Por Josué de Asevedo Soares
Introdução
O
chamado profético no Antigo Testamento representa um dos temas mais ricos e
teologicamente significativos para a compreensão da relação entre Deus e o seu
povo. Diferentes narrativas bíblicas descrevem como homens e mulheres foram
convocados por Deus para se tornarem porta-vozes da sua vontade, geralmente em
contextos de crise espiritual ou social. Esse chamado não foi apenas uma
designação de função, mas uma experiência profunda de encontro com o divino,
que frequentemente provocava temor, resistência e transformação.
Este
ensaio procura analisar como os profetas foram chamados por Deus, destacando
experiências específicas e as reações iniciais registradas nas Escrituras. Além
disso, recorreremos à reflexão de pensadores da teologia que examinaram a
natureza e o significado desse chamado, enfatizando a dimensão espiritual e
pastoral que ele revela para a fé cristã.
Narrativas Bíblicas do Chamado Profético
Isaías: A Santidade de Deus
e a Purificação do Chamado
Em
Isaías 6, o profeta descreve sua visão do trono de Deus, onde serafins
proclamam a santidade do Senhor. Confrontado com a glória divina, Isaías
responde: “Ai de
mim! Estou perdido!”
(Is 6:5). Somente após a purificação de seus lábios pelo carvão ardente, ele aceita
a missão, respondendo: “Eis-me
aqui, envia-me a mim”
(Is 6:8). Karl Barth interpreta esse episódio como a revelação do contraste
absoluto entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana, mostrando que o
chamado profético nasce da graça purificadoraⁱ.
Jeremias: A Juventude e a
Resistência Inicial
O
chamado de Jeremias (Jr 1:4-10) é marcado por sua resistência inicial: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar,
porque não passo de uma criança” (v. 6). Deus, porém, o encoraja, prometendo-lhe presença
e autoridade sobre nações e reinos. Walter Brueggemann observa que a vocação de
Jeremias reflete o padrão de “resistência e superação”, típico da experiência
profética, em que a fragilidade humana se torna instrumento da força divina².
Ezequiel: O Profeta do
Espírito
A
narrativa do chamado de Ezequiel (Ez 1–3) apresenta visões apocalípticas e a
experiência da presença do Espírito de Deus. O profeta é comissionado a falar a
um povo obstinado, recebendo um rolo para comer como sinal de que a palavra
divina se tornaria parte do seu ser (Ez 3:3). Brevard S. Childs enfatiza que o
chamado de Ezequiel destaca a interiorização da mensagem profética, mostrando
que a autoridade não estava em si mesmo, mas na palavra de Deus internalizada³.
Moisés e Outros Chamados
Significativos
Embora
Moisés seja tradicionalmente identificado como legislador, sua experiência no
episódio da sarça ardente (Êx 3) carrega elementos comuns ao chamado profético:
temor, resistência e a promessa da presença divina. Abraham J. Heschel ressalta
que a vocação profética, em geral, é um encontro radical que rompe a
normalidade da vida, revelando que o profeta é “um homem tomado pelo pathos
divino”⁴.
Reações Iniciais ao Chamado
Profético
Um
elemento comum nos relatos é a reação inicial de temor, inadequação ou
resistência. Isaías sente-se impuro, Jeremias sente-se incapaz por ser jovem,
Moisés alega falta de eloquência. Essas respostas humanas revelam a
desproporção entre a grandeza da missão e a limitação do mensageiro.
Hans
Walter Wolff sublinha que essa dinâmica é essencial para compreender a teologia
da vocação: o profeta nunca é um voluntário autônomo, mas um escolhido pela
soberania divina, que capacita o chamado⁵. Assim, a resistência inicial, longe
de invalidar a missão, reforça a dependência da graça de Deus.
O Significado Teológico do
Chamado Profético
O
chamado dos profetas mostra que a iniciativa sempre pertence a Deus. Eles não
se autoproclamam; são interrompidos e transformados por uma experiência que
redefine suas vidas. Na perspectiva evangélica, esse padrão aponta para o
princípio da graça: Deus chama os improváveis para manifestar sua glória.
Além
disso, o chamado profético revela uma dimensão cristológica. Para a teologia
reformada, os profetas prefiguram o chamado e a missão de Cristo, o Profeta
supremo, que veio anunciar a plenitude da revelação de Deus (Hb 1:1-2). A
Igreja, como corpo de Cristo, continua a ser chamada para testemunhar a palavra
profética no mundo, sendo fiel ao Evangelho mesmo em meio a resistências e
perseguições.
Conclusão
O
estudo do chamado dos profetas mostra que a vocação profética é, antes de tudo,
um encontro com o Deus vivo, que transforma a fragilidade humana em instrumento
da sua vontade. As narrativas bíblicas de Isaías, Jeremias, Ezequiel e Moisés
revelam que o chamado é marcado por temor e resistência, mas também pela graça
capacitadora de Deus.
Pensadores
como Barth, Brueggemann, Childs, Heschel e Wolff evidenciam que a vocação
profética não é mero episódio histórico, mas paradigma teológico que continua a
inspirar a Igreja. Para a fé evangélica, a experiência desses profetas aponta
para a centralidade da obediência a Deus, lembrando que cada chamado é
expressão da soberania e do amor divinos.
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1. Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T
Clark, 1957), p. 142.
2. Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination (Philadelphia:
Fortress Press, 1978), p. 29.
3. Brevard S. Childs, Introduction to the Old
Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 375.
4. Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper
& Row, 1962), p. 21.
5. Hans Walter Wolff, Amos the Prophet (Philadelphia:
Fortress Press, 1973), p. 11.
Artigo interessante. Valeu !
ResponderExcluirAprendendo sempre.
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