segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Bíblia Mazarin e o Novo Testamento Grego de 1516: Dois Marcos da História do Texto Bíblico

 Por Josué de A Soares.

A história da transmissão das Escrituras Sagradas é marcada por eventos que transformaram profundamente o acesso e a difusão da Palavra de Deus. Entre esses marcos, destacam-se a chamada Bíblia Mazarin, nome dado à Bíblia de Gutenberg, o primeiro grande livro impresso com tipos móveis no Ocidente, e a publicação, em 1516, do Novo Testamento Grego organizado por Erasmo de Roterdã. Embora muitas vezes confundidos, esses acontecimentos são distintos e possuem relevância própria na história da Bíblia.

A Bíblia Mazarin (Bíblia de Gutenberg)  

Impressora de madeira tradicional 

Cena histórica de impressão antiga




A chamada Bíblia Mazarin é outro nome dado à famosa Bíblia de Gutenberg, impressa por Johannes Gutenberg por volta de 1454–1455, na cidade de Mainz, na atual Alemanha.

O nome “Mazarin” surgiu porque um exemplar foi encontrado na biblioteca do cardeal Jules Mazarin, no século XVII. Durante muito tempo, esse foi o exemplar mais conhecido da obra, e o nome acabou sendo associado à edição.

Características principais:

  • Impressa em latim, baseada na Vulgata.
  • Continha 42 linhas por página, sendo conhecida também como “Bíblia das 42 linhas”.
  • Foi o primeiro grande livro impresso com tipos móveis metálicos no Ocidente.
  • Marcou o início da chamada Revolução da Imprensa.

A Bíblia de Gutenberg não foi o primeiro texto bíblico escrito, mas foi o primeiro grande texto bíblico produzido em escala por meio da tecnologia da imprensa. Isso revolucionou o acesso ao conhecimento e abriu caminho para a ampla circulação das Escrituras.

O Novo Testamento Grego de 1516

Em 1516, mais de meio século após a Bíblia de Gutenberg, foi publicado o Novum Instrumentum omne, organizado por Erasmo de Roterdã.

Esse foi o primeiro Novo Testamento impresso em grego. A obra apresentava:

  • O texto grego do Novo Testamento;
  • Uma nova tradução latina feita por Erasmo;
  • Anotações críticas e comentários.

Essa edição tornou-se extremamente influente, dando origem ao que mais tarde ficou conhecido como Textus Receptus, texto que serviria de base para traduções importantes, como a Bíblia de Lutero (em alemão) e, posteriormente, a versão inglesa King James.

Diferença entre os dois marcos históricos

É importante compreender a distinção histórica:

Bíblia Mazarin (Gutenberg)

Novo Testamento Grego (1516)

Impressa em 1454–1455

Publicado em 1516

Texto em latim (Vulgata)

Texto em grego

Primeiro grande livro impresso com tipos móveis

Primeiro Novo Testamento grego impresso

Revolução tecnológica

Marco do humanismo e da crítica textual

Enquanto Gutenberg revolucionou o meio de produção, Erasmo impactou o conteúdo textual, incentivando o retorno às fontes originais (ad fontes), característica central do humanismo renascentista.

Importância Teológica e Histórica

A Bíblia de Gutenberg democratizou o acesso às Escrituras, preparando o terreno para a Reforma Protestante no século XVI. Já a edição de Erasmo forneceu base textual para os reformadores, como Lutero, que buscaram traduzir a Bíblia diretamente dos idiomas originais.

Assim, ambos os eventos foram fundamentais para a consolidação do texto bíblico no Ocidente e para a expansão do cristianismo em sua forma moderna.

Conclusão

A chamada Bíblia Mazarin e o Novo Testamento Grego de 1516 não são a mesma obra, nem pertencem ao mesmo momento histórico. A primeira representa a revolução da imprensa; a segunda, o avanço da crítica textual e do retorno às línguas originais. Juntas, porém, simbolizam dois pilares da história bíblica: a difusão e o aprimoramento do texto sagrado.

A compreensão desses marcos históricos fortalece nossa percepção sobre como Deus, na Sua providência, utilizou avanços tecnológicos e intelectuais para preservar e espalhar as Escrituras ao longo dos séculos.

_________________________________________________________________________________

  1. A Bíblia de Gutenberg foi impressa por volta de 1454–1455 em Mainz, Alemanha, sendo considerada o primeiro grande livro produzido com tipos móveis no Ocidente.
  2. O nome “Bíblia Mazarin” deriva de um exemplar encontrado na biblioteca do cardeal Jules Mazarin no século XVII.
  3. Erasmo publicou o Novum Instrumentum omne em 1516, em Basileia, contendo o primeiro Novo Testamento impresso em grego.
  4. O chamado Textus Receptus deriva das edições posteriores do texto grego de Erasmo e tornou-se base para diversas traduções da Reforma.

 

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sábado, 21 de fevereiro de 2026

“Estou fazendo uma grande obra, de modo que não poderei descer” (Neemias 6.3)

 


Introdução

O livro de Neemias gira em torno da vida e liderança de Neemias, um homem que deixou o conforto da corte persa para servir a Deus e ao seu povo em Jerusalém.

Neemias significa Jeová conforta. Ele exercia a função de copeiro do rei (Ne 1.11b), posição de confiança, honra e estabilidade no império persa. Ainda assim, abriu mão de uma vida de privilégios para ajudar seus irmãos que estavam em grande miséria em Jerusalém (Ne 1–6).

Evento histórico:

·        Ano 20 de Artaxerxes I → 445 a.C.

·        Mês de quisleu → novembro/dezembro

·        Mês de nisã → março/abril

Portanto:

·        Neemias recebe a notícia da situação de Jerusalém no final de 446 a.C.

·        Ele é autorizado a ir para Jerusalém na primavera de 445 a.C.

·        O muro é concluído em 52 dias (Ne 6.15), ainda em 445 a.C.

O cenário histórico se dá após o exílio babilônico. Jerusalém estava com os muros derrubados e o povo vivia em vergonha e insegurança. Deus levanta Neemias para restaurar não apenas muros, mas também a dignidade espiritual da nação.

Em resumo vemos a Linha do tempo:

·        586 a.C. – Jerusalém destruída pelos babilônios.

·        539 a.C. – Pérsia conquista a Babilônia.

·        538 a.C. – Decreto de retorno.

·        445 a.C. – Neemias reconstrói os muros.

 

1. Como Neemias começou a obra (Neemias 1)

O capítulo 1 revela o fundamento espiritual da grande obra. Antes de construir muros, Neemias construiu uma vida de oração.

🛐 As sete ações de Neemias:

  1. Informou-se sobre a situação (1.2)
    Ele perguntou pelos sobreviventes e por Jerusalém.
  2. Sensibilizou-se profundamente (1.4a)
    “Assentei-me, chorei e lamentei...”
  3. Jejuou (1.4b)
    Demonstrando dependência total de Deus.
  4. Orou perseverantemente (1.4c)
  5. Reconheceu a soberania de Deus (1.5)
  6. Confessou os pecados do povo (1.6-7)
  7. Reivindicou as promessas do Senhor (1.8-11)

Lição espiritual: Grandes obras começam com quebrantamento, oração e compromisso.

2. Capítulo 2 – Uma Batalha Espiritual (Ne 2.1–19)

Antes de levantar muros físicos, Neemias enfrentou oposição espiritual.

Cinco pontos importantes:

  1. O favor de Deus diante do rei (2.4-8)
    Neemias ora antes de responder.
  2. Planejamento estratégico (2.11-15)
    Ele inspeciona os muros em silêncio.
  3. Discrição e sabedoria (2.12,16)
  4. Convocação do povo à ação (2.17-18)
    “Levantemo-nos e edifiquemos.”
  5. Primeiras zombarias do inimigo (2.19)
    Sambalate e Tobias tentam desanimar.

Lição: Toda obra de Deus enfrenta resistência desde o início.

3. Capítulo 3 – A Edificação dos Muros

Acontecimentos marcantes:

  • Trabalho organizado por famílias.
  • Cada grupo assumiu uma parte específica do muro.
  • Sacerdotes, ourives, comerciantes e famílias trabalharam juntos.
  • Alguns trabalharam “diante da sua casa” (3.10,23).

 Lições:

  • Unidade gera avanço.
  • Cada um deve assumir sua responsabilidade.
  • A obra é coletiva.

4. Capítulo 4 – As Aflições

Aqui a oposição se intensifica.

1️ União do inimigo (4.7-8)

Sambalate, Tobias, árabes, amonitas e asdoditas se unem.

2️ Astúcias contra o serviço (4.1-3)

Zombaria e desprezo.

3️ Tentativa de infiltração (4.11)

“O inimigo não saberá...”

4️ Cansaço interno (4.10)

“Já desfaleceram as forças...”

5️ Estratégia espiritual e prática (4.16-18)

Uma mão na obra, outra na espada.

Lição: O inimigo ataca com zombaria, ameaça e desgaste emocional.

5. Capítulo 5 – A Divisão Entre os Irmãos

O perigo agora não é externo, mas interno.

Três situações graves:

  1. Fome e escassez (5.2-3)
    Famílias hipotecando terras para sobreviver.
  2. Endividamento por impostos (5.4)
  3. Escravidão dos próprios filhos (5.5)

Neemias se indignou (5.6), repreendeu os nobres (5.7) e restaurou a justiça (5.11-12).

Lição: A divisão interna enfraquece mais que o ataque externo.

6. Capítulo 6 – A Carta Final do Inimigo

Pontos importantes:

  1. Convite para distração (6.2)
    “Vem, e congreguemo-nos...”
  2. Persistência do inimigo (quatro vezes) (6.4)
  3. Carta aberta com falsas acusações (6.5-7)
  4. Tentativa de intimidação espiritual (6.10-13)

A resposta firme:

“Estou fazendo uma grande obra, de modo que não poderei descer.” (6.3)

Lições espirituais:

  • O inimigo tenta tirar você do foco.
  • Nem todo convite deve ser aceito.
  • Quem desce perde a visão da grande obra.
  • Perseverança produz vitória (6.15 – o muro foi concluído).

 Conclusão

Neemias nos ensina que:

  • Grandes obras começam em oração.
  • Toda obra enfrentará oposição.
  • A união é essencial.
  • O perigo pode vir de fora e de dentro.
  • Quem entende o propósito não desce.

Hoje, Deus continua levantando homens e mulheres que possam dizer: “Estou fazendo uma grande obra.”

Que não troquemos o chamado por distrações.
Que não abandonemos o muro por causa das cartas do inimigo.
Que permaneçamos firmes até que a obra seja concluída.

                                Fraternalmente em Cristo, 

                                                Josué de A Soares.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval, Fé e República: quando o espetáculo ultrapassa os limites institucionais


O Brasil é uma nação marcada pela pluralidade cultural, pela liberdade religiosa e pela vitalidade de suas manifestações artísticas. O samba, expressão legítima da alma popular, construiu ao longo de décadas um patrimônio simbólico que transcende a avenida e ecoa na identidade nacional. Contudo, quando a arte deixa de ser expressão cultural para tornar-se instrumento de propaganda político-partidária — sobretudo em ano eleitoral — instala-se uma tensão legítima entre liberdade de criação e responsabilidade institucional.

Em pleno ciclo eleitoral de 2026, causou perplexidade o fato de uma escola de samba utilizar o desfile como palco para exaltação indireta do atual chefe do Executivo. O problema não reside na liberdade de opinião — direito garantido em qualquer Estado Democrático de Direito —, mas no uso de recursos públicos substanciais para promover narrativas que podem ser interpretadas como favorecimento político. Em uma República, a equidistância do poder público diante das disputas eleitorais não é mera formalidade: é pressuposto de legitimidade.

O debate torna-se ainda mais sensível quando se considera o volume de verbas destinadas às escolas de samba para o Carnaval de 2026. Ainda que o financiamento da cultura seja instrumento legítimo de política pública, é imperativo que sua aplicação observe critérios técnicos, transparência e neutralidade. Quando o investimento estatal coincide com manifestações artísticas que assumem contornos de propaganda, o cidadão tem o direito — e talvez o dever — de questionar.

Entretanto, o ponto mais delicado não foi apenas a suposta promoção política. O que despertou indignação em amplos setores da sociedade foi a encenação que, segundo muitos fiéis, imitou elementos centrais da fé cristã evangélica, especialmente símbolos associados ao batismo com o Espírito Santo no contexto pentecostal. Para mais de 30 milhões de brasileiros que professam a fé evangélica, tais símbolos não são metáforas culturais ou alegorias artísticas; são experiências espirituais sagradas, profundamente enraizadas na vivência religiosa.

A liberdade artística é um valor constitucional. Mas ela não existe em um vácuo moral. Em uma sociedade plural, o respeito recíproco é o cimento invisível que sustenta a convivência democrática. A sátira pode ter lugar; a crítica também. Contudo, a imitação de ritos considerados sagrados por uma comunidade numerosa, quando feita em tom de escárnio ou trivialização, ultrapassa a fronteira da crítica legítima e adentra o território da ofensa simbólica.

Não se trata de reivindicar privilégios religiosos nem de pleitear censura. A laicidade do Estado pressupõe neutralidade — não hostilidade — em relação às crenças. O Estado laico não ridiculariza a fé; tampouco a instrumentaliza. Ele protege igualmente todas as convicções, garantindo que nenhuma seja favorecida ou vilipendiada pelo poder público.

Nesse contexto, chama atenção o silêncio das autoridades responsáveis pela guarda da Constituição. O Supremo Tribunal Federal, enquanto instância máxima de interpretação constitucional, tem reiteradamente se posicionado em defesa de minorias e da liberdade de expressão. Tal postura é, em si, louvável. Contudo, a coerência institucional exige que a proteção da dignidade religiosa não seja seletiva.

Quando manifestações públicas parecem afrontar valores caros a uma parcela expressiva da população, o mínimo que se espera é um posicionamento que reafirme os princípios constitucionais de respeito e liberdade religiosa. O silêncio institucional, ainda que juridicamente justificável sob o argumento da inexistência de provocação formal, pode ser interpretado como indiferença diante da sensibilidade de milhões de cidadãos.

O debate, portanto, não deve ser reduzido a uma disputa entre “arte” e “religião”, nem a um embate ideológico entre campos políticos antagônicos. Ele diz respeito à maturidade democrática do Brasil. Uma democracia sólida não se mede apenas pela liberdade de expressão, mas também pela responsabilidade no seu exercício.

A cultura brasileira é vasta o suficiente para celebrar sua diversidade sem recorrer à instrumentalização do sagrado. O Carnaval sempre foi espaço de crítica social e política, mas também de criatividade e elevação estética. Quando se opta por tensionar deliberadamente a fé de milhões, sobretudo em ambiente financiado com recursos públicos, a discussão deixa de ser meramente artística e assume contornos éticos e institucionais.

Há, ainda, um aspecto pedagógico. A mensagem transmitida às novas gerações importa. Se o espaço público se converte em arena de ridicularização das convicções alheias, enfraquece-se o pacto de respeito mútuo que sustenta a convivência civilizada. A crítica política é saudável; o debate eleitoral é necessário; a liberdade artística é preciosa. Mas todos esses valores devem coexistir com o reconhecimento da dignidade do outro.

Não se pode ignorar que o Brasil atravessa tempos de polarização acentuada. Em contextos assim, gestos simbólicos ganham peso desproporcional. O que poderia ser percebido como simples alegoria passa a ser interpretado como provocação deliberada. Por isso mesmo, exige-se prudência redobrada de instituições culturais que recebem apoio estatal.

Reprovar tal iniciativa não significa hostilizar o Carnaval, tampouco negar a importância histórica das escolas de samba. Significa, antes, reafirmar que a esfera pública deve ser espaço de convergência, não de afronta gratuita. Significa sustentar que a laicidade do Estado protege tanto a liberdade artística quanto a integridade das convicções religiosas.

O momento convida à reflexão serena, não ao acirramento. A crítica pode — e deve — ser firme, mas ancorada em princípios republicanos. A democracia floresce quando há equilíbrio entre direitos, quando a liberdade é exercida com responsabilidade e quando as instituições atuam com coerência.

Em última análise, a questão que se impõe é simples e profunda: queremos um país em que a arte una ou divida? Em que o poder público promova cultura com neutralidade ou com viés? Em que a fé seja respeitada como dimensão legítima da experiência humana ou tratada como objeto de caricatura?

Responder a essas perguntas é tarefa coletiva. E talvez seja justamente nesse exercício de discernimento crítico que a República encontra sua força.

                                               Que Deus abençoe o Brasil

                                                         Por Josué Soares.

A DIVISÃO DA BÍBLIA EM CAPÍTULOS E VERSÍCULOS

 

Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

A Bíblia, em sua forma original, não foi escrita com capítulos e versículos numerados. Os livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento foram redigidos em rolos e códices contínuos, sem a organização sistemática que hoje utilizamos para leitura e estudo. A divisão em capítulos e versículos foi um desenvolvimento posterior, criado com o objetivo de facilitar a localização dos textos e o ensino das Escrituras.

Entretanto, ao estudar a história dessa organização, surge uma dúvida recorrente: qual foi a primeira Bíblia publicada contendo capítulos e versículos? Alguns autores afirmam que foi a Vulgata de 1555, enquanto outros apontam a Bíblia de Genebra de 1560 como a primeira. Este artigo busca esclarecer essa questão de forma histórica e objetiva.

1. A Origem da Divisão em Capítulos

A divisão sistemática da Bíblia em capítulos é geralmente atribuída a Stephen Langton (c. 1150–1228), arcebispo de Cantuária. No início do século XIII, Langton organizou o texto bíblico latino em capítulos padronizados, estrutura que foi amplamente aceita e preservada nas edições posteriores da Vulgata¹.

Essa divisão foi adotada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento e permanece praticamente inalterada até os dias atuais.

2. A Origem da Divisão em Versículos

A divisão em versículos ocorreu em momentos distintos:

2.1 Antigo Testamento

O texto hebraico já possuía divisões tradicionais realizadas pelos massoretas entre os séculos VI e X. Essas divisões, entretanto, não correspondiam exatamente à numeração moderna.

2.2 Novo Testamento

A numeração moderna dos versículos do Novo Testamento foi realizada por Robert Estienne (1503–1559), também conhecido como Stephanus. Em 1551, ele publicou uma edição do Novo Testamento grego com os versículos numerados².

Posteriormente, em 1555, Estienne publicou uma edição da Vulgata contendo capítulos e versículos numerados de forma sistemática³.

3. A Primeira Bíblia Publicada com Capítulos e Versículos

Aqui está o ponto central da questão.

3.1 A Vulgata de 1555

A edição da Vulgata publicada por Robert Estienne em 1555 é considerada a primeira Bíblia impressa contendo capítulos e versículos organizados de forma completa e padronizada.

Contudo, essa edição estava em latim.

3.2 A Bíblia de Genebra (1560)

A Bíblia de Genebra, publicada em 1560 por reformadores protestantes ingleses refugiados em Genebra, foi a primeira Bíblia em língua inglesa a apresentar capítulos e versículos numerados em toda a sua extensão⁴.

Essa versão teve grande influência no mundo protestante e foi amplamente utilizada antes mesmo da Bíblia do Rei Tiago (1611).

4. Há Contradição Entre as Afirmações?

Não há contradição, mas sim uma diferença de especificação histórica.

  • A Vulgata de 1555 foi a primeira Bíblia impressa com capítulos e versículos completos, em latim.
  • A Bíblia de Genebra de 1560 foi a primeira Bíblia em inglês com essa mesma organização.

Portanto, ambas as afirmações podem estar corretas, desde que se compreenda o contexto linguístico e editorial de cada publicação.

Conclusão

A divisão da Bíblia em capítulos e versículos não faz parte dos manuscritos originais inspirados, mas constitui um importante recurso histórico desenvolvido para facilitar o estudo, a pregação e a memorização das Escrituras.

Historicamente, a primeira edição impressa contendo capítulos e versículos completos foi a Vulgata de 1555. Já a primeira Bíblia em língua inglesa com essa organização foi a Bíblia de Genebra de 1560. Assim, não se trata de erro histórico, mas de distinção entre tradição latina e tradição inglesa.

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  1. LANGTON, Stephen. Divisão da Bíblia em capítulos no século XIII.
  2. ESTIENNE, Robert. Novum Testamentum Graece. Paris, 1551.
  3. ESTIENNE, Robert. Biblia Sacra (Vulgata). Genebra, 1555.
  4. BÍBLIA DE GENEBRA. Genebra: 1560.

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Os Fariseus: Leigos ou Líderes Religiosos?

 

Por Josué de A Soares

A figura dos fariseus ocupa lugar de destaque na história do judaísmo do Segundo Templo (século II a.C. ao século I d.C.) e no contexto do Novo Testamento. Contudo, uma dúvida recorrente surge na leitura de textos históricos e teológicos: afinal, os fariseus eram leigos ou pertenciam à liderança religiosa oficial? A resposta exige uma compreensão histórica cuidadosa do que significava “leigo” naquele período.

1. O Contexto Histórico do Judaísmo do Segundo Templo

Durante o período do Segundo Templo, a liderança religiosa de Israel estava estruturada principalmente em torno do sacerdócio, especialmente da linhagem levítica e da casa de Arão. Os sacerdotes eram responsáveis pelo culto sacrificial no Templo de Jerusalém e possuíam autoridade religiosa institucional¹.

Ao lado desse grupo, surgiram movimentos religiosos que buscavam preservar e interpretar a Lei mosaica diante das transformações políticas e culturais trazidas pelo domínio persa, grego e, posteriormente, romano. Entre esses movimentos destacavam-se os fariseus, os saduceus e os essênios².

2. Os Fariseus como Grupo Leigo

Os fariseus não eram, como grupo, sacerdotes do Templo. Diferentemente dos saduceus, que estavam fortemente ligados à aristocracia sacerdotal, os fariseus eram em sua maioria judeus leigos, isto é, não pertencentes à classe sacerdotal³.

O termo “leigo”, nesse contexto, não significa ignorância religiosa ou ausência de formação. Significa, antes, que não exerciam funções sacerdotais nem dependiam de linhagem levítica para sua atuação. Sua autoridade não vinha do altar, mas do estudo e da interpretação da Lei.

3. Especialistas na Lei Escrita e na Tradição Oral

Paradoxalmente, embora fossem leigos em relação ao sacerdócio, os fariseus eram reconhecidos como os mais habilidosos intérpretes da Lei. Dedicavam-se profundamente ao estudo da Torá (Lei escrita) e também à tradição oral, que posteriormente seria sistematizada no que se tornaria o judaísmo rabínico⁴.

O historiador Flávio Josefo afirma que os fariseus eram considerados os mais precisos intérpretes das leis judaicas⁵. Sua influência estendia-se às sinagogas e à vida cotidiana do povo, enfatizando a santidade não apenas no Templo, mas em todas as dimensões da vida.

4. Piedade e Vida Religiosa

Os fariseus buscavam aplicar os princípios da pureza ritual e da observância da Lei à vida diária. Sua espiritualidade enfatizava oração, jejum, dízimos e rigor moral. No Novo Testamento, embora Jesus critique certas práticas marcadas pela hipocrisia (Mt 23), Ele também reconhece que estavam “assentados na cadeira de Moisés” (Mt 23.2), ou seja, exerciam autoridade no ensino da Lei.

Portanto, a tensão presente nos Evangelhos não anula o fato de que os fariseus representavam um movimento sério de fidelidade à Lei dentro do judaísmo da época.

 Conclusão

Os fariseus eram leigos no sentido institucional, pois não pertenciam ao sacerdócio oficial do Templo. Contudo, eram líderes religiosos no campo do ensino, da interpretação da Lei e da formação espiritual do povo. Não há contradição em afirmar que eram, ao mesmo tempo, leigos e profundos conhecedores das Escrituras.

Sua atuação foi decisiva para a preservação da tradição judaica após a destruição do Templo em 70 d.C., influenciando diretamente o desenvolvimento do judaísmo rabínico. Assim, compreender os fariseus requer distinguir entre autoridade sacerdotal e autoridade interpretativa, duas esferas distintas no judaísmo do Segundo Templo.

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  1. Cf. Êxodo 28–29; Hebreus 5.1–4.
  2. Cf. FERGUSON, Everett. Backgrounds of Early Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
  3. Cf. SANDERS, E. P. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE–66 CE. London: SCM Press, 1992.
  4. Cf. NEUSNER, Jacob. From Politics to Piety: The Emergence of Pharisaic Judaism. New York: KTAV, 1973.
  5. JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, XIII.10.6.