Por Josué de A Soares
Síntese
O presente artigo propõe uma análise exegética
detalhada de Isaías 64.6, com especial atenção à expressão hebraica םידִּעִ
דגֶבֶּ (beged ʿiddîm), tradicionalmente traduzida como “trapo de
imundícia”. A pesquisa examina o contexto literário do capítulo, a estrutura
sintática do versículo, o campo semântico dos termos principais e a recepção
interpretativa na tradição cristã. Conclui-se que o texto emprega linguagem
cultual ligada à impureza ritual menstrual, não havendo base lexical para a
interpretação que associa a expressão à lepra. A passagem deve ser compreendida
como hipérbole penitencial que enfatiza a insuficiência da justiça humana
diante da santidade divina.
Palavras-chave: Isaías 64.6; exegese bíblica; hebraico
bíblico; impureza ritual; graça.
Introdução
Isaías 64.6 constitui uma das declarações mais
contundentes da literatura profética:
“Mas todos nós somos como o impuro, e todas as
nossas justiças como trapo de imundícia.”
A força imagética da expressão suscita debates
históricos. Enquanto a maioria dos exegetas associa o texto à impureza ritual
descrita em Levítico 15, interpretações populares sugerem referência à lepra.
Este estudo examina o texto hebraico, sua estrutura sintática e seu contexto
teológico, visando esclarecer o significado original da metáfora.
2 Contexto Literário e Histórico
Isaías 63.7–64.12 constitui uma oração penitencial comunitária pós-exílica¹.
O povo reconhece:
·
A fidelidade histórica de Deus;
·
A rebelião nacional;
·
A ausência da intervenção divina.
O capítulo 64 insere-se nesse clamor coletivo. A linguagem não é
sistemática-dogmática, mas litúrgica e confessional.
3 Análise Textual e Sintática do Hebraico
O texto massorético apresenta:
וּנלָּכֻּ אמֵטָּכַ יהִנְּוַ
וּניתֵקֹדְצִ־לכָּ םידִּעִ
דגֶבֶכְוּ
3.1 Estrutura Sintática
O versículo apresenta paralelismo sintético:
Primeira linha:
יהִנְּוַ (vannehî) – “tornamo-nos” / “somos”
כַטָּמֵא (katamê) – “como o impuro”
נלָּוּכֻּ (kullānû) – “todos nós”
Segunda linha:
דגֶבֶכְוּ (ukhebeged) – “e como veste”
םידִּעִ (ʿiddîm) – “de impurezas”
וּניתֵקֹדְצִ־לכָּ (kol-tsidqōtênû) – “todas as nossas justiças”
A construção comparativa com prefixo כ (kaf comparativo) aparece em ambas as
linhas, reforçando o paralelismo.
3.2 Análise Morfológica dos Termos-Chave
a) אמֵטָּ (tamê)
Adjetivo que significa “impuro”, frequentemente utilizado no contexto
cultual levítico².
b) בֶּגֶד (beged)
Substantivo comum para “roupa” ou “veste”. No contexto cultual, pode
designar vestes contaminadas (Lv 13–15).
c) םידִּעִ (ʿiddîm)
Termo raro. Deriva possivelmente de הדָעֵ ou de
raiz ligada a fluxo periódico³. A maioria dos léxicos hebraicos associa o termo
à impureza menstrual (cf. Lv 15,19).
Importante observar:
O termo técnico para lepra é תעַרַצָ (tsaraʿat), inexistente neste
versículo.
Logo, não há base lexical para associar a expressão à lepra.
4 Campo Semântico da Impureza Ritual
Levítico 15 descreve a impureza menstrual como
estado ritual temporário que tornava pessoas e objetos impuros.
O conceito não implica pecado moral intrínseco,
mas inadequação para o culto. A metáfora em Isaías, portanto, comunica:
·
Inadequação cultual;
·
Contaminação simbólica;
·
Distanciamento da santidade divina.
Trata-se de linguagem litúrgica intensificada.
5 Avaliação da Interpretação “Pano de
Leproso”
A associação com lepra surge por três fatores históricos:
1. Ambas
(lepra e fluxo menstrual) eram impurezas rituais.
2. A
lepra possuía forte impacto simbólico.
3. Pregações
medievais ampliaram imagens bíblicas para reforçar aplicações morais.
Entretanto, do ponto de vista filológico:
·
Não há ocorrência de תעַרַצָ no
texto.
·
O termo םידִּעִ está ligado semanticamente ao
fluxo menstrual.
·
A tradição textual (incluindo a Vulgata)
confirma essa leitura.
Portanto, a interpretação leprosa é homilética, não exegética.
6 Recepção na Tradição Cristã
6.1 Patrística
A Vulgata traduziu como pannus menstruatae,
indicando compreensão menstrual da expressão⁴.
6.2 Teologia Medieval
A reflexão escolástica interpretou o texto à luz
da doutrina da graça: obras sem graça não são meritórias para a salvação
eterna⁵.
6.3 Exegese Moderna
Estudiosos contemporâneos identificam o texto
como hipérbole penitencial. A ênfase está na insuficiência da justiça humana
quando confrontada com a santidade absoluta de Deus⁶.
7 Teologia do Texto
Isaías 64,6 ensina três dimensões fundamentais:
1. Universalidade
do pecado (“todos nós”).
2. Limitação
da justiça humana.
3. Necessidade
da intervenção divina.
O versículo não afirma que toda obra humana é moralmente má. Ele afirma que
nenhuma justiça autônoma pode reivindicar aceitação diante de Deus.
O capítulo culmina com a metáfora do oleiro (64,8), reafirmando dependência
total da ação divina.
Conclusão
A análise exegética e sintática de Isaías 64,6 demonstra que:
·
A expressão םידִּעִ דגֶבֶּ refere-se à impureza
ritual menstrual.
·
Não há fundamento textual para a leitura “pano
de leproso”.
·
O versículo constitui hipérbole penitencial
dentro de oração comunitária.
·
A mensagem central é teológica: a justiça humana
é insuficiente sem a graça divina.
Assim, o texto deve ser interpretado com rigor filológico e sensibilidade
teológica, evitando ampliações devocionais que ultrapassem o dado lexical.
_________________________________________________________________
1.
OSWALT, 1998, p.
590.
2.
BROWN; DRIVER;
BRIGGS, 1996, p. 379.
3.
Ibid., p. 728.
4.
VULGATA, 1994.
5.
Cf. tradição
escolástica sobre mérito e graça.
6.
MOTYER, 1993, p.
530.
Bibliografia
BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles. Hebrew
and English Lexicon of the Old Testament. Peabody: Hendrickson, 1996.
MOTYER, J. Alec. The Prophecy of Isaiah.
Downers Grove: IVP, 1993.
OSWALT, John N. The Book of Isaiah, Chapters
40–66. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.
SCHREINER, Thomas R. The Law and Its Fulfillment.
Grand Rapids: Baker, 1993.
VULGATA. Biblia Sacra Vulgata. Stuttgart:
Deutsche Bibelgesellschaft, 1994.
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