terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ISAÍAS 64.6: ANÁLISE EXEGÉTICA, SINTÁTICA E TEOLÓGICA DA EXPRESSÃO “TRAPO DE IMUNDÍCIA”


Por Josué de A Soares 

Síntese

O presente artigo propõe uma análise exegética detalhada de Isaías 64.6, com especial atenção à expressão hebraica םידִּעִ דגֶבֶּ   (beged ʿiddîm), tradicionalmente traduzida como “trapo de imundícia”. A pesquisa examina o contexto literário do capítulo, a estrutura sintática do versículo, o campo semântico dos termos principais e a recepção interpretativa na tradição cristã. Conclui-se que o texto emprega linguagem cultual ligada à impureza ritual menstrual, não havendo base lexical para a interpretação que associa a expressão à lepra. A passagem deve ser compreendida como hipérbole penitencial que enfatiza a insuficiência da justiça humana diante da santidade divina.

Palavras-chave: Isaías 64.6; exegese bíblica; hebraico bíblico; impureza ritual; graça.

Introdução

Isaías 64.6 constitui uma das declarações mais contundentes da literatura profética: 

“Mas todos nós somos como o impuro, e todas as nossas justiças como trapo de imundícia.”

A força imagética da expressão suscita debates históricos. Enquanto a maioria dos exegetas associa o texto à impureza ritual descrita em Levítico 15, interpretações populares sugerem referência à lepra. Este estudo examina o texto hebraico, sua estrutura sintática e seu contexto teológico, visando esclarecer o significado original da metáfora.

2 Contexto Literário e Histórico

Isaías 63.7–64.12 constitui uma oração penitencial comunitária pós-exílica¹. O povo reconhece:

·        A fidelidade histórica de Deus;

·        A rebelião nacional;

·        A ausência da intervenção divina.

O capítulo 64 insere-se nesse clamor coletivo. A linguagem não é sistemática-dogmática, mas litúrgica e confessional.

3 Análise Textual e Sintática do Hebraico

O texto massorético apresenta:

וּנלָּכֻּ   אמֵטָּכַ   יהִנְּוַ
וּניתֵקֹדְצִ־לכָּ   םידִּעִ  דגֶבֶכְוּ

3.1 Estrutura Sintática

O versículo apresenta paralelismo sintético:

Primeira linha:
יהִנְּוַ (vannehî) – “tornamo-nos” / “somos”
כַטָּמֵא (katamê) – “como o impuro”
נלָּוּכֻּ (kullānû) – “todos nós”

Segunda linha:
דגֶבֶכְוּ (ukhebeged) – “e como veste”
םידִּעִ (ʿiddîm) – “de impurezas”
וּניתֵקֹדְצִ־לכָּ (kol-tsidqōtênû) – “todas as nossas justiças”

A construção comparativa com prefixo כ (kaf comparativo) aparece em ambas as linhas, reforçando o paralelismo.

3.2 Análise Morfológica dos Termos-Chave

a) אמֵטָּ (tamê)

Adjetivo que significa “impuro”, frequentemente utilizado no contexto cultual levítico².

b) בֶּגֶד (beged)

Substantivo comum para “roupa” ou “veste”. No contexto cultual, pode designar vestes contaminadas (Lv 13–15).

c) םידִּעִ (ʿiddîm)

Termo raro. Deriva possivelmente de הדָעֵ ou de raiz ligada a fluxo periódico³. A maioria dos léxicos hebraicos associa o termo à impureza menstrual (cf. Lv 15,19).

Importante observar:

O termo técnico para lepra é תעַרַצָ (tsaraʿat), inexistente neste versículo.

Logo, não há base lexical para associar a expressão à lepra.

4 Campo Semântico da Impureza Ritual

Levítico 15 descreve a impureza menstrual como estado ritual temporário que tornava pessoas e objetos impuros.

O conceito não implica pecado moral intrínseco, mas inadequação para o culto. A metáfora em Isaías, portanto, comunica:

·        Inadequação cultual;

·        Contaminação simbólica;

·        Distanciamento da santidade divina.

Trata-se de linguagem litúrgica intensificada.

5 Avaliação da Interpretação “Pano de Leproso”

A associação com lepra surge por três fatores históricos:

1.     Ambas (lepra e fluxo menstrual) eram impurezas rituais.

2.     A lepra possuía forte impacto simbólico.

3.     Pregações medievais ampliaram imagens bíblicas para reforçar aplicações morais.

Entretanto, do ponto de vista filológico:

·        Não há ocorrência de תעַרַצָ   no texto.

·        O termo םידִּעִ está ligado semanticamente ao fluxo menstrual.

·        A tradição textual (incluindo a Vulgata) confirma essa leitura.

Portanto, a interpretação leprosa é homilética, não exegética.

6 Recepção na Tradição Cristã

6.1 Patrística

A Vulgata traduziu como pannus menstruatae, indicando compreensão menstrual da expressão⁴.

6.2 Teologia Medieval

A reflexão escolástica interpretou o texto à luz da doutrina da graça: obras sem graça não são meritórias para a salvação eterna⁵.

6.3 Exegese Moderna

Estudiosos contemporâneos identificam o texto como hipérbole penitencial. A ênfase está na insuficiência da justiça humana quando confrontada com a santidade absoluta de Deus⁶.

7 Teologia do Texto

Isaías 64,6 ensina três dimensões fundamentais:

1.     Universalidade do pecado (“todos nós”).

2.     Limitação da justiça humana.

3.     Necessidade da intervenção divina.

O versículo não afirma que toda obra humana é moralmente má. Ele afirma que nenhuma justiça autônoma pode reivindicar aceitação diante de Deus.

O capítulo culmina com a metáfora do oleiro (64,8), reafirmando dependência total da ação divina.

 Conclusão

A análise exegética e sintática de Isaías 64,6 demonstra que:

·        A expressão םידִּעִ דגֶבֶּ refere-se à impureza ritual menstrual.

·        Não há fundamento textual para a leitura “pano de leproso”.

·        O versículo constitui hipérbole penitencial dentro de oração comunitária.

·        A mensagem central é teológica: a justiça humana é insuficiente sem a graça divina.

Assim, o texto deve ser interpretado com rigor filológico e sensibilidade teológica, evitando ampliações devocionais que ultrapassem o dado lexical.

_________________________________________________________________

1.      OSWALT, 1998, p. 590.

2.      BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1996, p. 379.

3.      Ibid., p. 728.

4.      VULGATA, 1994.

5.      Cf. tradição escolástica sobre mérito e graça.

6.      MOTYER, 1993, p. 530.   


Bibliografia

BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles. Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Peabody: Hendrickson, 1996.

MOTYER, J. Alec. The Prophecy of Isaiah. Downers Grove: IVP, 1993.

OSWALT, John N. The Book of Isaiah, Chapters 40–66. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

SCHREINER, Thomas R. The Law and Its Fulfillment. Grand Rapids: Baker, 1993.

VULGATA. Biblia Sacra Vulgata. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994.

 

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