Por Josué de A Soares
Introdução
Toda sociedade organizada se fundamenta em uma
constituição, documento supremo que estabelece princípios, direitos, deveres e
a forma correta de convivência. À luz da fé cristã, a Bíblia Sagrada pode ser compreendida como a Constituição Divina, isto é, o
conjunto de leis, princípios e revelações que regulam a relação entre Deus e a
humanidade. Não se trata apenas de um livro religioso, mas da expressão máxima
da vontade soberana de Deus para a vida espiritual, moral e social do ser
humano.
Ao longo da história, povos e nações criaram
códigos jurídicos para ordenar a vida coletiva. Contudo, antes mesmo das
constituições humanas, Deus já havia estabelecido Sua Palavra como regra de fé
e prática. A Escritura se apresenta, portanto, como norma suprema, imutável em
seus princípios e plenamente suficiente para conduzir o homem à salvação e a
uma vida justa diante de Deus.
1. A Bíblia como fundamento da
autoridade divina
A Bíblia reivindica para si mesma uma autoridade
singular. Diferente de qualquer outro escrito, ela afirma ter origem divina:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada” (2Tm 3.16). O termo inspiração
indica que a Palavra procede do próprio Deus, ainda que tenha sido registrada
por autores humanos em contextos históricos distintos. Essa dupla autoria
confere à Bíblia autoridade absoluta sobre a fé e a conduta cristã¹.
Como Constituição Divina, a Escritura não depende
da validação humana para exercer sua autoridade. Ela é normativa porque procede
do Legislador Supremo. Assim como uma constituição civil está acima das demais
leis, a Palavra de Deus está acima de tradições, costumes e opiniões pessoais.
Jesus confirmou essa supremacia ao declarar: “A Escritura não pode ser anulada”
(Jo 10.35).
2. Princípios, leis e valores da
Constituição Divina
Uma constituição estabelece princípios fundamentais
que orientam toda a vida social. De modo semelhante, a Bíblia apresenta valores
eternos que regem o relacionamento do homem com Deus, com o próximo e consigo
mesmo. Os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17) funcionam como um núcleo constitucional
da revelação, revelando padrões morais que ultrapassam culturas e épocas².
Esses princípios não são meramente legais, mas
espirituais e éticos. Eles visam a preservação da vida, da justiça, da
dignidade humana e da santidade. O salmista reconhece essa excelência ao
afirmar: “A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sl 19.7). A
Constituição Divina não oprime, antes liberta, pois conduz o homem à verdadeira
ordem estabelecida por Deus.
3. A Bíblia como guia para a vida
pessoal e comunitária
Enquanto as constituições humanas regulam
principalmente a esfera pública, a Bíblia alcança tanto o interior do indivíduo
quanto a vida comunitária. Ela orienta pensamentos, intenções e atitudes,
chamando o ser humano a uma transformação integral. O profeta Jeremias anuncia
a promessa de uma lei escrita no coração (Jr 31.33), revelando que a
Constituição Divina atua de dentro para fora.
Na comunidade de fé, a Bíblia serve como regra de
organização, disciplina e missão. A igreja primitiva perseverava “na doutrina
dos apóstolos” (At 2.42), reconhecendo a Palavra como base de sua vida
espiritual e social. Onde a Escritura é respeitada como Constituição Divina, há
ordem, edificação e crescimento saudável do povo de Deus³.
4. Cristo e o cumprimento da
Constituição Divina
Jesus Cristo não aboliu a Constituição Divina, mas
a cumpriu em sua plenitude. Ele afirmou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou
os Profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mt 5.17). Em Cristo, a Palavra se
fez carne (Jo 1.14), revelando de forma perfeita o caráter e a vontade de Deus.
O Novo Testamento mostra que a Constituição Divina
alcança seu ápice no amor, que resume toda a Lei (Mt 22.37-40). Assim, a
obediência bíblica não se baseia apenas em mandamentos externos, mas em um
relacionamento vivo com Deus, mediado por Cristo e aplicado pelo Espírito
Santo.
Conclusão
Compreender a Bíblia Sagrada como Constituição Divina é reconhecer sua
autoridade suprema, sua suficiência e sua relevância permanente. Em um mundo
marcado por relativismo moral e instabilidade ética, a Palavra de Deus
permanece firme como fundamento seguro para a fé, a vida e a esperança cristã.
A Escritura continua sendo o documento maior do
Reino de Deus, orientando seus cidadãos quanto à verdade, à justiça e à
salvação. Submeter-se à Constituição Divina não é perder liberdade, mas
encontrar o verdadeiro propósito da existência sob o governo gracioso do
Senhor.
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- BERKHOF, Louis. Teologia
Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
- WALTON, John H. Antigo
Testamento: Contexto e Teologia. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- STOTT, John. A Bíblia
Contemporânea. São Paulo: ABU, 2007.
