Por Josué de A Soares.
Introdução
Mateus 24 é um dos
capítulos mais importantes das Escrituras para o estudo da escatologia.
Conhecido como o Discurso do Monte das Oliveiras, ele registra as palavras de
Jesus acerca da destruição do Templo de Jerusalém, dos acontecimentos que
antecederiam esse evento e dos sinais relacionados à sua segunda vinda. Ao
longo da história, esse texto recebeu diferentes interpretações, mas uma
leitura cuidadosa do contexto histórico, da gramática grega e da teologia
bíblica revela que Jesus responde, inicialmente, à preocupação dos discípulos
sobre a queda de Jerusalém, sem perder de vista a consumação final da história.
O objetivo deste estudo
é compreender o significado de Mateus 24.1–28 em seu contexto original,
analisando o sentido das palavras de Jesus e sua aplicação para a Igreja.
O anúncio da destruição
do Templo (Mateus 24.1–2)
Ao sair do Templo,
Jesus surpreende os discípulos ao declarar que "não ficará aqui pedra
sobre pedra". Essa afirmação parecia impossível. O Templo de Herodes era
considerado uma das construções mais grandiosas do mundo antigo, símbolo da
presença de Deus e do orgulho nacional de Israel.
No texto grego, a
expressão ou mē aphethē ("de modo nenhum será deixada") utiliza uma
dupla negativa, reforçando que a destruição seria completa e inevitável. Jesus
não fazia apenas uma previsão política; anunciava o juízo de Deus sobre um
sistema religioso que havia rejeitado o Messias.
Essa profecia
cumpriu-se no ano 70 d.C., quando o exército romano, liderado por Tito,
destruiu Jerusalém e incendiou o Templo.
As perguntas dos
discípulos (Mateus 24.3)
No Monte das Oliveiras,
os discípulos fazem três perguntas:
Quando essas coisas
acontecerão?
Qual será o sinal da
tua vinda?
Qual será o sinal do
fim dos tempos?
Na mente judaica, esses
acontecimentos pareciam inseparáveis. Para eles, a destruição do Templo
significaria o encerramento da presente era e a manifestação definitiva do
Reino de Deus. Por isso, Jesus responde de maneira que abrange tanto os eventos
próximos quanto a realidade futura.
A palavra grega
parousía, traduzida por "vinda", era usada para descrever a chegada oficial
de um rei ou imperador. No Novo Testamento, ela passa a designar a manifestação
gloriosa de Cristo.
O princípio das dores
(Mateus 24.4–8)
Antes de responder
diretamente, Jesus alerta os discípulos contra o engano. O primeiro perigo não
seriam guerras nem terremotos, mas os falsos cristos e os falsos profetas.
Guerras, conflitos
internacionais, fome, terremotos e outras calamidades são descritos como o
"princípio das dores". A expressão grega ōdinōn significa "dores
de parto". Assim como as contrações aumentam em frequência e intensidade
antes do nascimento de uma criança, esses acontecimentos indicam que a história
caminha para o cumprimento do plano de Deus, mas ainda não representam o fim.
Jesus ensina que os
discípulos não deveriam interpretar cada crise como a consumação imediata da
história.
A perseguição da Igreja
e a perseverança (Mateus 24.9–14)
Jesus
anuncia que seus seguidores enfrentariam perseguições, prisões, ódio e até
mesmo a morte. Essas palavras tinham um cumprimento imediato no contexto dos
primeiros discípulos, especialmente entre os anos 30 e 70 d.C., período marcado
pela perseguição dos cristãos tanto por líderes judeus quanto pelo Império
Romano. Ao mesmo tempo, esse anúncio também aponta para uma realidade contínua
na história da Igreja, alcançando os dias atuais, em que muitos cristãos ainda
enfrentam oposição e sofrimento por causa da fé.
O
aumento da perseguição levaria alguns a se escandalizarem e abandonarem a fé,
revelando que nem todos permaneceriam firmes diante das provações. Por isso, ao
afirmar que “quem perseverar até o fim será salvo”, Jesus utiliza o verbo grego
hypomenō, que significa permanecer firme sob pressão, suportar com
fidelidade e constância. A salvação mencionada aqui destaca não apenas um
livramento momentâneo, mas a necessidade de uma fé perseverante até o fim da
jornada cristã.
Mesmo em meio às
perseguições, o Evangelho seria anunciado a todas as nações. Esse aspecto
revela que, desde o período apostólico até os tempos finais, a missão da Igreja
não seria interrompida pelos sofrimentos. Pelo contrário, as adversidades
muitas vezes serviriam como instrumento para a expansão da mensagem, até que o
propósito redentor de Deus fosse plenamente cumprido em toda a terra.
A abominação da desolação
(Mateus 24.15–22)
Jesus
cita a profecia de Daniel ao mencionar a “abominação da desolação” (cf. Dn
9.27; 11.31; 12.11). No contexto do Antigo Testamento, essa expressão refere-se
à profanação do lugar santo por meio de práticas idólatras ou da presença de
poderes inimigos que violam a santidade do Templo.
Historicamente,
há diferentes interpretações sobre o que, de fato, constitui essa “abominação”.
Uma primeira referência importante remonta ao século II a.C., quando Antíoco IV
Epifânio profanou o Templo de Jerusalém ao erguer um altar pagão, possivelmente
dedicado a Zeus, e sacrificar animais impuros no local sagrado (167 a.C.). Esse
episódio é frequentemente visto como um cumprimento inicial da profecia de
Daniel.
No
contexto das palavras de Jesus, muitos estudiosos entendem que a “abominação da
desolação” teve um cumprimento histórico no ano 70 d.C., durante a invasão
romana de Jerusalém. Nessa ocasião, os exércitos romanos, sob o comando de
Tito, cercaram a cidade, destruíram o Templo e, possivelmente, introduziram
seus estandartes, que traziam imagens imperiais, nas proximidades ou até mesmo
no recinto sagrado, configurando uma profanação. Além disso, o cerco em si, com
sua devastação e interrupção do culto, também é visto como parte desse
cumprimento.
Outros
intérpretes defendem uma visão dupla ou progressiva: consideram que houve um
cumprimento parcial nos eventos de 70 d.C., mas aguardam um cumprimento futuro,
associado à manifestação do Anticristo, que profanaria novamente um “lugar
santo”, conforme sugerido em textos como 2 Tessalonicenses 2.3-4 e Apocalipse
13.
Independentemente
da interpretação adotada: histórica, escatológica ou mista, o ponto central
permanece: Deus advertiu seu povo para que estivesse atento e preparado para
tempos de grande tribulação e engano.
Por isso, Jesus ordenou que aqueles que estivessem na Judeia fugissem imediatamente para os montes (cf. Mt 24.16). Historiadores cristãos antigos, como Eusébio de Cesareia, registram que muitos cristãos obedeceram a essa orientação e refugiaram-se na cidade de Pela. Localizada na região da Pereia, a leste do rio Jordão, Pela tornou-se um local seguro para os cristãos antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., evidenciando o cumprimento prático da advertência de Jesus e o cuidado providencial de Deus para com o seu povo.A grande tribulação (Mateus 24.21–22)
Jesus
descreve esse período como uma tribulação sem precedentes. A expressão grega thlipsis
megalē significa literalmente “grande aflição” ou “grande pressão”,
indicando um tempo de sofrimento intenso e incomparável.
Historicamente,
esse cenário cumpriu-se de forma marcante durante o cerco de Jerusalém,
ocorrido entre os anos 66 e 70 d.C., culminando com a destruição da cidade e do
Templo no ano 70 d.C., sob o comando do general romano Tito. Durante esse
período, Jerusalém tornou-se palco de extrema fome, violência brutal, conflitos
internos entre facções judaicas e um número incontável de mortes.
O
historiador judeu Flávio Josefo, testemunha ocular dos acontecimentos, descreve
cenas chocantes, incluindo a escassez total de alimentos, mortes por inanição
dentro da cidade e até episódios de canibalismo, especialmente nas áreas mais
densamente povoadas, como dentro dos muros de Jerusalém. Os combates e
massacres também ocorreram em diversos pontos da cidade, incluindo o entorno do
Templo e suas proximidades, onde milhares pereceram.
Ao afirmar que
aqueles dias seriam abreviados por causa dos eleitos, Jesus revela não apenas a
severidade do juízo divino, mas também a manifestação da misericórdia de Deus
para com o seu povo, limitando a duração de um sofrimento que, de outra forma,
levaria à destruição completa da nação.
O perigo dos falsos
cristos (Mateus 24.23–28)
Nos versículos finais desta
seção, Jesus volta ao tema do engano espiritual. Surgiriam falsos cristos
(pseudochristoi) e falsos profetas capazes de realizar sinais impressionantes
para seduzir muitas pessoas.
Jesus ensina que sua
verdadeira vinda não dependerá de anúncios secretos nem de líderes que afirmem
possuir revelações exclusivas. Pelo contrário, ela será pública e evidente.
Ao comparar sua
manifestação ao relâmpago que atravessa o céu de uma extremidade à outra,
Cristo enfatiza que ninguém precisará informar que Ele voltou; toda a
humanidade verá sua manifestação gloriosa.
A declaração final: "Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres", funciona como
um provérbio. Assim como as aves encontram naturalmente um corpo morto, o juízo
divino alcançará inevitavelmente aqueles que permanecem em rebelião contra
Deus.
Conclusão
Mateus 24.1–28 não foi
escrito para despertar medo ou alimentar especulações sobre datas, mas para
fortalecer a fé dos discípulos. Jesus prepara sua Igreja para enfrentar
perseguições, rejeitar falsos ensinos, perseverar até o fim e confiar na
soberania de Deus.
Historicamente, muitas
dessas palavras cumpriram-se na destruição de Jerusalém em 70 d.C.,
demonstrando a veracidade das profecias de Cristo. Ao mesmo tempo, o texto
aponta para princípios permanentes que continuam válidos para todas as
gerações: vigilância, fidelidade, discernimento e esperança.
Assim, a mensagem
central de Mateus 24.1–28 não é descobrir o dia do fim, mas viver de maneira
fiel enquanto se aguarda a plena manifestação do Reino de Deus. Jesus chama
seus seguidores a permanecerem firmes, certos de que a história está sob o
controle do Senhor e de que suas promessas jamais falharão