adoração consciente, no qual Deus fala por meio das Escrituras e molda o caráter do seu povo.

Conclusão

À luz das Escrituras e da tradição da Assembleia de Deus, conclui-se que o culto de doutrina é elemento indispensável para a saúde espiritual da Igreja. Ele preserva a fé apostólica, promove maturidade cristã e fortalece a identidade pentecostal bíblica.

Manter viva essa prática é honrar o legado da Igreja Primitiva, obedecer ao ensino apostólico e preparar o povo de Deus para permanecer firme em tempos de crise espiritual e teológica. Onde a doutrina é valorizada, a Igreja cresce de forma saudável; onde é negligenciada, a fé se enfraquece. Assim, perseverar na doutrina continua sendo um chamado urgente e inegociável.

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¹ GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
² GILBERTO, Antonio. A Bíblia através dos Séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
³ ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
⁴ BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O Púlpito nos últimos tempos: entre o espetáculo e a Palavra

 

“Prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, repreende, exorta, com toda longanimidade e doutrina.” (2 Timóteo 4.2)

O púlpito sempre foi lugar santo. Não pela madeira, pela forma ou pela elevação física, mas pela responsabilidade espiritual que ele representa. É do púlpito que a Igreja ouve a Palavra de Deus sendo anunciada, interpretada e aplicada à vida. Entretanto, nos últimos tempos, torna-se cada vez mais evidente que muitos púlpitos têm se afastado do seu propósito bíblico, substituindo a centralidade das Escrituras por discursos voltados ao entretenimento, à performance e à busca de resultados imediatos.

À luz da Bíblia, a pregação jamais foi chamada para agradar plateias ou construir celebridades religiosas. Ela existe para revelar a vontade de Deus, confrontar o pecado, anunciar a graça redentora em Cristo e formar discípulos maduros. Quando o púlpito perde essa consciência, perde-se também a visão do cristianismo bíblico, comprometido com a verdade, a simplicidade e o temor do Senhor.

A pregação bíblica: Cristo no centro e a Escritura como autoridade

A pregação no Novo Testamento era marcada por três fundamentos inegociáveis: fidelidade ao texto sagrado, dependência do Espírito Santo e clareza na aplicação prática. Pedro pregou a Palavra e os ouvintes foram compungidos no coração (At 2.37). Paulo declarou todo o conselho de Deus sem omissão (At 20.27). Em nenhum desses casos a mensagem foi moldada ao gosto do público, mas à vontade do Senhor.

A verdadeira pregação bíblica não é fria nem superficial. Ela é simples, mas profunda; acessível, mas teologicamente responsável; ungida, mas alicerçada na Escritura. A simplicidade do Evangelho não empobrece a mensagem, antes a torna compreensível e transformadora. O problema surge quando a Bíblia deixa de ser a fonte do sermão e passa a ser apenas um adorno ocasional. Nesse cenário, há emoção, mas pouca transformação; há aplauso, mas pouco arrependimento.

A crise da visão cristã nos púlpitos contemporâneos

O que se percebe em muitos contextos eclesiásticos é uma crise silenciosa: a substituição da verdade revelada pela conveniência cultural. Temas essenciais como arrependimento, santidade, cruz, renúncia e juízo eterno têm sido evitados em nome de uma mensagem mais “leve” e aceitável. Todavia, um Evangelho que não confronta o pecado também não conduz à verdadeira conversão.

O cristianismo bíblico sempre foi contracultural. Jesus não suavizou Sua mensagem para manter multidões; Ele proclamou a verdade, mesmo quando isso resultou em abandono (Jo 6.66). A Igreja não perde relevância quando permanece fiel à Palavra; ela perde identidade quando abre mão dela.

Vozes pentecostais e o chamado ao retorno à Palavra

Dentro da tradição pentecostal, muitos líderes têm levantado um clamor pelo retorno à pregação bíblica equilibrada, onde Palavra e Espírito caminham juntos. O saudoso Pr. Antônio Gilberto afirmava que a verdadeira unção jamais contradiz a Escritura, mas a confirma. Para ele, não existe avivamento genuíno sem Bíblia aberta e bem ensinada.

O Pr. Esequias Soares reforça que o pregador é um intérprete fiel do texto sagrado, não um criador de mensagens. Já o Pr. José Wellington Bezerra da Costa tem reiterado que o crescimento saudável da Igreja depende da união entre expansão missionária e sã doutrina, pois números sem fundamento bíblico produzem fragilidade espiritual.

Nesse mesmo espírito, o Bispo Abner Ferreira, em suas ministrações, frequentemente adverte que o maior risco da pregação contemporânea não é a escassez de recursos, mas a perda do temor diante da Palavra de Deus. Segundo sua ênfase pastoral, o púlpito não é espaço para experiências pessoais desconectadas das Escrituras, nem para discursos vazios de arrependimento.

O Bispo Abner ressalta que quem sobe ao púlpito precisa ter consciência de que está lidando com vidas e com a Palavra do Deus vivo, e não apenas comunicando ideias. Para ele, a autoridade espiritual do pregador não reside na eloquência, mas na fidelidade bíblica e na coerência entre mensagem e vida. Uma pregação sem fundamento nas Escrituras pode até gerar entusiasmo momentâneo, mas jamais produzirá transformação duradoura.

Essa compreensão reflete a essência do pentecostalismo histórico: fogo do Espírito sustentado pela Palavra. Onde há emoção sem Bíblia, há confusão; onde há letra sem o Espírito Santo, há frieza. A Igreja é edificada quando ambos permanecem em harmonia.

Um chamado urgente aos púlpitos dos nossos dias

Mais do que inovação, os púlpitos precisam de retorno. Retorno à Bíblia lida com reverência, explicada com fidelidade e aplicada com amor. Retorno à simplicidade do Evangelho que anuncia Cristo crucificado, ressuscitado e glorificado. Retorno à pregação que forma caráter, produz arrependimento e gera maturidade espiritual.

O púlpito não precisa de novos modismos, mas de fundamentos antigos e eternos. Quando a Palavra volta ao centro, o Espírito Santo age com liberdade, a Igreja cresce com saúde e o mundo reconhece a diferença. Que os púlpitos dos últimos tempos sejam novamente lugares de verdade, temor e graça, onde se fale menos do homem e mais de Cristo, menos de promessas fáceis e mais do Reino eterno.

Pois, como afirma a própria Escritura: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Romanos 10.17).

                                            Fraternalmente, 

                                        Josué de A Soares

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento

 

 


                                               

                                               Por Josué de A Soares

Introdução

O estudo da Teologia do Antigo Testamento exige não apenas devoção espiritual, mas também rigor acadêmico. Antes de adentrar nos grandes temas teológicos que permeiam os livros do Antigo Testamento, como: aliança, lei, profecia, santidade e redenção, faz-se necessário estabelecer fundamentos introdutórios que orientem o método, o objeto e a perspectiva da investigação. Esses fundamentos são tradicionalmente chamados de prolegômenos.

Os prolegômenos funcionam como um alicerce epistemológico e hermenêutico, preparando o intérprete para uma leitura responsável, coerente e fiel do texto sagrado. Assim, os Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento não são meros detalhes preliminares, mas elementos essenciais para a correta compreensão da revelação de Deus nas Escrituras hebraicas.

1. Definição de Prolegômenos

A palavra prolegômenos deriva do grego prolegómena, que significa “coisas ditas antes” ou “afirmações preliminares”¹. No campo da teologia, o termo refere-se ao conjunto de princípios introdutórios que antecedem o estudo sistemático de uma disciplina teológica específica.

Em termos acadêmicos, os prolegômenos tratam de questões como:

  • O objeto de estudo;
  • O método teológico;
  • As fontes da teologia;
  • A autoridade da revelação;
  • E os pressupostos hermenêuticos que guiam a interpretação bíblica.

Portanto, os prolegômenos não respondem imediatamente às perguntas centrais da teologia, mas esclarecem como e a partir de que fundamentos essas perguntas serão abordadas².

2. A Necessidade dos Prolegômenos na Teologia do Antigo Testamento

A Teologia do Antigo Testamento possui características próprias que tornam indispensável um tratamento introdutório cuidadoso. Diferente da teologia sistemática, ela se desenvolve de maneira histórica, progressiva e narrativa, acompanhando a revelação de Deus no contexto da história de Israel³.

Os prolegômenos ajudam o estudante a compreender que o Antigo Testamento:

  • Não é um tratado teológico abstrato;
  • Foi escrito em contextos históricos, culturais e linguísticos específicos;
  • Apresenta uma revelação progressiva de Deus;
  • Deve ser interpretado à luz de sua própria unidade interna e também em relação ao Novo Testamento.

Sem esses fundamentos, corre-se o risco de impor categorias teológicas externas ao texto, desconsiderando sua teologia própria e sua intenção original.

3. O Objeto da Teologia do Antigo Testamento

Nos prolegômenos, define-se claramente que o objeto da Teologia do Antigo Testamento é a revelação de Deus conforme testemunhada nos escritos do Antigo Testamento⁴. Trata-se de investigar quem Deus é, como Ele se revela, como se relaciona com o seu povo e quais são os princípios teológicos que emergem dessa revelação.

Essa teologia é teocêntrica, pois Deus é o sujeito ativo da história, e não apenas o tema sobre o qual se reflete. Ele se revela por meio de atos poderosos e palavras interpretativas, formando a base da fé de Israel⁵.

4. Método e Pressupostos Teológicos

Outro aspecto essencial dos prolegômenos é a definição do método. A Teologia do Antigo Testamento utiliza predominantemente o método histórico-redentivo, que considera:

  • A progressão da revelação;
  • O contexto histórico dos textos;
  • A diversidade literária (lei, narrativa, poesia, profecia, sabedoria);
  • A unidade teológica das Escrituras.

Além disso, parte-se do pressuposto da inspiração e autoridade divina das Escrituras, reconhecendo o Antigo Testamento como Palavra de Deus revelada de forma fiel, embora mediada por autores humanos⁶.

Conclusão

Os Prolegômenos à Teologia do Antigo Testamento constituem uma etapa indispensável para todo estudante sério da Bíblia. Eles fornecem as bases conceituais, metodológicas e teológicas que orientam a investigação da revelação divina no Antigo Testamento. Portanto, Prolegômenos é tudo aquilo que precisamos saber antes de estudar um assunto mais profundo, isto é, são as bases e explicações iniciais que nos preparam  para entender bem o conteúdo principal.

Ao estabelecer esses fundamentos, o intérprete é capacitado a ler o texto bíblico com reverência, responsabilidade acadêmica e sensibilidade espiritual, reconhecendo que a teologia do Antigo Testamento não é apenas um estudo do passado, mas uma voz viva que continua revelando o caráter, os propósitos e a fidelidade de Deus.

 

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  1. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 23.
  2. ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 71.
  3. KAISER JR., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 11.
  4. HASSEL, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: UNASPRESS, 2001, p. 45.
  5. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2006, p. 105.
  6. GEISLER, Norman; NIX, William. Introdução Bíblica. São Paulo: Vida, 2011, p. 89.

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Bíblia Sagrada, A Constituição Divina

                                                   


                                                                      Por Josué de A Soares

Introdução

Toda sociedade organizada se fundamenta em uma constituição, documento supremo que estabelece princípios, direitos, deveres e a forma correta de convivência. À luz da fé cristã, a Bíblia Sagrada pode ser compreendida como a Constituição Divina, isto é, o conjunto de leis, princípios e revelações que regulam a relação entre Deus e a humanidade. Não se trata apenas de um livro religioso, mas da expressão máxima da vontade soberana de Deus para a vida espiritual, moral e social do ser humano.

Ao longo da história, povos e nações criaram códigos jurídicos para ordenar a vida coletiva. Contudo, antes mesmo das constituições humanas, Deus já havia estabelecido Sua Palavra como regra de fé e prática. A Escritura se apresenta, portanto, como norma suprema, imutável em seus princípios e plenamente suficiente para conduzir o homem à salvação e a uma vida justa diante de Deus.

1. A Bíblia como fundamento da autoridade divina

A Bíblia reivindica para si mesma uma autoridade singular. Diferente de qualquer outro escrito, ela afirma ter origem divina: “Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2Tm 3.16). O termo inspiração indica que a Palavra procede do próprio Deus, ainda que tenha sido registrada por autores humanos em contextos históricos distintos. Essa dupla autoria confere à Bíblia autoridade absoluta sobre a fé e a conduta cristã¹.

Como Constituição Divina, a Escritura não depende da validação humana para exercer sua autoridade. Ela é normativa porque procede do Legislador Supremo. Assim como uma constituição civil está acima das demais leis, a Palavra de Deus está acima de tradições, costumes e opiniões pessoais. Jesus confirmou essa supremacia ao declarar: “A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35).

2. Princípios, leis e valores da Constituição Divina

Uma constituição estabelece princípios fundamentais que orientam toda a vida social. De modo semelhante, a Bíblia apresenta valores eternos que regem o relacionamento do homem com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17) funcionam como um núcleo constitucional da revelação, revelando padrões morais que ultrapassam culturas e épocas².

Esses princípios não são meramente legais, mas espirituais e éticos. Eles visam a preservação da vida, da justiça, da dignidade humana e da santidade. O salmista reconhece essa excelência ao afirmar: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sl 19.7). A Constituição Divina não oprime, antes liberta, pois conduz o homem à verdadeira ordem estabelecida por Deus.

3. A Bíblia como guia para a vida pessoal e comunitária

Enquanto as constituições humanas regulam principalmente a esfera pública, a Bíblia alcança tanto o interior do indivíduo quanto a vida comunitária. Ela orienta pensamentos, intenções e atitudes, chamando o ser humano a uma transformação integral. O profeta Jeremias anuncia a promessa de uma lei escrita no coração (Jr 31.33), revelando que a Constituição Divina atua de dentro para fora.

Na comunidade de fé, a Bíblia serve como regra de organização, disciplina e missão. A igreja primitiva perseverava “na doutrina dos apóstolos” (At 2.42), reconhecendo a Palavra como base de sua vida espiritual e social. Onde a Escritura é respeitada como Constituição Divina, há ordem, edificação e crescimento saudável do povo de Deus³.

4. Cristo e o cumprimento da Constituição Divina

Jesus Cristo não aboliu a Constituição Divina, mas a cumpriu em sua plenitude. Ele afirmou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mt 5.17). Em Cristo, a Palavra se fez carne (Jo 1.14), revelando de forma perfeita o caráter e a vontade de Deus.

O Novo Testamento mostra que a Constituição Divina alcança seu ápice no amor, que resume toda a Lei (Mt 22.37-40). Assim, a obediência bíblica não se baseia apenas em mandamentos externos, mas em um relacionamento vivo com Deus, mediado por Cristo e aplicado pelo Espírito Santo.

Conclusão

Compreender a Bíblia Sagrada como Constituição Divina é reconhecer sua autoridade suprema, sua suficiência e sua relevância permanente. Em um mundo marcado por relativismo moral e instabilidade ética, a Palavra de Deus permanece firme como fundamento seguro para a fé, a vida e a esperança cristã.

A Escritura continua sendo o documento maior do Reino de Deus, orientando seus cidadãos quanto à verdade, à justiça e à salvação. Submeter-se à Constituição Divina não é perder liberdade, mas encontrar o verdadeiro propósito da existência sob o governo gracioso do Senhor.

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  1. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
  2. WALTON, John H. Antigo Testamento: Contexto e Teologia. São Paulo: Vida Nova, 2018.
  3. STOTT, John. A Bíblia Contemporânea. São Paulo: ABU, 2007.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O DEUS QUE PRESERVA, RESTAURA E HONRA OS QUEM OUVEM A SUA VOZ


Texto Base: 2 Reis 8.1–6

 Introdução

 O contexto da passagem do capítulo 8 de 2 Reis nos reconecta à história da mulher sunamita, apresentada anteriormente em 2 Reis 4. Ela foi uma mulher sensível à presença de Deus, hospitaleira ao profeta Eliseu e profundamente marcada por milagres: a promessa de um filho e a ressurreição desse menino.

Agora, o texto revela um novo cenário: fome na terra, crise econômica e instabilidade social. Deus, porém, não abandona aqueles que andam em obediência. O mesmo Deus que gera vida, também preserva no tempo da escassez e restaura aquilo que foi perdido.

Esta passagem nos ensina que Deus age antes, durante e depois das crises.

 I – Entendendo o cenário.

Verso 1: Eliseu adverte a sunamita sobre uma fome de sete anos e orienta que ela se retire da terra.

 Versos 2–3: A mulher obedece, peregrina por sete anos e retorna buscando seus direitos.

 Versos 4–6: Deus orquestra o encontro entre o rei, Geazi e a mulher, resultando na restituição completa.

 Nada aqui é acaso. Tudo é providência divina.

 II - TRÊS VERDADES NO TEXTO

1ª VERDADE – DEUS AVISA ANTES DA CRISE - “Falou Eliseu àquela mulher… dizendo: Levanta-te e vai…” (v.1)

 a)     Ensino Bíblico - Deus não permitiu que a fome chegasse sem aviso. Ele falou por meio do profeta. O alerta não foi para causar medo, mas para preservar a vida.

 b)     Aplicação Espiritual - 1)Deus ainda fala antes das crises. 2)     A sensibilidade espiritual nos livra de perdas desnecessárias. 3)     Quem anda próximo da Palavra discerne o tempo certo de agir.

  Crise não surpreende quem anda em comunhão com Deus.

 2ª VERDADE – A OBEDIÊNCIA NOS GUARDA NO TEMPO DA ESCASSEZ  “Levantou-se a mulher e fez conforme a palavra do homem de Deus” (v.2)

 a)     Ensino Bíblico - A mulher não discutiu, não questionou, nem adiou. Ela obedeceu, mesmo sem garantias visíveis. Sete anos fora de sua terra, longe de sua casa, mas dentro da vontade de Deus.

 b)     Aplicação Espiritual - 1) Obediência pode parecer perda momentânea, mas é proteção eterna. 2)Às vezes Deus nos tira de um lugar para nos preservar. 3)  Fé verdadeira se manifesta em atitudes práticas.

 É melhor perder um lugar do que perder o propósito.

 3ª VERDADE – DEUS RESTAURA E HONRA QUEM PERMANECE FIEL  “Restitui-lhe tudo quanto era seu…” (v.6)

 a)     Ensino Bíblico -  No momento exato, Deus move o coração do rei. Geazi está contando os milagres, e justamente naquele instante a mulher entra. Não apenas sua terra foi devolvida, mas todo o rendimento dos anos anteriores.

 b)     Aplicação Espiritual - 1)Deus não esquece os que obedecem. 2) A restituição divina é completa. 3)     O que parecia atraso era preparação para algo maior.

Deus não apenas devolve; Ele compensa.

 Conclusão

 Esta passagem nos ensina que: a) Deus fala antes da crise. b) A obediência sustenta durante a crise, e c) A fidelidade é honrada após a crise.

 Quero que saiba: a) Antes da crise: ouça a voz de Deus. b) No meio da crise: permaneça obediente. E, c) Após a crise: prepare-se para a restituição.

 Diz a Palavra de Deus: “O Senhor guarda os fiéis” (Salmos 31.23)

 Deus continua sendo o mesmo: a) Ele avisa; b) Ele guarda; c) Ele restaura. Que o Espírito Santo nos conceda ouvidos sensíveis, coração obediente e fé perseverante.

 

                                                     Fraternalmente,  

                                               Josué de Asevedo soares

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Profetas em Tempos de Crise

                                             

                                                               Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

A trajetória do povo de Israel foi marcada por crises políticas, sociais e espirituais. Guerras, invasões estrangeiras, deportações e exílios constituíram momentos de ruptura profunda, que colocaram em xeque a identidade e a fé do povo da aliança. Foi nesse cenário turbulento que os profetas desempenharam papel essencial, sendo porta-vozes da justiça divina e, ao mesmo tempo, proclamadores de esperança.

Este estudo busca compreender a manifestação profética em períodos de crise, enfatizando a forma como os profetas interpretaram os acontecimentos à luz da soberania de Deus e anunciaram promessas de restauração. Para tal, recorreremos também a reflexões de teólogos que discutem a função profética nesses contextos de adversidade.

Profetas e a Interpretação da Crise

Os profetas interpretaram as crises históricas como consequência da infidelidade de Israel à aliança. Jeremias, por exemplo, compreendeu a queda de Jerusalém (586 a.C.) não apenas como uma catástrofe política, mas como juízo divino sobre a desobediência do povo (Jr 25:8-11). Walter Brueggemann observa que a profecia de Jeremias revela a tensão entre denúncia e consolo, pois o profeta não apenas anunciou destruição, mas também semeou esperança de renovação do pactoⁱ.

De modo semelhante, Ezequiel, no contexto do exílio babilónico, apresentou uma visão crítica sobre a corrupção religiosa e social de Israel (Ez 8–11). Contudo, anunciou também a promessa de um “novo coração” e de um “novo espírito” (Ez 36:26), indicando que a restauração espiritual precederia a reconstrução nacional. Para Brevard S. Childs, a mensagem de Ezequiel enfatiza que a crise não significava o fim da história da salvação, mas uma oportunidade para a renovação da relação com Deus².

A Mensagem Profética em Tempos de Guerra

Isaías é um dos profetas que mais se destacou no contexto de guerra. Durante a ameaça assíria, proclamou que a verdadeira segurança de Israel não estava em alianças políticas, mas na confiança em Javé (Is 7:9). Karl Barth interpreta Isaías como exemplo da proclamação da soberania absoluta de Deus em meio às potências mundiais, lembrando que somente em Deus há esperança de salvação³.

Amós e Oséias, por sua vez, profetizaram em tempos de prosperidade aparente, mas advertiram sobre o iminente juízo militar. Amós denunciou a injustiça social (Am 5:24) e Oséias usou a metáfora do matrimônio para expor a infidelidade espiritual de Israel (Os 2:2-13). Nesse sentido, ambos anteciparam que as crises militares eram, em última instância, reflexo da crise espiritual do povo.

O Exílio e a Esperança da Restauração

O exílio babilónico foi, sem dúvida, a maior crise da história de Israel. Nesse contexto, as mensagens de esperança tornaram-se ainda mais centrais. Jeremias anunciou o “novo pacto” escrito no coração (Jr 31:31-34), projetando uma renovação espiritual que se cumpriria plenamente em Cristo. Já o chamado “Segundo Isaías” (Is 40–55) destacou a promessa de libertação e a vinda do Servo do Senhor, apontando para um futuro messiânico de restauração universal.

Para Christopher J. H. Wright, os profetas do exílio não apenas confortaram o povo, mas também ofereceram uma visão missionária da esperança, projetando um futuro em que todas as nações reconheceriam a glória de Deus⁴. Essa dimensão escatológica amplia a compreensão da crise, transformando-a em ocasião para a revelação da fidelidade divina.

A Relevância Teológica da Profecia em Tempos de Crise

A atuação dos profetas em meio às crises demonstra que a mensagem profética não se limita à denúncia, mas inclui o anúncio de esperança. Como destaca Abraham Joshua Heschel, a profecia é “a voz que Deus empresta ao sofrimento humano, mas também a voz que anuncia a compaixão divina”⁵.

Na perspectiva evangélica, essa dinâmica revela a tipologia cristológica da profecia: em meio ao juízo, Deus prepara a redenção. Cristo, como cumprimento da esperança profética, é a resposta final de Deus às crises humanas. Assim, os profetas não apenas interpretaram o passado de Israel, mas apontaram para a esperança escatológica que se concretiza em Jesus.

Conclusão

Os profetas em tempos de crise exerceram função indispensável para a preservação da fé de Israel. Em meio a guerras, destruição e exílio, denunciaram o pecado, interpretaram a história à luz da aliança e anunciaram a esperança de restauração.

A análise teológica confirma que a profecia não é mero diagnóstico do presente, mas anúncio do futuro de Deus. Para a Igreja atual, esse testemunho permanece relevante, pois recorda que, mesmo em meio às maiores crises, a voz profética continua a apontar para a soberania divina e para a esperança em Cristo.

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1.      Walter Brueggemann, Hopeful Imagination: Prophetic Voices in Exile (Philadelphia: Fortress Press, 1986), p. 42.

2.      Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 365.

3.      Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T Clark, 1957), p. 152.

4.      Christopher J. H. Wright, The Mission of God (Downers Grove: IVP Academic, 2006), p. 285.

5.      Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper & Row, 1962), p. 7.

 

O Chamado dos Profetas

 

    

Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

O chamado profético no Antigo Testamento representa um dos temas mais ricos e teologicamente significativos para a compreensão da relação entre Deus e o seu povo. Diferentes narrativas bíblicas descrevem como homens e mulheres foram convocados por Deus para se tornarem porta-vozes da sua vontade, geralmente em contextos de crise espiritual ou social. Esse chamado não foi apenas uma designação de função, mas uma experiência profunda de encontro com o divino, que frequentemente provocava temor, resistência e transformação.

Este ensaio procura analisar como os profetas foram chamados por Deus, destacando experiências específicas e as reações iniciais registradas nas Escrituras. Além disso, recorreremos à reflexão de pensadores da teologia que examinaram a natureza e o significado desse chamado, enfatizando a dimensão espiritual e pastoral que ele revela para a fé cristã.

Narrativas Bíblicas do Chamado Profético

Isaías: A Santidade de Deus e a Purificação do Chamado

Em Isaías 6, o profeta descreve sua visão do trono de Deus, onde serafins proclamam a santidade do Senhor. Confrontado com a glória divina, Isaías responde: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6:5). Somente após a purificação de seus lábios pelo carvão ardente, ele aceita a missão, respondendo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8). Karl Barth interpreta esse episódio como a revelação do contraste absoluto entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana, mostrando que o chamado profético nasce da graça purificadoraⁱ.

Jeremias: A Juventude e a Resistência Inicial

O chamado de Jeremias (Jr 1:4-10) é marcado por sua resistência inicial: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (v. 6). Deus, porém, o encoraja, prometendo-lhe presença e autoridade sobre nações e reinos. Walter Brueggemann observa que a vocação de Jeremias reflete o padrão de “resistência e superação”, típico da experiência profética, em que a fragilidade humana se torna instrumento da força divina².

Ezequiel: O Profeta do Espírito

A narrativa do chamado de Ezequiel (Ez 1–3) apresenta visões apocalípticas e a experiência da presença do Espírito de Deus. O profeta é comissionado a falar a um povo obstinado, recebendo um rolo para comer como sinal de que a palavra divina se tornaria parte do seu ser (Ez 3:3). Brevard S. Childs enfatiza que o chamado de Ezequiel destaca a interiorização da mensagem profética, mostrando que a autoridade não estava em si mesmo, mas na palavra de Deus internalizada³.

Moisés e Outros Chamados Significativos

Embora Moisés seja tradicionalmente identificado como legislador, sua experiência no episódio da sarça ardente (Êx 3) carrega elementos comuns ao chamado profético: temor, resistência e a promessa da presença divina. Abraham J. Heschel ressalta que a vocação profética, em geral, é um encontro radical que rompe a normalidade da vida, revelando que o profeta é “um homem tomado pelo pathos divino”⁴.

Reações Iniciais ao Chamado Profético

Um elemento comum nos relatos é a reação inicial de temor, inadequação ou resistência. Isaías sente-se impuro, Jeremias sente-se incapaz por ser jovem, Moisés alega falta de eloquência. Essas respostas humanas revelam a desproporção entre a grandeza da missão e a limitação do mensageiro.

Hans Walter Wolff sublinha que essa dinâmica é essencial para compreender a teologia da vocação: o profeta nunca é um voluntário autônomo, mas um escolhido pela soberania divina, que capacita o chamado⁵. Assim, a resistência inicial, longe de invalidar a missão, reforça a dependência da graça de Deus.

O Significado Teológico do Chamado Profético

O chamado dos profetas mostra que a iniciativa sempre pertence a Deus. Eles não se autoproclamam; são interrompidos e transformados por uma experiência que redefine suas vidas. Na perspectiva evangélica, esse padrão aponta para o princípio da graça: Deus chama os improváveis para manifestar sua glória.

Além disso, o chamado profético revela uma dimensão cristológica. Para a teologia reformada, os profetas prefiguram o chamado e a missão de Cristo, o Profeta supremo, que veio anunciar a plenitude da revelação de Deus (Hb 1:1-2). A Igreja, como corpo de Cristo, continua a ser chamada para testemunhar a palavra profética no mundo, sendo fiel ao Evangelho mesmo em meio a resistências e perseguições.

Conclusão

O estudo do chamado dos profetas mostra que a vocação profética é, antes de tudo, um encontro com o Deus vivo, que transforma a fragilidade humana em instrumento da sua vontade. As narrativas bíblicas de Isaías, Jeremias, Ezequiel e Moisés revelam que o chamado é marcado por temor e resistência, mas também pela graça capacitadora de Deus.

Pensadores como Barth, Brueggemann, Childs, Heschel e Wolff evidenciam que a vocação profética não é mero episódio histórico, mas paradigma teológico que continua a inspirar a Igreja. Para a fé evangélica, a experiência desses profetas aponta para a centralidade da obediência a Deus, lembrando que cada chamado é expressão da soberania e do amor divinos.

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1.      Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T Clark, 1957), p. 142.

2.      Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination (Philadelphia: Fortress Press, 1978), p. 29.

3.      Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 375.

4.      Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper & Row, 1962), p. 21.

5.      Hans Walter Wolff, Amos the Prophet (Philadelphia: Fortress Press, 1973), p. 11.