"Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;" Habacuque 3.17
Por Josué de Asevedo Soares
Introdução
Expectativas frustradas, fé que nasce na
ausência de sinais, assim é o cenário onde a Fé é forjada. A vida
espiritual não é feita apenas de celebrações, conquistas ou dias ensolarados.
Há capítulos inteiros da jornada cristã escritos com tinta de silêncio,
decepção, espera prolongada e aparente ausência de sinais. O profeta Habacuque
nos introduz nesse território quando afirma que a figueira, símbolo de
prosperidade, segurança e estabilidade, simplesmente não floresce.
Essa declaração não é poética, mas existencial.
Ele descreve um contexto no qual tudo falha ao mesmo tempo: a figueira não brota, a videira não
produz uvas, a oliveira não derrete azeite, o campo não entrega colheita, o
aprisco não guarda ovelhas, os currais permanecem vazios. Aqui, vemos um
retrato de completa frustração de expectativas. E é justamente aqui que o
profeta descobre algo surpreendente: a fé verdadeira não nasce quando tudo vai bem, ela
começa quando tudo falta. Contudo, a ausência de flores na
figueira não é sinônimo de ausência de Deus. É, na verdade, o ambiente onde o
Senhor convida o coração a amadurecer.
A Realidade das Expectativas
Frustradas
A frustração é uma das experiências mais
universais da alma humana. Todos carregamos sonhos que não se realizaram no
tempo esperado, pedidos que não foram atendidos da maneira desejada, projetos
que não vingaram, portas que não se abriram. As Escrituras jamais negam essa
realidade; ao contrário, ela é assumida com honestidade em inúmeras narrativas
vemos: Abraão esperou tanto tempo pelo filho prometido que quase considerou
impossível aquilo que Deus lhe dissera. José sonhou com grandeza, mas antes
precisou experimentar rejeição, injustiça e prisão. Ana desejava ardentemente
um filho, mas enfrentou anos de silêncio. Expectativas frustradas não são
evidência de abandono divino; são oportunidades de redescobrir a identidade de
Deus para além das circunstâncias. A fé infantil espera que tudo aconteça como
imaginamos. A fé madura aprende a caminhar com Deus mesmo quando aquilo que
imaginamos não toma forma.
O Espaço Entre a Semente e o Fruto
Há um intervalo entre plantio e colheita. Nesse
intervalo, muitas vezes observamos apenas silêncio, terra seca e ausência de sinais. Porém, é justamente ali que Deus
trabalha nas camadas profundas da alma.
C. S. Lewis escreveu que Deus grita em nossas
dores, não para ferir, mas para nos despertar. Já Eugen Peterson observou
que a vida espiritual é construída em “longa obediência na mesma direção”.
Isso significa que há momentos em que a figueira permanece estéril não
porque Deus nos esqueceu, mas porque Ele está gerando algo maior dentro de nós,
algo que ainda não vemos.
A espera não é perda de tempo; é formação. A demora não é sinal de
desinteresse; é ferramenta pedagógica do Céu.
Quando a Resposta Não Vem
Talvez uma das dores mais difíceis para o coração
cristão seja orar
e não ver mudança, clamar
e não enxergar resposta, pedir e não receber o que esperamos. O salmista
repetidamente chorou: “Até quando, Senhor?” Essa pergunta não revela
incredulidade, mas intimidade. Apenas quem confia se sente seguro para
perguntar.
Habacuque também fez essa pergunta. Ele olhou ao
redor, viu violência, injustiça e caos, e declarou diante de Deus: “Não
ouvirás?” Essa sinceridade é parte essencial da fé que se desenvolve
quando a figueira não floresce. Deus não reprova perguntas que nascem da dor;
Ele acolhe e transforma.
No entanto, é preciso compreender algo
fundamental: a
ausência de resposta não é ausência de atuação. Deus trabalha na sombra. Deus age
quando não percebemos. Deus costura capítulos inteiros enquanto não vemos uma
única flor nascer.
Sonhos Adiados Não São Sonhos
Negados
Há sonhos que demoram porque precisam amadurecer.
Há palavras que Deus libera, mas que só se manifestam quando o coração está
preparado para recebê-las. Há portas que ainda não se abriram porque o caminho
interno ainda está sendo alinhado.
Martyn Lloyd-Jones disse que a pior coisa que
Deus poderia fazer é nos dar o que queremos antes de estarmos prontos.
O Pai eterno conhece ritmos, tempos e processos. Ele
sabe quando uma promessa ainda é cedo demais, quando um sonho ainda é imaturo,
quando um pedido ainda não pode ser atendido. Assim, compreendemos que a espera,
portanto, não é castigo, mas cuidado. Não é rejeição, mas proteção. Não é
esquecimento, mas sabedoria divina.
A Revelação da Fé que Nasce na
Escassez
Habacuque faz uma das declarações mais impressionantes de toda a Escritura: “Todavia, eu me alegrarei no Senhor.” Esse “todavia” é uma ponte entre a realidade dolorosa e a esperança indestrutível. É a palavra que separa a fé superficial da fé madura. É o verbo que traduz espiritualidade sólida: Deus é digno, mesmo quando nada floresce. Portanto, a fé que depende de resultados ainda é frágil. A fé que depende de sinais ainda é imatura. Mas a fé que se apoia exclusivamente em Deus permanece mesmo quando tudo mais falha.
É aqui que nasce a verdadeira adoração. Não a
adoração que brota da abundância, mas a que floresce na falta. Não a adoração
que celebra resultados, mas a que reconhece a presença divina no meio da
escassez.
A Maturidade da Alma Apressada
Vivemos numa geração que idolatra velocidade,
imediatismo, eficiência e resultados.
Por isso é tão difícil compreender o ritmo de Deus, que frequentemente opera em
silêncio, estabilidade, profundidade e tempo.
Habacuque não recebe mudança imediata. O cenário
não se altera. Nada floresce.
Mas o profeta se transforma. O milagre mais profundo não é externo; é interno.
Não acontece no campo, mas no coração. Não acontece na figueira, mas na fé.
A maturidade espiritual nasce quando deixamos de condicionar a alegria aos resultados
e passamos a descansar no caráter imutável de Deus.
A Figueira Como Metáfora dos Ciclos
da Vida
A figueira representa aquilo que esperamos ver,
isto é, projetos que deveriam frutificar, orações que deveriam ser respondidas,
sonhos que deveriam realizar-se, sinais que deveriam aparecer. Mas, quando nada
disso acontece, somos confrontados com uma verdade maior: O Evangelho não é
manual de resultados, mas um convite a confiar no Deus que continua governando
mesmo quando não entendemos Seus santos caminhos. Assim, desenvolvemos quando
aceitamos que flores são temporárias, mas Deus é eterno.
A fé amadurece quando entende que a vida passa por ciclos, mas o Senhor
permanece fiel.
Um Caminho de Restauração Interior
Quando a figueira não floresce, Deus convida o
coração a uma jornada de restauração profunda, ou seja, Deus cura expectativas
irreais. Ele fortalece convicções enfraquecidas. Ele aprofunda a dependência. Ele
restaura a identidade. Ele ressignifica o sofrimento.
A frustração não destrói a fé; ela purifica. Ela
remove ilusões, esvazia orgulhos e desfaz autoenganos. Ela nos aproxima daquele
tipo de espiritualidade que atravessa tempestades sem perder o canto.
Onde Tudo Termina: A Confiança que
Não Precisa de Respostas
A frase "a confiança que não precisa de respostas" sugere um nível
profundo de fé ou crença que não exige explicações, justificativas ou provas
constantes para se sustentar. É uma confiança inabalável em Deus, que aceita a
incerteza e o desconhecido.
A fé que
nasce quando a figueira floresce é natural. A fé que nasce quando a figueira
não floresce é sobrenatural. É essa fé que Deus busca. É essa fé que sustenta. É
essa fé que molda profetas, pastores, servos e adoradores.
O profeta Habacuque emerge do primeiro capítulo
como alguém transformado.
Ele entra perguntando “por quê?” e Ele sai declarando “Todavia”. Ele começa
confundido. Mas, termina firme. Vemos que antes de qualquer mudança externa. Deus
mudou o profeta antes de mudar o cenário.

Devemos permanecer fiel.
ResponderExcluirDeus é bom.
ResponderExcluirTudo é possível ao que crer.
ResponderExcluirMelhor é esperar em Deus.
ResponderExcluirEsperar não é nada fácil. Deus é fiel.
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