segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quando a Terra Treme: A Dor na Venezuela, os Sinais dos Tempos e o Chamado à Ação

                                               

                                          POR  JOSUÉ DE  A SOARES

"Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em vários lugares, acontecimentos terríveis e grandes sinais provenientes do céu." (Lc 21.11).  

A fragilidade da vida humana e a força imprevisível da natureza colidiram de forma devastadora no norte da Venezuela. Em uma sequência de fortes terremotos que atingiram a costa do país, cidades inteiras viram suas estruturas ruírem, transformando bairros vibrantes em cenários de poeira, silêncio e desolação. As autoridades locais confirmaram mais de 1.450 mortes, enquanto o rastro de destruição deixa um número alarmante de feridos e aproximadamente 50 mil desaparecidos em meio aos escombros.

Diante de tamanha catástrofe, as imagens que chegam da região de La Guaira e arredores de Caracas não são apenas estatísticas frias; elas carregam rostos, histórias despedaçadas e uma dor profunda que ecoa globalmente.


Equipes de socorro buscam sobreviventes nos escombros em La Guaira, epicentro da tragédia.. Fonte: G1 - Globo

O Luto que Une o Futebol e o Mundo

Por trás dos números oficiais, as tragédias particulares ganham contornos dilacerantes. O ecossistema do esporte e a sociedade civil foram profundamente tocados pelo drama do zagueiro argentino Lucas Trejo, jogador do Deportivo La Guaira. Após 74 horas de buscas incessantes e apelos desesperados nas redes sociais, os socorristas encontraram sem vida sua esposa, Yanina Maranella, e seus dois filhos, Ainhoa, de 7 anos, e Aarón, de apenas 5 anos. Eles estavam no apartamento da família no complexo residencial Cumanagoto, em Playa Grande, no momento em que a estrutura colapsou.

A dor de Trejo se soma à de milhares de venezuelanos, incluindo os familiares da promessa do futebol local, Yimvert Berroterán, de 18 anos (atleta da seleção sub-20), que também faleceu nos desabamentos ao lado de sua namorada.

Neste momento de imensurável sofrimento, nossa profunda solidariedade se estende a Lucas Trejo, a toda a comunidade esportiva e às famílias enlutadas. Que haja espaço para o choro, para o acolhimento comunitário e para o suporte psicológico e espiritual, lembrando que a empatia humana é o primeiro passo para refletir o consolo divino na Terra.

Uma Teologia Bíblica do Sofrimento e os Sinais dos Tempos

Para a comunidade de fé, catástrofes dessa magnitude inevitavelmente levantam questionamentos teológicos profundos. Como compreender esses eventos à luz da Bíblia Sagrada?

O próprio Jesus, ao ser questionado sobre o fim dos tempos e a consumação dos séculos, apontou para a instabilidade da criação como um indicativo de uma transição cósmica. No Evangelho de Mateus, lemos:

"Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio das dores." (Mateus 24:7-8)

O termo "princípio das dores" (no original grego, odin, fortemente associado às dores de parto) é uma chave hermenêutica fundamental na Teologia Bíblica. Terremotos e desastres naturais não devem ser interpretados isoladamente como castigos divinos arbitrários direcionados a uma população específica, mas sim como o gemido de uma criação que sofre os efeitos macroestruturais da queda e da quebra da harmonia original. O apóstolo Paulo aprofunda essa perspectiva em sua carta aos Romanos:

"Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora." (Romanos 8:22)

Esses "sinais" descritos na Palavra funcionam como um alerta que nos lembra de duas verdades urgentes: a transitoriedade do mundo presente e a iminência da restauração de todas as coisas por Deus. No entanto, o texto bíblico nunca nos direciona para uma postura de resignação passiva ou mero pânico apocalíptico. Pelo contrário, quanto mais o mundo "geme", mais os cidadãos e a igreja são convocados a manifestar o Reino de Deus por meio do amor prático e da compaixão ativa.

Contextualização Global e a Urgência da Engenharia Preventiva

Embora os terremotos sejam fenômenos de ordem geológica, o impacto socioeconômico e o número de vítimas estão diretamente atrelados a decisões humanas e políticas globais. A tragédia na Venezuela expõe uma ferida compartilhada por diversas nações em desenvolvimento: a vulnerabilidade das infraestruturas urbanas e a falta de preparo preventivo para lidar com eventos extremos.

Especialistas em gestão de desastres e engenharia sísmica apontam que a perda de vidas em terremotos urbanos frequentemente decorre do colapso de edificações que não seguiram normas rígidas de construção ou que sofreram com a falta de manutenção e planejamento habitacional.

O engenheiro civil e especialista em estruturas sismo-resistentes, Dr. Carlos Mendoza, explica o cenário:

"O perigo sísmico é natural, mas o desastre é social. Quando faltam investimentos estruturais de longo prazo, fiscalização severa e planos de evacuação acessíveis à população, o custo de um tremor deixa de ser medido apenas na escala Richter e passa a ser contabilizado em milhares de vidas perdidas de forma perfeitamente evitável."

Trabalhar preventivamente é, portanto, um imperativo técnico, ético e, acima de tudo, espiritual. Na perspectiva da mordomia cristã, cuidar do próximo envolve planejar cidades seguras, criar políticas públicas que protejam os mais vulneráveis do ponto de vista habitacional e garantir que as estruturas resistam às intempéries do tempo.

O Chamado Prático: Fé Operante por Meio do Amor

A resposta bíblica diante dos sinais e sofrimentos nunca se limita ao debate teórico. O apóstolo João é categórico ao definir a dinâmica da verdadeira espiritualidade:

"Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade." (1 João 3:18)

A ajuda humanitária, o envio de recursos, o apoio às agências de resgate e o acolhimento aos desalojados são extensões práticas do mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Diante do colapso e da dor de pais que perderam seus filhos e de nações que choram seus mortos, a fé nos impulsiona a sermos as mãos que socorrem e a voz que clama por justiça socioambiental e segurança habitacional no plano global.

Que o luto compartilhado se transforme em combustível para a prevenção, e que a certeza bíblica da restauração final nos mantenha firmes no compromisso de aliviar o sofrimento humano hoje.

Bibliografia

  • BÍBLIA SAGRADA. Versão Almeida Revista e Corrigida (ARC). São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
  • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Relatório de Situação Humanitária: Resposta Emergencial ao Terremoto na Venezuela. Genebra: Nações Unidas, junho de 2026.
  • MENDOZA, Carlos. Engenharia Sismo-Resistente e Vulnerabilidade Urbana na América Latina. Bogotá: Ed. Tecnocientífica, 2024.
  • FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). Proteção à infância e assistência emergencial pós-desastres em La Guaira. Caracas: UNICEF Venezuela, 2026.
PORTAL G1 / CNN BRASIL. Cobertura jornalística dos desdobramentos dos terremotos na Venezuela e o caso Lucas Trejo. Edições de 24 a 28 de junho de 2026.

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