Josué de Asevedo Soares
Resumo
O presente artigo analisa a
compreensão da ressurreição de Jesus Cristo como prolepse histórica no
pensamento teológico de Wolfhart Pannenberg (1928–2014). O objetivo é
investigar como o teólogo alemão articula a historicidade da ressurreição, a
revelação de Deus e a dimensão escatológica da história. Parte-se da hipótese
de que a ressurreição constitui, na perspectiva pannenberguiana, uma
antecipação histórica da consumação escatológica, na qual se manifesta
antecipadamente o destino último da humanidade e da criação. Metodologicamente,
a pesquisa adota uma abordagem bibliográfica, analítico-hermenêutica e
sistemático-teológica, concentrando-se especialmente na cristologia de
Pannenberg e em seu conceito de revelação como história. O estudo examina a
relação entre o acontecimento pascal e a identidade de Jesus, a significação da
prolepse para a compreensão do tempo histórico e as implicações escatológicas
da ressurreição. Conclui-se que a proposta de Pannenberg procura superar a
separação entre história e fé, compreendendo a ressurreição como acontecimento
de relevância universal, cuja significação plena aponta para o futuro
escatológico de Deus.
Palavras-chave: Wolfhart
Pannenberg; ressurreição de Jesus; prolepse; história; revelação; escatologia.
Introdução
A ressurreição de Jesus Cristo
ocupa uma posição central na fé cristã e representa um dos temas fundamentais
da reflexão teológica contemporânea. A afirmação de que Jesus, crucificado sob
o poder romano, ressuscitou dentre os mortos não constitui apenas uma
declaração acerca de seu destino individual, mas uma afirmação que envolve a
compreensão de Deus, da história, da esperança e do destino último da
humanidade. A ressurreição é proclamada no Novo Testamento como o acontecimento
decisivo por meio do qual a morte não possui a palavra definitiva sobre a
existência humana. Em 1 Coríntios 15.14, o apóstolo Paulo relaciona diretamente
a veracidade da pregação cristã à realidade da ressurreição de Cristo.
No pensamento do teólogo alemão
Wolfhart Pannenberg, essa afirmação adquire uma configuração teológica
particularmente significativa. Diferentemente das abordagens que tendem a
restringir a ressurreição à experiência subjetiva da fé ou à interpretação existencial
da mensagem cristã, Pannenberg procura sustentar que a fé na ressurreição
apresenta uma reivindicação acerca da realidade histórica. Para ele, a
cristologia não pode ser desenvolvida adequadamente sem considerar os
acontecimentos relacionados à vida, à morte e à ressurreição de Jesus. A
identidade de Cristo deve ser investigada a partir de sua história concreta,
sobretudo do acontecimento pascal, no qual se manifesta antecipadamente o
significado escatológico de sua pessoa.¹
Essa perspectiva está relacionada
à concepção pannenberguiana da revelação como história. A revelação divina não
é compreendida simplesmente como a comunicação de verdades religiosas isoladas
do curso dos acontecimentos, mas como uma realidade que se manifesta por meio
da história e cuja inteligibilidade plena depende da consumação escatológica. A
história, portanto, não é apenas o cenário no qual a revelação acontece; ela
constitui o horizonte no qual a identidade de Deus e o sentido último da
existência humana se tornam progressivamente reconhecíveis.²
É nesse contexto que se insere o
conceito de prolepse. Em sentido geral, o termo designa uma antecipação de algo
que ainda deverá alcançar sua realização plena. Em Pannenberg, a prolepse
possui uma significação teológica mais específica: refere-se à antecipação
histórica de uma realidade futura, especialmente da consumação escatológica, no
interior dos acontecimentos presentes. A ressurreição de Jesus constitui, nessa
perspectiva, uma antecipação do fim da história, pois nela se manifesta, de
maneira singular, a vida que Deus destina à humanidade na consumação de seu
propósito criador.
A questão que orienta este artigo
pode ser formulada da seguinte maneira: em que sentido a ressurreição de Jesus
Cristo pode ser compreendida como prolepse histórica no pensamento de Wolfhart
Pannenberg, e quais são as implicações dessa interpretação para a cristologia,
a revelação e a escatologia cristã?
A hipótese defendida é que, para
Pannenberg, a ressurreição de Jesus representa a antecipação histórica da
consumação escatológica, de modo que o futuro prometido por Deus se torna
parcialmente reconhecível em um acontecimento situado no interior da história.
Essa antecipação não significa que a história tenha chegado definitivamente ao
seu término, mas que, na ressurreição de Cristo, o destino último da humanidade
se manifesta antecipadamente, oferecendo uma chave teológica para a compreensão
do passado, do presente e do futuro.
O objetivo geral consiste em
analisar a ressurreição como prolepse histórica na teologia de Pannenberg,
destacando sua relação com a historicidade de Jesus, a revelação de Deus e a
esperança escatológica. Especificamente, pretende-se examinar a concepção
pannenberguiana da revelação como história, investigar o papel da ressurreição
na fundamentação de sua cristologia e compreender as consequências da prolepse
para a interpretação teológica da história universal.
Metodologicamente, a pesquisa é
bibliográfica e analítico-hermenêutica, fundamentada prioritariamente em Jesus:
God and Man e em Revelation as History, além de estudos acadêmicos
dedicados à cristologia e à filosofia da história de Pannenberg. A abordagem é
sistemático-teológica, com atenção às passagens bíblicas pertinentes e ao
diálogo crítico com a literatura especializada.
A revelação de Deus na
história segundo Wolfhart Pannenberg
A compreensão da ressurreição
como prolepse histórica exige, inicialmente, a consideração da relação
estabelecida por Pannenberg entre revelação divina e história universal. Sua
proposta teológica desenvolve-se em diálogo crítico com determinadas tendências
da teologia protestante moderna, especialmente aquelas que, em sua avaliação,
dificultavam o reconhecimento da dimensão pública e histórica da revelação.
Para Pannenberg, a revelação de
Deus não deve ser confinada à interioridade religiosa do indivíduo nem
considerada independente dos acontecimentos que constituem a história humana. A
fé cristã apresenta afirmações acerca da realidade e, por isso, suas proposições
fundamentais não podem ser isoladas de toda investigação racional e histórica.
A revelação possui uma dimensão universal, uma vez que o Deus anunciado pela
tradição bíblica não é apenas uma divindade particular, mas o Deus que
reivindica ser reconhecido como Senhor de toda a realidade.
Em Revelation as History,
obra coletiva publicada originalmente em alemão em 1961, Pannenberg e outros
teólogos desenvolveram uma concepção de revelação vinculada à manifestação
indireta de Deus nos acontecimentos históricos. Nessa perspectiva, a revelação
não se limita a um conjunto de comunicações sobrenaturais desconectadas da
história, mas se torna reconhecível por meio de acontecimentos cujo significado
se esclarece progressivamente.³
A importância dessa proposta está
em afirmar que os acontecimentos históricos não são teologicamente
transparentes por si mesmos. Sua interpretação exige considerar as relações
entre os acontecimentos, as promessas que os precedem e o horizonte futuro para
o qual apontam. A identidade de um acontecimento pode permanecer parcialmente
aberta enquanto a história continua em desenvolvimento. Somente diante da
consumação será possível compreender plenamente a totalidade do processo
histórico e reconhecer seu significado definitivo.
Essa compreensão aproxima a
teologia de Pannenberg de uma interpretação escatológica da história. O futuro
não representa simplesmente uma etapa cronológica posterior ao presente, mas o
horizonte a partir do qual a totalidade da história poderá alcançar sua
inteligibilidade definitiva. Assim como o desfecho de uma narrativa permite
compreender retrospectivamente o significado de seus acontecimentos anteriores,
a consumação escatológica possibilitará a compreensão plena da história
universal.
Isso não significa, entretanto,
que a história seja um processo automaticamente transparente ou que todos os
seus acontecimentos possam ser interpretados de maneira inequívoca no presente.
A proposta pannenberguiana exige reconhecer a abertura histórica do
conhecimento e a necessidade de uma compreensão abrangente que ultrapasse
perspectivas particulares.
É nesse ponto que a ressurreição
de Jesus adquire sua importância decisiva. Se a revelação plena de Deus está
relacionada à consumação da história, como é possível afirmar que Deus já se
revelou de maneira singular em Jesus Cristo? A resposta de Pannenberg está
associada à ideia de que o fim escatológico se tornou antecipadamente presente
na ressurreição de Jesus. O acontecimento pascal oferece, portanto, uma
antecipação daquilo que somente no fim da história será manifestado em sua
plenitude.⁴
A ressurreição não elimina a
expectativa do futuro nem transforma o presente em consumação definitiva. Ao
contrário, estabelece uma relação entre o acontecimento passado, a realidade
presente e o futuro prometido por Deus. A revelação acontece na história, mas
sua plena inteligibilidade permanece orientada para o futuro escatológico.
A ressurreição de Jesus como
acontecimento histórico
A centralidade da ressurreição na
teologia de Pannenberg está diretamente relacionada à sua compreensão da
cristologia. Em vez de começar exclusivamente por uma definição abstrata da
natureza divina de Cristo, o teólogo procura investigar a identidade de Jesus a
partir de sua história concreta. A questão cristológica deve considerar o que
aconteceu com Jesus, como sua missão foi compreendida e de que maneira a
ressurreição modifica a avaliação de sua vida e de sua morte.
Essa orientação metodológica
aparece de maneira significativa em Jesus: God and Man. Nessa obra,
Pannenberg atribui à ressurreição uma função determinante para a compreensão da
identidade de Jesus. O acontecimento pascal não constitui apenas uma
confirmação posterior de uma identidade divina previamente estabelecida de
maneira independente da história. Ele participa decisivamente da fundamentação
da afirmação cristológica de que Jesus é o Filho de Deus.⁵
A crucificação parecia
representar a derrota definitiva da missão de Jesus. A morte na cruz,
especialmente quando compreendida à luz das expectativas messiânicas de seu
contexto, levantava a questão de como aquele que anunciava o Reino de Deus
poderia ser reconhecido como o Messias. A ressurreição modifica radicalmente
essa situação, pois constitui, na interpretação cristã, a ação pela qual Deus
vindica Jesus e confirma a significação de sua missão.
O testemunho de Atos 2.22-36
apresenta uma articulação entre a morte, a ressurreição e a exaltação de Jesus.
Pedro anuncia que Jesus foi crucificado, mas que Deus o ressuscitou, não
permitindo que permanecesse sob o domínio da morte. A proclamação culmina na
afirmação de que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele que havia sido
crucificado. O texto evidencia que a identidade messiânica de Jesus é anunciada
à luz do acontecimento pascal.
Em Romanos 1.3-4, Paulo também
estabelece uma relação entre Jesus, sua descendência davídica e sua
manifestação como Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santidade, pela
ressurreição dos mortos. A passagem deve ser interpretada considerando-se a
complexidade da cristologia paulina, mas demonstra a relevância da ressurreição
para a proclamação da identidade de Jesus.
A contribuição de Pannenberg
consiste em conferir a essa relação uma significação histórico-teológica
abrangente. A ressurreição não é interpretada apenas como um sinal destinado a
fortalecer a fé dos discípulos, mas como um acontecimento que exige uma reconsideração
da identidade de Jesus e do significado de sua história. Aquele que foi
crucificado é reconhecido como o Messias porque Deus o ressuscitou, antecipando
nele o destino escatológico que ainda aguarda a humanidade.
É necessário, contudo, distinguir
a afirmação teológica da ressurreição de uma demonstração histórica nos moldes
das ciências naturais. Pannenberg procura argumentar em favor da historicidade
do acontecimento mediante a investigação dos testemunhos e das circunstâncias
históricas, mas a ressurreição permanece uma afirmação singular, que envolve
questões filosóficas e teológicas acerca da ação de Deus. A investigação
histórica pode avaliar testemunhos, fontes e explicações concorrentes; a
interpretação teológica procura compreender o significado do acontecimento no
horizonte da revelação divina.
A relevância dessa distinção é
dupla. Por um lado, evita reduzir a ressurreição a uma experiência meramente
subjetiva, sem qualquer referência à realidade. Por outro, impede que o
significado escatológico da ressurreição seja tratado como se pudesse ser esgotado
por uma descrição histórica desprovida de pressupostos interpretativos. A
proposta de Pannenberg pretende manter articuladas a investigação histórica e a
interpretação teológica.
O conceito de prolepse e a
antecipação do fim da história
O conceito de prolepse constitui
uma das categorias fundamentais para compreender a relação entre ressurreição e
escatologia na obra de Pannenberg. Em seu sentido mais amplo, prolepse
significa antecipação. No âmbito de sua teologia, porém, o termo não designa
apenas uma previsão intelectual do futuro, mas uma antecipação efetiva, no
interior da história, de uma realidade cuja consumação ainda está por vir.
A prolepse deve ser distinguida
de uma simples previsão profética. Prever um acontecimento significa anunciar
antecipadamente algo que deverá ocorrer. A prolepse, na perspectiva aqui
examinada, envolve uma relação mais profunda entre o presente e o futuro: uma
realidade futura torna-se antecipadamente manifesta em um acontecimento
histórico, sem que sua realização universal tenha sido concluída.
É nesse sentido que a
ressurreição de Jesus pode ser interpretada como prolepse do fim escatológico.
A esperança judaica da ressurreição dos mortos estava vinculada à expectativa
de uma ação definitiva de Deus, mediante a qual a morte seria vencida e a justiça
divina plenamente manifestada. A ressurreição de Jesus, proclamada pelos
primeiros cristãos, apresenta uma novidade decisiva: aquilo que se esperava
para o fim dos tempos teria acontecido antecipadamente com uma pessoa
determinada, no interior da história.
Pannenberg compreende essa
antecipação como decisiva para a interpretação da história universal. A
ressurreição de Jesus revela antecipadamente o destino último da humanidade,
pois manifesta uma vida que já não permanece submetida ao poder definitivo da morte.
O futuro escatológico deixa de ser considerado somente uma possibilidade
distante e passa a ser reconhecido, a partir da fé cristã, como uma realidade
antecipada em Cristo.
A linguagem paulina das
primícias, em 1 Coríntios 15.20-28, oferece uma importante referência bíblica
para essa compreensão. Paulo declara que Cristo ressuscitou dentre os mortos
como as primícias dos que dormem. A imagem das primícias não significa apenas
que Cristo foi o primeiro em uma sequência cronológica. Ela estabelece uma
relação representativa entre a ressurreição de Cristo e a futura ressurreição
daqueles que lhe pertencem. A ressurreição de Jesus é o início de uma realidade
que alcançará sua plenitude na consumação do propósito divino.
O argumento paulino apresenta,
assim, uma estrutura que pode ser relacionada à noção de prolepse. O
acontecimento singular da ressurreição de Cristo antecipa uma transformação que
não está restrita à sua pessoa, mas se relaciona ao destino escatológico da
humanidade. Paulo afirma que, assim como a morte veio por meio de um homem,
também a ressurreição dos mortos vem por meio de um homem. Cristo é apresentado
como o primeiro de uma ordem de acontecimentos cujo cumprimento ainda está por
vir.
A prolepse, portanto, não deve
ser confundida com a consumação total da história. A ressurreição de Jesus não
significa que a morte tenha desaparecido da experiência humana ou que todas as
promessas escatológicas já tenham alcançado sua realização universal. O mundo
continua marcado pela mortalidade, pela injustiça e pelo sofrimento. A
esperança cristã situa-se precisamente na tensão entre a antecipação já
acontecida em Cristo e a plenitude ainda aguardada.
Essa estrutura pode ser descrita
mediante a relação entre o já e o ainda não. O já corresponde à antecipação
escatológica manifestada na ressurreição de Jesus; o ainda não corresponde à
consumação universal daquilo que foi antecipado. Embora essa formulação seja
empregada amplamente na teologia cristã, sua relação com o pensamento de
Pannenberg deve ser estabelecida de maneira cuidadosa, considerando-se suas
próprias categorias conceituais e sua interpretação da história.
A prolepse permite, assim,
compreender a singularidade da ressurreição sem separá-la da história
universal. O acontecimento pascal possui relevância precisamente porque aponta
para além de si mesmo. Ele se refere à identidade de Jesus, à ação de Deus e ao
futuro da criação. A ressurreição é histórica, mas sua significação ultrapassa
o passado, uma vez que antecipa a realidade futura à luz da qual a totalidade
da história será compreendida.⁶
A ressurreição e a
identidade de Jesus Cristo
A relação entre ressurreição e
cristologia é um dos aspectos mais importantes da contribuição de Pannenberg à
teologia contemporânea. Para ele, a pergunta sobre quem é Jesus não pode ser
respondida adequadamente mediante a separação entre sua identidade e os
acontecimentos de sua história. A identidade de uma pessoa histórica
manifesta-se também no significado de sua trajetória e na maneira como essa
trajetória alcança seu desfecho.
No caso de Jesus, a ressurreição
assume um papel singular porque modifica a interpretação de sua vida e de sua
morte. Aquele que foi crucificado sob a acusação de pretensões incompatíveis
com as autoridades de seu tempo é reconhecido, à luz da ressurreição, como
aquele que foi vindicado por Deus. O acontecimento pascal confere à sua
história uma significação que não poderia ser estabelecida simplesmente a
partir da aparência de fracasso representada pela cruz.
A ressurreição, entretanto, não
deve ser compreendida como uma legitimação indiferente de todos os aspectos da
história humana. Sua significação é cristológica e escatológica: Deus vindica
Jesus e, por meio dele, manifesta antecipadamente o destino que corresponde ao
seu propósito para a humanidade. A identidade de Cristo torna-se inseparável da
promessa de renovação que sua ressurreição representa.
A prolepse também ajuda a
explicar a relação entre a história de Jesus e a compreensão cristã de sua
preexistência e divindade. A cristologia de Pannenberg parte metodologicamente
da história de Jesus e atribui à ressurreição uma função decisiva para a compreensão
de sua unidade com Deus. Isso não significa que toda a cristologia possa ser
reduzida ao acontecimento pascal, mas que a identidade de Jesus deve ser
investigada a partir da maneira como Deus se manifesta em sua história.⁷
A ressurreição torna-se, assim, o
ponto de partida para uma releitura da existência de Jesus. Sua proclamação do
Reino de Deus, sua relação com o Pai, sua autoridade e sua entrega à morte são
interpretadas à luz do acontecimento pelo qual Deus o ressuscitou. O
significado da cruz não desaparece, mas é transformado pela ressurreição:
aquilo que parecia representar a derrota de sua missão torna-se parte de uma
história cuja significação é estabelecida pela ação de Deus.
Essa perspectiva possui
consequências para a compreensão da fé cristã. A confissão de Jesus como Senhor
não se fundamenta somente na preservação de seus ensinamentos ou na permanência
de sua influência moral. Ela está vinculada à afirmação de que Deus agiu na
história, ressuscitando aquele que havia sido crucificado. A fé cristã, nessa
perspectiva, dirige-se ao Deus que se manifesta nos acontecimentos e cuja ação
abre um horizonte de esperança para além da morte.
A singularidade de Jesus também
está relacionada à dimensão universal de sua história. A ressurreição não diz
respeito apenas à confirmação individual de sua identidade, mas à manifestação
antecipada do futuro prometido por Deus. Jesus é compreendido como aquele em
quem o destino escatológico da humanidade se torna reconhecível. Sua
ressurreição possui, portanto, uma significação que ultrapassa sua história
individual sem jamais se separar dela.
A prolepse histórica e a
esperança escatológica
A compreensão da ressurreição
como prolepse histórica possui implicações diretas para a escatologia cristã.
Se o acontecimento pascal antecipa o fim da história, então a esperança cristã
não se fundamenta em uma projeção subjetiva de desejos humanos, mas na
afirmação de que Deus já manifestou antecipadamente, em Jesus, a realidade para
a qual conduz sua criação.
A esperança escatológica não
significa, nessa perspectiva, a fuga da história ou a desvalorização da
existência presente. Pelo contrário, a ressurreição atribui à história uma
significação que não pode ser reduzida à sucessão de acontecimentos contingentes.
O presente encontra-se orientado para um futuro que ainda não se realizou
plenamente, mas cuja antecipação em Cristo oferece uma perspectiva para
compreender a existência humana.
Essa orientação para o futuro
impede que a história seja considerada um processo encerrado em suas
contradições atuais. A morte, a injustiça e o sofrimento são realidades
concretas, mas não constituem, segundo a esperança cristã, o destino definitivo
da criação. A ressurreição proclama que o futuro de Deus pode superar as
condições que atualmente parecem estabelecer os limites intransponíveis da
existência humana.
Entretanto, a esperança
escatológica não deve ser transformada em otimismo histórico automático. A
prolepse não significa que o progresso político, científico ou social conduzirá
necessariamente à consumação do Reino de Deus. Tampouco permite identificar
qualquer projeto humano com a realização definitiva da vontade divina. A
consumação escatológica permanece vinculada à ação de Deus, e não à pretensão
humana de controlar o futuro.
A relevância ética dessa
compreensão reside na possibilidade de interpretar o presente à luz da
esperança. Se a ressurreição antecipa o futuro de Deus, a existência cristã é
chamada a testemunhar, de maneira limitada e provisória, os sinais de uma
realidade reconciliada. A promoção da justiça, a solidariedade com os que
sofrem e a defesa da dignidade humana podem ser compreendidas como expressões
históricas de uma esperança que não se confunde com sua própria realização
plena.
É necessário, contudo, distinguir
essa implicação ética da estrutura conceitual específica da prolepse em
Pannenberg. A ação social cristã não constitui, por si mesma, a consumação
escatológica nem substitui a esperança na ressurreição dos mortos. Seu significado
reside em responder, no presente, à promessa de renovação que a ressurreição de
Cristo antecipa.
A perspectiva pannenberguiana
também permite compreender a relação entre a esperança individual e a esperança
universal. A ressurreição de Jesus não representa apenas a promessa de
sobrevivência pessoal após a morte. Ela aponta para a transformação da
existência humana e para o destino da criação no horizonte da consumação
divina. A esperança cristã é pessoal, mas não individualista; é histórica, mas
não se limita aos resultados alcançados pela história humana; é escatológica,
mas não despreza o presente.
Em síntese, a prolepse histórica
confere à ressurreição uma função que articula cristologia, escatologia e
compreensão da realidade. O acontecimento pascal é interpretado como
antecipação do futuro prometido por Deus e, precisamente por isso, transforma a
maneira pela qual a história é compreendida. A esperança cristã nasce da
convicção de que o futuro definitivo não permanece inteiramente oculto, pois já
se manifestou antecipadamente na ressurreição de Jesus Cristo.
Considerações finais
A análise da ressurreição como
prolepse histórica em Wolfhart Pannenberg permite reconhecer a importância de
sua contribuição para a cristologia e para a compreensão teológica da história.
Ao articular a historicidade da ressurreição com a dimensão escatológica da
revelação, o teólogo alemão procura superar a separação entre o acontecimento
histórico e seu significado para a fé cristã.
A pesquisa evidenciou que a
concepção pannenberguiana da revelação como história oferece o horizonte no
qual a ressurreição deve ser compreendida. A revelação divina não se restringe
à comunicação de verdades isoladas, mas está relacionada aos acontecimentos
históricos e à sua interpretação à luz da consumação escatológica. A história
permanece aberta à compreensão plena de seu significado, que somente será
alcançada no horizonte de seu fim.
Nesse contexto, a ressurreição de
Jesus representa uma antecipação singular da realidade futura. O conceito de
prolepse expressa precisamente essa relação entre o acontecimento presente na
história e a consumação que ainda está por vir. Em Cristo, o destino
escatológico da humanidade torna-se antecipadamente manifesto, embora sua
realização universal permaneça objeto de esperança.
A análise também demonstrou que a
ressurreição exerce uma função decisiva na cristologia de Pannenberg. A
identidade de Jesus não é investigada independentemente de sua história, mas
compreendida à luz do acontecimento pascal, no qual Deus o vindica e manifesta
a significação de sua missão. A ressurreição permite reinterpretar a cruz e
reconhecer em Jesus aquele que antecipa o futuro prometido por Deus.
Por fim, a prolepse histórica
possui implicações para a compreensão da esperança cristã. A ressurreição não
autoriza a fuga das responsabilidades históricas nem a identificação de
projetos humanos com a consumação do Reino de Deus. Ela fundamenta, antes, uma
esperança que reconhece a realidade das contradições presentes sem
considerá-las definitivas. A vida cristã pode, assim, ser compreendida como
testemunho histórico de uma promessa cuja plenitude permanece futura.
Conclui-se que, no pensamento de
Pannenberg, a ressurreição de Jesus Cristo constitui o acontecimento central
para compreender a relação entre história, revelação e escatologia. Como
prolepse histórica, ela antecipa a consumação sem eliminá-la como futuro,
manifesta o destino humano sem encerrar a história e oferece à fé cristã uma
perspectiva universal sobre o sentido último da realidade. A força teológica
dessa proposta reside justamente na afirmação de que o futuro prometido por
Deus já se tornou antecipadamente visível na história de Jesus Cristo.
Notas de rodapé
¹ JOHNSON, Elizabeth A. The
ongoing Christology of Wolfhart Pannenberg. Horizons, v. 9, n. 2, p.
237-250, 1982. A autora destaca a centralidade da história de Jesus e da
ressurreição na construção da cristologia pannenberguiana.
² PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation
as History. Tradução de David Granskou. New York: Macmillan, 1968. A obra
reúne reflexões sobre a revelação divina e sua relação com a história
universal.
³ PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation
as History. New York: Macmillan, 1968. A concepção da revelação como
história deve ser compreendida a partir do conjunto das teses desenvolvidas na
obra.
⁴ KRAMER, E. J. David. The
difference Jesus makes: Yuval Noah Harari and Wolfhart Pannenberg on the shape
of universal history. International Journal of Systematic Theology, v.
26, n. 2, p. 216-236, 2024. O estudo examina a relação entre revelação,
história universal e antecipação escatológica na teologia de Pannenberg.
⁵ PANNENBERG, Wolfhart. Jesus:
God and Man. Tradução de Lewis L. Wilkins e Duane A. Priebe. 2. ed.
Philadelphia: Westminster Press, 1977. A obra apresenta a investigação
cristológica de Pannenberg e atribui à ressurreição papel decisivo na
compreensão da identidade de Jesus.
⁶ MICHALSON JR., G. E. Pannenberg
on the resurrection and historical method. Scottish Journal of Theology,
v. 33, n. 4, p. 345-359, 1980. O artigo examina a relação entre a historicidade
da ressurreição e o método histórico empregado por Pannenberg.
⁷ JOHNSON, Elizabeth A.
Resurrection and reality in the thought of Wolfhart Pannenberg. The Heythrop
Journal, v. 24, n. 1, p. 1-18, 1983. O estudo analisa a importância da
ressurreição para a compreensão pannenberguiana da realidade e da identidade de
Cristo.
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia
Sagrada. Almeida Revista e Corrigida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do
Brasil, edição consultada.
JOHNSON, Elizabeth A. The ongoing
Christology of Wolfhart Pannenberg. Horizons, v. 9, n. 2, p. 237-250,
1982.
JOHNSON, Elizabeth A.
Resurrection and reality in the thought of Wolfhart Pannenberg. The Heythrop
Journal, v. 24, n. 1, p. 1-18, 1983.
KRAMER, E. J. David. The
difference Jesus makes: Yuval Noah Harari and Wolfhart Pannenberg on the shape
of universal history. International Journal of Systematic Theology, v.
26, n. 2, p. 216-236, 2024.
MICHALSON JR., G. E. Pannenberg
on the resurrection and historical method. Scottish Journal of Theology,
v. 33, n. 4, p. 345-359, 1980.
PANNENBERG, Wolfhart. Jesus:
God and Man. Tradução de Lewis L. Wilkins e Duane A. Priebe. 2. ed.
Philadelphia: Westminster Press, 1977.
PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation
as History. Tradução de David Granskou. New York: Macmillan, 1968.

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