"Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em vários lugares, acontecimentos terríveis e grandes sinais provenientes do céu." (Lc 21.11).
A fragilidade da vida humana e a força imprevisível da natureza colidiram de forma devastadora no norte da Venezuela. Em uma sequência de fortes terremotos que atingiram a costa do país, cidades inteiras viram suas estruturas ruírem, transformando bairros vibrantes em cenários de poeira, silêncio e desolação. As autoridades locais confirmaram mais de 1.450 mortes, enquanto o rastro de destruição deixa um número alarmante de feridos e aproximadamente 50 mil desaparecidos em meio aos escombros.
Diante de tamanha catástrofe, as imagens que chegam
da região de La Guaira e arredores de Caracas não são apenas estatísticas
frias; elas carregam rostos, histórias despedaçadas e uma dor profunda que ecoa
globalmente.
Equipes de socorro buscam sobreviventes nos escombros em La Guaira, epicentro da tragédia.. Fonte: G1 - Globo
O Luto que Une o Futebol e o
Mundo
Por trás dos números oficiais, as tragédias
particulares ganham contornos dilacerantes. O ecossistema do esporte e a
sociedade civil foram profundamente tocados pelo drama do zagueiro argentino
Lucas Trejo, jogador do Deportivo La Guaira. Após 74 horas de buscas
incessantes e apelos desesperados nas redes sociais, os socorristas encontraram
sem vida sua esposa, Yanina Maranella, e seus dois filhos, Ainhoa, de 7 anos, e
Aarón, de apenas 5 anos. Eles estavam no apartamento da família no complexo
residencial Cumanagoto, em Playa Grande, no momento em que a estrutura
colapsou.
A dor de Trejo se soma à de milhares de venezuelanos,
incluindo os familiares da promessa do futebol local, Yimvert Berroterán, de 18
anos (atleta da seleção sub-20), que também faleceu nos desabamentos ao lado de
sua namorada.
Neste momento de imensurável sofrimento, nossa
profunda solidariedade se estende a Lucas Trejo, a toda a comunidade esportiva
e às famílias enlutadas. Que haja espaço para o choro, para o acolhimento
comunitário e para o suporte psicológico e espiritual, lembrando que a empatia
humana é o primeiro passo para refletir o consolo divino na Terra.
Uma Teologia Bíblica do
Sofrimento e os Sinais dos Tempos
Para a comunidade de fé, catástrofes dessa
magnitude inevitavelmente levantam questionamentos teológicos profundos. Como
compreender esses eventos à luz da Bíblia Sagrada?
O próprio Jesus, ao ser questionado sobre o fim dos
tempos e a consumação dos séculos, apontou para a instabilidade da criação como
um indicativo de uma transição cósmica. No Evangelho de Mateus, lemos:
"Porque se levantará nação contra nação, e
reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares.
Mas todas estas coisas são o princípio das dores." (Mateus 24:7-8)
O termo "princípio das dores" (no
original grego, odin, fortemente associado às dores de parto) é uma
chave hermenêutica fundamental na Teologia Bíblica. Terremotos e desastres
naturais não devem ser interpretados isoladamente como castigos divinos
arbitrários direcionados a uma população específica, mas sim como o gemido de
uma criação que sofre os efeitos macroestruturais da queda e da quebra da
harmonia original. O apóstolo Paulo aprofunda essa perspectiva em sua carta aos
Romanos:
"Porque sabemos que toda a criação geme e está
juntamente com dores de parto até agora." (Romanos 8:22)
Esses "sinais" descritos na Palavra
funcionam como um alerta que nos lembra de duas verdades urgentes: a
transitoriedade do mundo presente e a iminência da restauração de todas as
coisas por Deus. No entanto, o texto bíblico nunca nos direciona para uma
postura de resignação passiva ou mero pânico apocalíptico. Pelo contrário,
quanto mais o mundo "geme", mais os cidadãos e a igreja são
convocados a manifestar o Reino de Deus por meio do amor prático e da compaixão
ativa.
Contextualização Global e a
Urgência da Engenharia Preventiva
Embora os terremotos sejam fenômenos de ordem
geológica, o impacto socioeconômico e o número de vítimas estão diretamente
atrelados a decisões humanas e políticas globais. A tragédia na Venezuela expõe
uma ferida compartilhada por diversas nações em desenvolvimento: a vulnerabilidade
das infraestruturas urbanas e a falta de preparo preventivo para lidar com
eventos extremos.
Especialistas em gestão de desastres e engenharia
sísmica apontam que a perda de vidas em terremotos urbanos frequentemente
decorre do colapso de edificações que não seguiram normas rígidas de construção
ou que sofreram com a falta de manutenção e planejamento habitacional.
O engenheiro civil e especialista em estruturas
sismo-resistentes, Dr. Carlos Mendoza, explica o cenário:
"O perigo sísmico é natural, mas o desastre é
social. Quando faltam investimentos estruturais de longo prazo, fiscalização
severa e planos de evacuação acessíveis à população, o custo de um tremor deixa
de ser medido apenas na escala Richter e passa a ser contabilizado em milhares
de vidas perdidas de forma perfeitamente evitável."
Trabalhar preventivamente é, portanto, um
imperativo técnico, ético e, acima de tudo, espiritual. Na perspectiva da
mordomia cristã, cuidar do próximo envolve planejar cidades seguras, criar
políticas públicas que protejam os mais vulneráveis do ponto de vista
habitacional e garantir que as estruturas resistam às intempéries do tempo.
O Chamado Prático: Fé Operante
por Meio do Amor
A resposta bíblica diante dos sinais e sofrimentos
nunca se limita ao debate teórico. O apóstolo João é categórico ao definir a
dinâmica da verdadeira espiritualidade:
"Filhinhos, não amemos de palavra, nem de
língua, mas por obra e em verdade." (1 João 3:18)
A ajuda humanitária, o envio de recursos, o apoio
às agências de resgate e o acolhimento aos desalojados são extensões práticas
do mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Diante do colapso e da dor de
pais que perderam seus filhos e de nações que choram seus mortos, a fé nos
impulsiona a sermos as mãos que socorrem e a voz que clama por justiça
socioambiental e segurança habitacional no plano global.
Que o luto compartilhado se transforme em
combustível para a prevenção, e que a certeza bíblica da restauração final nos
mantenha firmes no compromisso de aliviar o sofrimento humano hoje.
Bibliografia
- BÍBLIA
SAGRADA.
Versão Almeida Revista e Corrigida (ARC). São Paulo: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2009.
- ORGANIZAÇÃO
DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Relatório de Situação Humanitária:
Resposta Emergencial ao Terremoto na Venezuela. Genebra: Nações
Unidas, junho de 2026.
- MENDOZA,
Carlos. Engenharia
Sismo-Resistente e Vulnerabilidade Urbana na América Latina. Bogotá:
Ed. Tecnocientífica, 2024.
- FUNDO
DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). Proteção à infância e
assistência emergencial pós-desastres em La Guaira. Caracas: UNICEF
Venezuela, 2026.