terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carnaval, Fé e República: quando o espetáculo ultrapassa os limites institucionais


O Brasil é uma nação marcada pela pluralidade cultural, pela liberdade religiosa e pela vitalidade de suas manifestações artísticas. O samba, expressão legítima da alma popular, construiu ao longo de décadas um patrimônio simbólico que transcende a avenida e ecoa na identidade nacional. Contudo, quando a arte deixa de ser expressão cultural para tornar-se instrumento de propaganda político-partidária — sobretudo em ano eleitoral — instala-se uma tensão legítima entre liberdade de criação e responsabilidade institucional.

Em pleno ciclo eleitoral de 2026, causou perplexidade o fato de uma escola de samba utilizar o desfile como palco para exaltação indireta do atual chefe do Executivo. O problema não reside na liberdade de opinião — direito garantido em qualquer Estado Democrático de Direito —, mas no uso de recursos públicos substanciais para promover narrativas que podem ser interpretadas como favorecimento político. Em uma República, a equidistância do poder público diante das disputas eleitorais não é mera formalidade: é pressuposto de legitimidade.

O debate torna-se ainda mais sensível quando se considera o volume de verbas destinadas às escolas de samba para o Carnaval de 2026. Ainda que o financiamento da cultura seja instrumento legítimo de política pública, é imperativo que sua aplicação observe critérios técnicos, transparência e neutralidade. Quando o investimento estatal coincide com manifestações artísticas que assumem contornos de propaganda, o cidadão tem o direito — e talvez o dever — de questionar.

Entretanto, o ponto mais delicado não foi apenas a suposta promoção política. O que despertou indignação em amplos setores da sociedade foi a encenação que, segundo muitos fiéis, imitou elementos centrais da fé cristã evangélica, especialmente símbolos associados ao batismo com o Espírito Santo no contexto pentecostal. Para mais de 30 milhões de brasileiros que professam a fé evangélica, tais símbolos não são metáforas culturais ou alegorias artísticas; são experiências espirituais sagradas, profundamente enraizadas na vivência religiosa.

A liberdade artística é um valor constitucional. Mas ela não existe em um vácuo moral. Em uma sociedade plural, o respeito recíproco é o cimento invisível que sustenta a convivência democrática. A sátira pode ter lugar; a crítica também. Contudo, a imitação de ritos considerados sagrados por uma comunidade numerosa, quando feita em tom de escárnio ou trivialização, ultrapassa a fronteira da crítica legítima e adentra o território da ofensa simbólica.

Não se trata de reivindicar privilégios religiosos nem de pleitear censura. A laicidade do Estado pressupõe neutralidade — não hostilidade — em relação às crenças. O Estado laico não ridiculariza a fé; tampouco a instrumentaliza. Ele protege igualmente todas as convicções, garantindo que nenhuma seja favorecida ou vilipendiada pelo poder público.

Nesse contexto, chama atenção o silêncio das autoridades responsáveis pela guarda da Constituição. O Supremo Tribunal Federal, enquanto instância máxima de interpretação constitucional, tem reiteradamente se posicionado em defesa de minorias e da liberdade de expressão. Tal postura é, em si, louvável. Contudo, a coerência institucional exige que a proteção da dignidade religiosa não seja seletiva.

Quando manifestações públicas parecem afrontar valores caros a uma parcela expressiva da população, o mínimo que se espera é um posicionamento que reafirme os princípios constitucionais de respeito e liberdade religiosa. O silêncio institucional, ainda que juridicamente justificável sob o argumento da inexistência de provocação formal, pode ser interpretado como indiferença diante da sensibilidade de milhões de cidadãos.

O debate, portanto, não deve ser reduzido a uma disputa entre “arte” e “religião”, nem a um embate ideológico entre campos políticos antagônicos. Ele diz respeito à maturidade democrática do Brasil. Uma democracia sólida não se mede apenas pela liberdade de expressão, mas também pela responsabilidade no seu exercício.

A cultura brasileira é vasta o suficiente para celebrar sua diversidade sem recorrer à instrumentalização do sagrado. O Carnaval sempre foi espaço de crítica social e política, mas também de criatividade e elevação estética. Quando se opta por tensionar deliberadamente a fé de milhões, sobretudo em ambiente financiado com recursos públicos, a discussão deixa de ser meramente artística e assume contornos éticos e institucionais.

Há, ainda, um aspecto pedagógico. A mensagem transmitida às novas gerações importa. Se o espaço público se converte em arena de ridicularização das convicções alheias, enfraquece-se o pacto de respeito mútuo que sustenta a convivência civilizada. A crítica política é saudável; o debate eleitoral é necessário; a liberdade artística é preciosa. Mas todos esses valores devem coexistir com o reconhecimento da dignidade do outro.

Não se pode ignorar que o Brasil atravessa tempos de polarização acentuada. Em contextos assim, gestos simbólicos ganham peso desproporcional. O que poderia ser percebido como simples alegoria passa a ser interpretado como provocação deliberada. Por isso mesmo, exige-se prudência redobrada de instituições culturais que recebem apoio estatal.

Reprovar tal iniciativa não significa hostilizar o Carnaval, tampouco negar a importância histórica das escolas de samba. Significa, antes, reafirmar que a esfera pública deve ser espaço de convergência, não de afronta gratuita. Significa sustentar que a laicidade do Estado protege tanto a liberdade artística quanto a integridade das convicções religiosas.

O momento convida à reflexão serena, não ao acirramento. A crítica pode — e deve — ser firme, mas ancorada em princípios republicanos. A democracia floresce quando há equilíbrio entre direitos, quando a liberdade é exercida com responsabilidade e quando as instituições atuam com coerência.

Em última análise, a questão que se impõe é simples e profunda: queremos um país em que a arte una ou divida? Em que o poder público promova cultura com neutralidade ou com viés? Em que a fé seja respeitada como dimensão legítima da experiência humana ou tratada como objeto de caricatura?

Responder a essas perguntas é tarefa coletiva. E talvez seja justamente nesse exercício de discernimento crítico que a República encontra sua força.

                                               Que Deus abençoe o Brasil

                                                         Por Josué Soares.

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