segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Chamado dos Profetas

 

    

Por Josué de Asevedo Soares

Introdução

O chamado profético no Antigo Testamento representa um dos temas mais ricos e teologicamente significativos para a compreensão da relação entre Deus e o seu povo. Diferentes narrativas bíblicas descrevem como homens e mulheres foram convocados por Deus para se tornarem porta-vozes da sua vontade, geralmente em contextos de crise espiritual ou social. Esse chamado não foi apenas uma designação de função, mas uma experiência profunda de encontro com o divino, que frequentemente provocava temor, resistência e transformação.

Este ensaio procura analisar como os profetas foram chamados por Deus, destacando experiências específicas e as reações iniciais registradas nas Escrituras. Além disso, recorreremos à reflexão de pensadores da teologia que examinaram a natureza e o significado desse chamado, enfatizando a dimensão espiritual e pastoral que ele revela para a fé cristã.

Narrativas Bíblicas do Chamado Profético

Isaías: A Santidade de Deus e a Purificação do Chamado

Em Isaías 6, o profeta descreve sua visão do trono de Deus, onde serafins proclamam a santidade do Senhor. Confrontado com a glória divina, Isaías responde: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6:5). Somente após a purificação de seus lábios pelo carvão ardente, ele aceita a missão, respondendo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6:8). Karl Barth interpreta esse episódio como a revelação do contraste absoluto entre a santidade de Deus e a pecaminosidade humana, mostrando que o chamado profético nasce da graça purificadoraⁱ.

Jeremias: A Juventude e a Resistência Inicial

O chamado de Jeremias (Jr 1:4-10) é marcado por sua resistência inicial: “Ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (v. 6). Deus, porém, o encoraja, prometendo-lhe presença e autoridade sobre nações e reinos. Walter Brueggemann observa que a vocação de Jeremias reflete o padrão de “resistência e superação”, típico da experiência profética, em que a fragilidade humana se torna instrumento da força divina².

Ezequiel: O Profeta do Espírito

A narrativa do chamado de Ezequiel (Ez 1–3) apresenta visões apocalípticas e a experiência da presença do Espírito de Deus. O profeta é comissionado a falar a um povo obstinado, recebendo um rolo para comer como sinal de que a palavra divina se tornaria parte do seu ser (Ez 3:3). Brevard S. Childs enfatiza que o chamado de Ezequiel destaca a interiorização da mensagem profética, mostrando que a autoridade não estava em si mesmo, mas na palavra de Deus internalizada³.

Moisés e Outros Chamados Significativos

Embora Moisés seja tradicionalmente identificado como legislador, sua experiência no episódio da sarça ardente (Êx 3) carrega elementos comuns ao chamado profético: temor, resistência e a promessa da presença divina. Abraham J. Heschel ressalta que a vocação profética, em geral, é um encontro radical que rompe a normalidade da vida, revelando que o profeta é “um homem tomado pelo pathos divino”⁴.

Reações Iniciais ao Chamado Profético

Um elemento comum nos relatos é a reação inicial de temor, inadequação ou resistência. Isaías sente-se impuro, Jeremias sente-se incapaz por ser jovem, Moisés alega falta de eloquência. Essas respostas humanas revelam a desproporção entre a grandeza da missão e a limitação do mensageiro.

Hans Walter Wolff sublinha que essa dinâmica é essencial para compreender a teologia da vocação: o profeta nunca é um voluntário autônomo, mas um escolhido pela soberania divina, que capacita o chamado⁵. Assim, a resistência inicial, longe de invalidar a missão, reforça a dependência da graça de Deus.

O Significado Teológico do Chamado Profético

O chamado dos profetas mostra que a iniciativa sempre pertence a Deus. Eles não se autoproclamam; são interrompidos e transformados por uma experiência que redefine suas vidas. Na perspectiva evangélica, esse padrão aponta para o princípio da graça: Deus chama os improváveis para manifestar sua glória.

Além disso, o chamado profético revela uma dimensão cristológica. Para a teologia reformada, os profetas prefiguram o chamado e a missão de Cristo, o Profeta supremo, que veio anunciar a plenitude da revelação de Deus (Hb 1:1-2). A Igreja, como corpo de Cristo, continua a ser chamada para testemunhar a palavra profética no mundo, sendo fiel ao Evangelho mesmo em meio a resistências e perseguições.

Conclusão

O estudo do chamado dos profetas mostra que a vocação profética é, antes de tudo, um encontro com o Deus vivo, que transforma a fragilidade humana em instrumento da sua vontade. As narrativas bíblicas de Isaías, Jeremias, Ezequiel e Moisés revelam que o chamado é marcado por temor e resistência, mas também pela graça capacitadora de Deus.

Pensadores como Barth, Brueggemann, Childs, Heschel e Wolff evidenciam que a vocação profética não é mero episódio histórico, mas paradigma teológico que continua a inspirar a Igreja. Para a fé evangélica, a experiência desses profetas aponta para a centralidade da obediência a Deus, lembrando que cada chamado é expressão da soberania e do amor divinos.

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1.      Karl Barth, Church Dogmatics II/1 (Edinburgh: T&T Clark, 1957), p. 142.

2.      Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination (Philadelphia: Fortress Press, 1978), p. 29.

3.      Brevard S. Childs, Introduction to the Old Testament as Scripture (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p. 375.

4.      Abraham J. Heschel, The Prophets (New York: Harper & Row, 1962), p. 21.

5.      Hans Walter Wolff, Amos the Prophet (Philadelphia: Fortress Press, 1973), p. 11.

 

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