sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A RESSURREIÇÃO COMO “PROLEPSE” HISTÓRICA EM WOLFHART PANNENBERG

 



Josué de Asevedo Soares

Resumo

O presente artigo analisa a compreensão da ressurreição de Jesus Cristo como prolepse histórica no pensamento teológico de Wolfhart Pannenberg (1928–2014). O objetivo é investigar como o teólogo alemão articula a historicidade da ressurreição, a revelação de Deus e a dimensão escatológica da história. Parte-se da hipótese de que a ressurreição constitui, na perspectiva pannenberguiana, uma antecipação histórica da consumação escatológica, na qual se manifesta antecipadamente o destino último da humanidade e da criação. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem bibliográfica, analítico-hermenêutica e sistemático-teológica, concentrando-se especialmente na cristologia de Pannenberg e em seu conceito de revelação como história. O estudo examina a relação entre o acontecimento pascal e a identidade de Jesus, a significação da prolepse para a compreensão do tempo histórico e as implicações escatológicas da ressurreição. Conclui-se que a proposta de Pannenberg procura superar a separação entre história e fé, compreendendo a ressurreição como acontecimento de relevância universal, cuja significação plena aponta para o futuro escatológico de Deus.

Palavras-chave: Wolfhart Pannenberg; ressurreição de Jesus; prolepse; história; revelação; escatologia.

 Introdução

A ressurreição de Jesus Cristo ocupa uma posição central na fé cristã e representa um dos temas fundamentais da reflexão teológica contemporânea. A afirmação de que Jesus, crucificado sob o poder romano, ressuscitou dentre os mortos não constitui apenas uma declaração acerca de seu destino individual, mas uma afirmação que envolve a compreensão de Deus, da história, da esperança e do destino último da humanidade. A ressurreição é proclamada no Novo Testamento como o acontecimento decisivo por meio do qual a morte não possui a palavra definitiva sobre a existência humana. Em 1 Coríntios 15.14, o apóstolo Paulo relaciona diretamente a veracidade da pregação cristã à realidade da ressurreição de Cristo.

No pensamento do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, essa afirmação adquire uma configuração teológica particularmente significativa. Diferentemente das abordagens que tendem a restringir a ressurreição à experiência subjetiva da fé ou à interpretação existencial da mensagem cristã, Pannenberg procura sustentar que a fé na ressurreição apresenta uma reivindicação acerca da realidade histórica. Para ele, a cristologia não pode ser desenvolvida adequadamente sem considerar os acontecimentos relacionados à vida, à morte e à ressurreição de Jesus. A identidade de Cristo deve ser investigada a partir de sua história concreta, sobretudo do acontecimento pascal, no qual se manifesta antecipadamente o significado escatológico de sua pessoa.¹

Essa perspectiva está relacionada à concepção pannenberguiana da revelação como história. A revelação divina não é compreendida simplesmente como a comunicação de verdades religiosas isoladas do curso dos acontecimentos, mas como uma realidade que se manifesta por meio da história e cuja inteligibilidade plena depende da consumação escatológica. A história, portanto, não é apenas o cenário no qual a revelação acontece; ela constitui o horizonte no qual a identidade de Deus e o sentido último da existência humana se tornam progressivamente reconhecíveis.²

É nesse contexto que se insere o conceito de prolepse. Em sentido geral, o termo designa uma antecipação de algo que ainda deverá alcançar sua realização plena. Em Pannenberg, a prolepse possui uma significação teológica mais específica: refere-se à antecipação histórica de uma realidade futura, especialmente da consumação escatológica, no interior dos acontecimentos presentes. A ressurreição de Jesus constitui, nessa perspectiva, uma antecipação do fim da história, pois nela se manifesta, de maneira singular, a vida que Deus destina à humanidade na consumação de seu propósito criador.

A questão que orienta este artigo pode ser formulada da seguinte maneira: em que sentido a ressurreição de Jesus Cristo pode ser compreendida como prolepse histórica no pensamento de Wolfhart Pannenberg, e quais são as implicações dessa interpretação para a cristologia, a revelação e a escatologia cristã?

A hipótese defendida é que, para Pannenberg, a ressurreição de Jesus representa a antecipação histórica da consumação escatológica, de modo que o futuro prometido por Deus se torna parcialmente reconhecível em um acontecimento situado no interior da história. Essa antecipação não significa que a história tenha chegado definitivamente ao seu término, mas que, na ressurreição de Cristo, o destino último da humanidade se manifesta antecipadamente, oferecendo uma chave teológica para a compreensão do passado, do presente e do futuro.

O objetivo geral consiste em analisar a ressurreição como prolepse histórica na teologia de Pannenberg, destacando sua relação com a historicidade de Jesus, a revelação de Deus e a esperança escatológica. Especificamente, pretende-se examinar a concepção pannenberguiana da revelação como história, investigar o papel da ressurreição na fundamentação de sua cristologia e compreender as consequências da prolepse para a interpretação teológica da história universal.

Metodologicamente, a pesquisa é bibliográfica e analítico-hermenêutica, fundamentada prioritariamente em Jesus: God and Man e em Revelation as History, além de estudos acadêmicos dedicados à cristologia e à filosofia da história de Pannenberg. A abordagem é sistemático-teológica, com atenção às passagens bíblicas pertinentes e ao diálogo crítico com a literatura especializada.

A revelação de Deus na história segundo Wolfhart Pannenberg

A compreensão da ressurreição como prolepse histórica exige, inicialmente, a consideração da relação estabelecida por Pannenberg entre revelação divina e história universal. Sua proposta teológica desenvolve-se em diálogo crítico com determinadas tendências da teologia protestante moderna, especialmente aquelas que, em sua avaliação, dificultavam o reconhecimento da dimensão pública e histórica da revelação.

Para Pannenberg, a revelação de Deus não deve ser confinada à interioridade religiosa do indivíduo nem considerada independente dos acontecimentos que constituem a história humana. A fé cristã apresenta afirmações acerca da realidade e, por isso, suas proposições fundamentais não podem ser isoladas de toda investigação racional e histórica. A revelação possui uma dimensão universal, uma vez que o Deus anunciado pela tradição bíblica não é apenas uma divindade particular, mas o Deus que reivindica ser reconhecido como Senhor de toda a realidade.

Em Revelation as History, obra coletiva publicada originalmente em alemão em 1961, Pannenberg e outros teólogos desenvolveram uma concepção de revelação vinculada à manifestação indireta de Deus nos acontecimentos históricos. Nessa perspectiva, a revelação não se limita a um conjunto de comunicações sobrenaturais desconectadas da história, mas se torna reconhecível por meio de acontecimentos cujo significado se esclarece progressivamente.³

A importância dessa proposta está em afirmar que os acontecimentos históricos não são teologicamente transparentes por si mesmos. Sua interpretação exige considerar as relações entre os acontecimentos, as promessas que os precedem e o horizonte futuro para o qual apontam. A identidade de um acontecimento pode permanecer parcialmente aberta enquanto a história continua em desenvolvimento. Somente diante da consumação será possível compreender plenamente a totalidade do processo histórico e reconhecer seu significado definitivo.

Essa compreensão aproxima a teologia de Pannenberg de uma interpretação escatológica da história. O futuro não representa simplesmente uma etapa cronológica posterior ao presente, mas o horizonte a partir do qual a totalidade da história poderá alcançar sua inteligibilidade definitiva. Assim como o desfecho de uma narrativa permite compreender retrospectivamente o significado de seus acontecimentos anteriores, a consumação escatológica possibilitará a compreensão plena da história universal.

Isso não significa, entretanto, que a história seja um processo automaticamente transparente ou que todos os seus acontecimentos possam ser interpretados de maneira inequívoca no presente. A proposta pannenberguiana exige reconhecer a abertura histórica do conhecimento e a necessidade de uma compreensão abrangente que ultrapasse perspectivas particulares.

É nesse ponto que a ressurreição de Jesus adquire sua importância decisiva. Se a revelação plena de Deus está relacionada à consumação da história, como é possível afirmar que Deus já se revelou de maneira singular em Jesus Cristo? A resposta de Pannenberg está associada à ideia de que o fim escatológico se tornou antecipadamente presente na ressurreição de Jesus. O acontecimento pascal oferece, portanto, uma antecipação daquilo que somente no fim da história será manifestado em sua plenitude.⁴

A ressurreição não elimina a expectativa do futuro nem transforma o presente em consumação definitiva. Ao contrário, estabelece uma relação entre o acontecimento passado, a realidade presente e o futuro prometido por Deus. A revelação acontece na história, mas sua plena inteligibilidade permanece orientada para o futuro escatológico.

A ressurreição de Jesus como acontecimento histórico

A centralidade da ressurreição na teologia de Pannenberg está diretamente relacionada à sua compreensão da cristologia. Em vez de começar exclusivamente por uma definição abstrata da natureza divina de Cristo, o teólogo procura investigar a identidade de Jesus a partir de sua história concreta. A questão cristológica deve considerar o que aconteceu com Jesus, como sua missão foi compreendida e de que maneira a ressurreição modifica a avaliação de sua vida e de sua morte.

Essa orientação metodológica aparece de maneira significativa em Jesus: God and Man. Nessa obra, Pannenberg atribui à ressurreição uma função determinante para a compreensão da identidade de Jesus. O acontecimento pascal não constitui apenas uma confirmação posterior de uma identidade divina previamente estabelecida de maneira independente da história. Ele participa decisivamente da fundamentação da afirmação cristológica de que Jesus é o Filho de Deus.⁵

A crucificação parecia representar a derrota definitiva da missão de Jesus. A morte na cruz, especialmente quando compreendida à luz das expectativas messiânicas de seu contexto, levantava a questão de como aquele que anunciava o Reino de Deus poderia ser reconhecido como o Messias. A ressurreição modifica radicalmente essa situação, pois constitui, na interpretação cristã, a ação pela qual Deus vindica Jesus e confirma a significação de sua missão.

O testemunho de Atos 2.22-36 apresenta uma articulação entre a morte, a ressurreição e a exaltação de Jesus. Pedro anuncia que Jesus foi crucificado, mas que Deus o ressuscitou, não permitindo que permanecesse sob o domínio da morte. A proclamação culmina na afirmação de que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele que havia sido crucificado. O texto evidencia que a identidade messiânica de Jesus é anunciada à luz do acontecimento pascal.

Em Romanos 1.3-4, Paulo também estabelece uma relação entre Jesus, sua descendência davídica e sua manifestação como Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos. A passagem deve ser interpretada considerando-se a complexidade da cristologia paulina, mas demonstra a relevância da ressurreição para a proclamação da identidade de Jesus.

A contribuição de Pannenberg consiste em conferir a essa relação uma significação histórico-teológica abrangente. A ressurreição não é interpretada apenas como um sinal destinado a fortalecer a fé dos discípulos, mas como um acontecimento que exige uma reconsideração da identidade de Jesus e do significado de sua história. Aquele que foi crucificado é reconhecido como o Messias porque Deus o ressuscitou, antecipando nele o destino escatológico que ainda aguarda a humanidade.

É necessário, contudo, distinguir a afirmação teológica da ressurreição de uma demonstração histórica nos moldes das ciências naturais. Pannenberg procura argumentar em favor da historicidade do acontecimento mediante a investigação dos testemunhos e das circunstâncias históricas, mas a ressurreição permanece uma afirmação singular, que envolve questões filosóficas e teológicas acerca da ação de Deus. A investigação histórica pode avaliar testemunhos, fontes e explicações concorrentes; a interpretação teológica procura compreender o significado do acontecimento no horizonte da revelação divina.

A relevância dessa distinção é dupla. Por um lado, evita reduzir a ressurreição a uma experiência meramente subjetiva, sem qualquer referência à realidade. Por outro, impede que o significado escatológico da ressurreição seja tratado como se pudesse ser esgotado por uma descrição histórica desprovida de pressupostos interpretativos. A proposta de Pannenberg pretende manter articuladas a investigação histórica e a interpretação teológica.

 O conceito de prolepse e a antecipação do fim da história

O conceito de prolepse constitui uma das categorias fundamentais para compreender a relação entre ressurreição e escatologia na obra de Pannenberg. Em seu sentido mais amplo, prolepse significa antecipação. No âmbito de sua teologia, porém, o termo não designa apenas uma previsão intelectual do futuro, mas uma antecipação efetiva, no interior da história, de uma realidade cuja consumação ainda está por vir.

A prolepse deve ser distinguida de uma simples previsão profética. Prever um acontecimento significa anunciar antecipadamente algo que deverá ocorrer. A prolepse, na perspectiva aqui examinada, envolve uma relação mais profunda entre o presente e o futuro: uma realidade futura torna-se antecipadamente manifesta em um acontecimento histórico, sem que sua realização universal tenha sido concluída.

É nesse sentido que a ressurreição de Jesus pode ser interpretada como prolepse do fim escatológico. A esperança judaica da ressurreição dos mortos estava vinculada à expectativa de uma ação definitiva de Deus, mediante a qual a morte seria vencida e a justiça divina plenamente manifestada. A ressurreição de Jesus, proclamada pelos primeiros cristãos, apresenta uma novidade decisiva: aquilo que se esperava para o fim dos tempos teria acontecido antecipadamente com uma pessoa determinada, no interior da história.

Pannenberg compreende essa antecipação como decisiva para a interpretação da história universal. A ressurreição de Jesus revela antecipadamente o destino último da humanidade, pois manifesta uma vida que já não permanece submetida ao poder definitivo da morte. O futuro escatológico deixa de ser considerado somente uma possibilidade distante e passa a ser reconhecido, a partir da fé cristã, como uma realidade antecipada em Cristo.

A linguagem paulina das primícias, em 1 Coríntios 15.20-28, oferece uma importante referência bíblica para essa compreensão. Paulo declara que Cristo ressuscitou dentre os mortos como as primícias dos que dormem. A imagem das primícias não significa apenas que Cristo foi o primeiro em uma sequência cronológica. Ela estabelece uma relação representativa entre a ressurreição de Cristo e a futura ressurreição daqueles que lhe pertencem. A ressurreição de Jesus é o início de uma realidade que alcançará sua plenitude na consumação do propósito divino.

O argumento paulino apresenta, assim, uma estrutura que pode ser relacionada à noção de prolepse. O acontecimento singular da ressurreição de Cristo antecipa uma transformação que não está restrita à sua pessoa, mas se relaciona ao destino escatológico da humanidade. Paulo afirma que, assim como a morte veio por meio de um homem, também a ressurreição dos mortos vem por meio de um homem. Cristo é apresentado como o primeiro de uma ordem de acontecimentos cujo cumprimento ainda está por vir.

A prolepse, portanto, não deve ser confundida com a consumação total da história. A ressurreição de Jesus não significa que a morte tenha desaparecido da experiência humana ou que todas as promessas escatológicas já tenham alcançado sua realização universal. O mundo continua marcado pela mortalidade, pela injustiça e pelo sofrimento. A esperança cristã situa-se precisamente na tensão entre a antecipação já acontecida em Cristo e a plenitude ainda aguardada.

Essa estrutura pode ser descrita mediante a relação entre o já e o ainda não. O já corresponde à antecipação escatológica manifestada na ressurreição de Jesus; o ainda não corresponde à consumação universal daquilo que foi antecipado. Embora essa formulação seja empregada amplamente na teologia cristã, sua relação com o pensamento de Pannenberg deve ser estabelecida de maneira cuidadosa, considerando-se suas próprias categorias conceituais e sua interpretação da história.

A prolepse permite, assim, compreender a singularidade da ressurreição sem separá-la da história universal. O acontecimento pascal possui relevância precisamente porque aponta para além de si mesmo. Ele se refere à identidade de Jesus, à ação de Deus e ao futuro da criação. A ressurreição é histórica, mas sua significação ultrapassa o passado, uma vez que antecipa a realidade futura à luz da qual a totalidade da história será compreendida.⁶

A ressurreição e a identidade de Jesus Cristo

A relação entre ressurreição e cristologia é um dos aspectos mais importantes da contribuição de Pannenberg à teologia contemporânea. Para ele, a pergunta sobre quem é Jesus não pode ser respondida adequadamente mediante a separação entre sua identidade e os acontecimentos de sua história. A identidade de uma pessoa histórica manifesta-se também no significado de sua trajetória e na maneira como essa trajetória alcança seu desfecho.

No caso de Jesus, a ressurreição assume um papel singular porque modifica a interpretação de sua vida e de sua morte. Aquele que foi crucificado sob a acusação de pretensões incompatíveis com as autoridades de seu tempo é reconhecido, à luz da ressurreição, como aquele que foi vindicado por Deus. O acontecimento pascal confere à sua história uma significação que não poderia ser estabelecida simplesmente a partir da aparência de fracasso representada pela cruz.

A ressurreição, entretanto, não deve ser compreendida como uma legitimação indiferente de todos os aspectos da história humana. Sua significação é cristológica e escatológica: Deus vindica Jesus e, por meio dele, manifesta antecipadamente o destino que corresponde ao seu propósito para a humanidade. A identidade de Cristo torna-se inseparável da promessa de renovação que sua ressurreição representa.

A prolepse também ajuda a explicar a relação entre a história de Jesus e a compreensão cristã de sua preexistência e divindade. A cristologia de Pannenberg parte metodologicamente da história de Jesus e atribui à ressurreição uma função decisiva para a compreensão de sua unidade com Deus. Isso não significa que toda a cristologia possa ser reduzida ao acontecimento pascal, mas que a identidade de Jesus deve ser investigada a partir da maneira como Deus se manifesta em sua história.⁷

A ressurreição torna-se, assim, o ponto de partida para uma releitura da existência de Jesus. Sua proclamação do Reino de Deus, sua relação com o Pai, sua autoridade e sua entrega à morte são interpretadas à luz do acontecimento pelo qual Deus o ressuscitou. O significado da cruz não desaparece, mas é transformado pela ressurreição: aquilo que parecia representar a derrota de sua missão torna-se parte de uma história cuja significação é estabelecida pela ação de Deus.

Essa perspectiva possui consequências para a compreensão da fé cristã. A confissão de Jesus como Senhor não se fundamenta somente na preservação de seus ensinamentos ou na permanência de sua influência moral. Ela está vinculada à afirmação de que Deus agiu na história, ressuscitando aquele que havia sido crucificado. A fé cristã, nessa perspectiva, dirige-se ao Deus que se manifesta nos acontecimentos e cuja ação abre um horizonte de esperança para além da morte.

A singularidade de Jesus também está relacionada à dimensão universal de sua história. A ressurreição não diz respeito apenas à confirmação individual de sua identidade, mas à manifestação antecipada do futuro prometido por Deus. Jesus é compreendido como aquele em quem o destino escatológico da humanidade se torna reconhecível. Sua ressurreição possui, portanto, uma significação que ultrapassa sua história individual sem jamais se separar dela.

A prolepse histórica e a esperança escatológica

A compreensão da ressurreição como prolepse histórica possui implicações diretas para a escatologia cristã. Se o acontecimento pascal antecipa o fim da história, então a esperança cristã não se fundamenta em uma projeção subjetiva de desejos humanos, mas na afirmação de que Deus já manifestou antecipadamente, em Jesus, a realidade para a qual conduz sua criação.

A esperança escatológica não significa, nessa perspectiva, a fuga da história ou a desvalorização da existência presente. Pelo contrário, a ressurreição atribui à história uma significação que não pode ser reduzida à sucessão de acontecimentos contingentes. O presente encontra-se orientado para um futuro que ainda não se realizou plenamente, mas cuja antecipação em Cristo oferece uma perspectiva para compreender a existência humana.

Essa orientação para o futuro impede que a história seja considerada um processo encerrado em suas contradições atuais. A morte, a injustiça e o sofrimento são realidades concretas, mas não constituem, segundo a esperança cristã, o destino definitivo da criação. A ressurreição proclama que o futuro de Deus pode superar as condições que atualmente parecem estabelecer os limites intransponíveis da existência humana.

Entretanto, a esperança escatológica não deve ser transformada em otimismo histórico automático. A prolepse não significa que o progresso político, científico ou social conduzirá necessariamente à consumação do Reino de Deus. Tampouco permite identificar qualquer projeto humano com a realização definitiva da vontade divina. A consumação escatológica permanece vinculada à ação de Deus, e não à pretensão humana de controlar o futuro.

A relevância ética dessa compreensão reside na possibilidade de interpretar o presente à luz da esperança. Se a ressurreição antecipa o futuro de Deus, a existência cristã é chamada a testemunhar, de maneira limitada e provisória, os sinais de uma realidade reconciliada. A promoção da justiça, a solidariedade com os que sofrem e a defesa da dignidade humana podem ser compreendidas como expressões históricas de uma esperança que não se confunde com sua própria realização plena.

É necessário, contudo, distinguir essa implicação ética da estrutura conceitual específica da prolepse em Pannenberg. A ação social cristã não constitui, por si mesma, a consumação escatológica nem substitui a esperança na ressurreição dos mortos. Seu significado reside em responder, no presente, à promessa de renovação que a ressurreição de Cristo antecipa.

A perspectiva pannenberguiana também permite compreender a relação entre a esperança individual e a esperança universal. A ressurreição de Jesus não representa apenas a promessa de sobrevivência pessoal após a morte. Ela aponta para a transformação da existência humana e para o destino da criação no horizonte da consumação divina. A esperança cristã é pessoal, mas não individualista; é histórica, mas não se limita aos resultados alcançados pela história humana; é escatológica, mas não despreza o presente.

Em síntese, a prolepse histórica confere à ressurreição uma função que articula cristologia, escatologia e compreensão da realidade. O acontecimento pascal é interpretado como antecipação do futuro prometido por Deus e, precisamente por isso, transforma a maneira pela qual a história é compreendida. A esperança cristã nasce da convicção de que o futuro definitivo não permanece inteiramente oculto, pois já se manifestou antecipadamente na ressurreição de Jesus Cristo.

Considerações finais

A análise da ressurreição como prolepse histórica em Wolfhart Pannenberg permite reconhecer a importância de sua contribuição para a cristologia e para a compreensão teológica da história. Ao articular a historicidade da ressurreição com a dimensão escatológica da revelação, o teólogo alemão procura superar a separação entre o acontecimento histórico e seu significado para a fé cristã.

A pesquisa evidenciou que a concepção pannenberguiana da revelação como história oferece o horizonte no qual a ressurreição deve ser compreendida. A revelação divina não se restringe à comunicação de verdades isoladas, mas está relacionada aos acontecimentos históricos e à sua interpretação à luz da consumação escatológica. A história permanece aberta à compreensão plena de seu significado, que somente será alcançada no horizonte de seu fim.

Nesse contexto, a ressurreição de Jesus representa uma antecipação singular da realidade futura. O conceito de prolepse expressa precisamente essa relação entre o acontecimento presente na história e a consumação que ainda está por vir. Em Cristo, o destino escatológico da humanidade torna-se antecipadamente manifesto, embora sua realização universal permaneça objeto de esperança.

A análise também demonstrou que a ressurreição exerce uma função decisiva na cristologia de Pannenberg. A identidade de Jesus não é investigada independentemente de sua história, mas compreendida à luz do acontecimento pascal, no qual Deus o vindica e manifesta a significação de sua missão. A ressurreição permite reinterpretar a cruz e reconhecer em Jesus aquele que antecipa o futuro prometido por Deus.

Por fim, a prolepse histórica possui implicações para a compreensão da esperança cristã. A ressurreição não autoriza a fuga das responsabilidades históricas nem a identificação de projetos humanos com a consumação do Reino de Deus. Ela fundamenta, antes, uma esperança que reconhece a realidade das contradições presentes sem considerá-las definitivas. A vida cristã pode, assim, ser compreendida como testemunho histórico de uma promessa cuja plenitude permanece futura.

Conclui-se que, no pensamento de Pannenberg, a ressurreição de Jesus Cristo constitui o acontecimento central para compreender a relação entre história, revelação e escatologia. Como prolepse histórica, ela antecipa a consumação sem eliminá-la como futuro, manifesta o destino humano sem encerrar a história e oferece à fé cristã uma perspectiva universal sobre o sentido último da realidade. A força teológica dessa proposta reside justamente na afirmação de que o futuro prometido por Deus já se tornou antecipadamente visível na história de Jesus Cristo.

Notas de rodapé

¹ JOHNSON, Elizabeth A. The ongoing Christology of Wolfhart Pannenberg. Horizons, v. 9, n. 2, p. 237-250, 1982. A autora destaca a centralidade da história de Jesus e da ressurreição na construção da cristologia pannenberguiana.

² PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation as History. Tradução de David Granskou. New York: Macmillan, 1968. A obra reúne reflexões sobre a revelação divina e sua relação com a história universal.

³ PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation as History. New York: Macmillan, 1968. A concepção da revelação como história deve ser compreendida a partir do conjunto das teses desenvolvidas na obra.

⁴ KRAMER, E. J. David. The difference Jesus makes: Yuval Noah Harari and Wolfhart Pannenberg on the shape of universal history. International Journal of Systematic Theology, v. 26, n. 2, p. 216-236, 2024. O estudo examina a relação entre revelação, história universal e antecipação escatológica na teologia de Pannenberg.

⁵ PANNENBERG, Wolfhart. Jesus: God and Man. Tradução de Lewis L. Wilkins e Duane A. Priebe. 2. ed. Philadelphia: Westminster Press, 1977. A obra apresenta a investigação cristológica de Pannenberg e atribui à ressurreição papel decisivo na compreensão da identidade de Jesus.

⁶ MICHALSON JR., G. E. Pannenberg on the resurrection and historical method. Scottish Journal of Theology, v. 33, n. 4, p. 345-359, 1980. O artigo examina a relação entre a historicidade da ressurreição e o método histórico empregado por Pannenberg.

⁷ JOHNSON, Elizabeth A. Resurrection and reality in the thought of Wolfhart Pannenberg. The Heythrop Journal, v. 24, n. 1, p. 1-18, 1983. O estudo analisa a importância da ressurreição para a compreensão pannenberguiana da realidade e da identidade de Cristo.

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Corrigida. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, edição consultada.

JOHNSON, Elizabeth A. The ongoing Christology of Wolfhart Pannenberg. Horizons, v. 9, n. 2, p. 237-250, 1982. 

JOHNSON, Elizabeth A. Resurrection and reality in the thought of Wolfhart Pannenberg. The Heythrop Journal, v. 24, n. 1, p. 1-18, 1983. 

KRAMER, E. J. David. The difference Jesus makes: Yuval Noah Harari and Wolfhart Pannenberg on the shape of universal history. International Journal of Systematic Theology, v. 26, n. 2, p. 216-236, 2024. 

MICHALSON JR., G. E. Pannenberg on the resurrection and historical method. Scottish Journal of Theology, v. 33, n. 4, p. 345-359, 1980. 

PANNENBERG, Wolfhart. Jesus: God and Man. Tradução de Lewis L. Wilkins e Duane A. Priebe. 2. ed. Philadelphia: Westminster Press, 1977.

PANNENBERG, Wolfhart et al. Revelation as History. Tradução de David Granskou. New York: Macmillan, 1968.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário