sábado, 3 de janeiro de 2026

No Limiar de um Novo Ano: Entre a Consciência e a Esperança

 

Por Josué de Asevedo Soares.

O início de um novo ano sempre chega carregado de símbolos. Ele não muda o mundo por si só, mas muda o nosso olhar sobre o tempo. É como se, ao atravessar essa fronteira invisível, fôssemos convidados a reorganizar a alma, rever escolhas, pesar perdas e, inevitavelmente, sonhar outra vez. O calendário vira a página, mas a vida segue com suas continuidades, cicatrizes e possibilidades.

É preciso dizer, com honestidade: o mundo não acorda melhor no dia primeiro de janeiro. As guerras não cessam automaticamente, as desigualdades não desaparecem, os conflitos pessoais não se resolvem por decreto do tempo. Hannah Arendt já advertia que o mal muitas vezes se banaliza quando deixamos de pensar criticamente. Um novo ano, portanto, não é um anestésico moral. Ele é, quando muito, um convite à consciência.

Vivemos tempos marcados por excessos de informação e escassez de sentido. O filósofo Zygmunt Bauman descreveu nossa época como líquida: relações frágeis, compromissos descartáveis, promessas que evaporam rápido. Entrar em um novo ano nesse cenário exige mais do que otimismo ingênuo; exige lucidez. Sonhar sem consciência é ilusão. Consciência sem esperança, porém, é desespero.

Por isso, talvez o maior desafio deste início de ano seja equilibrar realismo e esperança. Reconhecer limites sem desistir de possibilidades. Admitir falhas sem decretar fracassos definitivos. Albert Camus escreveu que “no meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível”. Não se trata de negar o inverno, mas de não permitir que ele seja a última palavra.

No plano pessoal, o novo ano confronta cada indivíduo com perguntas silenciosas: quem eu me tornei? O que perdi de mim no caminho? O que ainda faz sentido preservar? Não são perguntas confortáveis, mas são necessárias. Só amadurece quem aprende a revisitar a própria história sem ódio e sem autoengano. O filósofo Søren Kierkegaard dizia que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente. O novo ano é exatamente esse ponto de tensão entre memória e esperança.

No plano coletivo, somos chamados a uma responsabilidade ainda maior. O mundo não precisa apenas de pessoas sonhadoras, mas de pessoas éticas. Não apenas de discursos inflamados, mas de atitudes coerentes. Martin Luther King Jr. lembrava que o que mais preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. Um novo ano também nos julgará pelo que toleramos, pelo que normalizamos e pelo que escolhemos ignorar.

Ainda assim, apesar de tudo, insistimos em sonhar, e talvez isso seja um ato de coragem. Sonhar não é fugir da realidade; é se recusar a aceitá-la como definitiva. Paulo Freire afirmava que a esperança é um verbo que se conjuga no plural: espera-se em conjunto. Sonhos isolados se cansam rápido; sonhos compartilhados criam movimentos, histórias e transformações.

Esperança, contudo, não é euforia. Ela nasce da perseverança. É a decisão diária de continuar sendo humano em um mundo que muitas vezes desumaniza. É escolher a verdade em tempos de relativização, a empatia em tempos de indiferença, a escuta em tempos de gritaria. Pequenos gestos, quando somados, constroem futuros mais habitáveis.

Talvez o novo ano não traga respostas prontas, mas ele nos oferece algo igualmente valioso: a chance de fazer melhores perguntas. Perguntar menos “o que eu vou ganhar?” e mais “quem eu posso me tornar?”. Menos “quem está errado?” e mais “como podemos reconstruir?”. O tempo não muda as pessoas; são as decisões repetidas que o fazem.

Ao iniciar este novo ano, que não nos iludamos com promessas fáceis nem nos rendamos ao cinismo confortável. Que sejamos realistas o suficiente para reconhecer as dores do mundo, mas esperançosos o bastante para não abandonar os sonhos. Porque, no fim, o futuro não é um lugar onde chegamos; é algo que construímos, todos os dias, com aquilo que escolhemos pensar, dizer e fazer.

E se há algo que um novo ano nos sussurra, mesmo em meio ao caos, é isto: ainda é possível, recomeçar  não como quem apaga o passado, mas como quem aprende com ele e decide seguir adiante com mais verdade, mais consciência e mais humanidade.

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