terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O Culto de Doutrina à Luz da Bíblia e Tradição da Assembleia de Deus

 

                                                     
 Por Josué  de A Soares

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (Atos 2.42)

Introdução

A doutrina sempre ocupou lugar central na vida da Igreja cristã. Desde seus primórdios, o povo de Deus foi chamado não apenas a crer, mas a permanecer na verdade revelada. O testemunho de Atos dos Apóstolos apresenta uma Igreja que nasce sob o ensino apostólico, sustentada pela Palavra, pela comunhão e pela prática da fé. Nesse contexto, o culto de doutrina emerge como expressão histórica e teológica da fidelidade da Igreja à revelação divina.

No âmbito da Assembleia de Deus, o culto de doutrina assume papel estratégico na preservação da fé bíblica, na formação espiritual dos crentes e na manutenção da identidade pentecostal clássica. Em um cenário contemporâneo marcado por pluralismo religioso, sincretismo teológico e relativização da verdade, refletir academicamente sobre a importância desse culto torna-se não apenas pertinente, mas necessário.

1. Fundamentos Bíblicos do Culto de Doutrina

A Escritura Sagrada apresenta a doutrina como elemento essencial da vida comunitária do povo de Deus. No Antigo Testamento, a instrução divina (torah) já possuía caráter pedagógico e espiritual, conduzindo Israel à obediência e à santidade (Dt 6.6-9). No Novo Testamento, essa dimensão se aprofunda por meio do ensino de Cristo e dos apóstolos.

Jesus é apresentado nos Evangelhos como Mestre por excelência (Mt 7.28-29), cuja autoridade estava fundamentada na verdade divina. Ele ordena aos seus discípulos que façam novos discípulos, ensinando-os a guardar todas as coisas” (Mt 28.20), o que demonstra que o ensino não é periférico, mas parte essencial da missão da Igreja.

A Igreja Primitiva perseverava na didachḗ apostólica (At 2.42), evidenciando que a fé cristã é inseparável do conteúdo que a sustenta. O apóstolo Paulo reforça esse princípio ao exortar Timóteo a permanecer na sã doutrina, advertindo que chegariam tempos em que muitos não suportariam o ensino saudável (2Tm 4.2-4). Assim, o culto de doutrina cumpre a função bíblica de ensinar, corrigir, exortar e edificar (cf. 2Tm 3.16).

2. Doutrina e Edificação Espiritual da Igreja

Do ponto de vista teológico, a doutrina não se limita à transmissão de informações, mas está diretamente ligada à formação espiritual do crente. Paulo afirma que Deus concedeu ministérios à Igreja “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4.13). Tal maturidade espiritual só é possível mediante ensino sólido e contínuo.

Wayne Grudem define a doutrina cristã como aquilo que “toda a Bíblia ensina sobre determinado tema”¹, o que reforça a necessidade de um ensino sistemático das Escrituras. Nesse sentido, o culto de doutrina atua como instrumento pedagógico da Igreja, promovendo discernimento espiritual e firmeza teológica.

Para a Assembleia de Deus, essa edificação doutrinária sempre esteve associada à prática do culto público, onde a Palavra é exposta de forma clara, reverente e dependente da ação do Espírito Santo. Diferentemente de uma fé meramente emocional, o culto de doutrina busca equilibrar experiência espiritual e fundamento bíblico, evitando tanto o intelectualismo seco quanto o emocionalismo vazio.

3. O Culto de Doutrina na Tradição da Assembleia de Deus

Historicamente, a Assembleia de Deus no Brasil nasceu com forte ênfase bíblica. Seus pioneiros compreenderam que o avivamento pentecostal deveria estar alicerçado na Palavra. Antonio Gilberto, referência na educação teológica assembleiana, afirma que “não existe verdadeira espiritualidade sem compromisso com a sã doutrina”².

O culto de doutrina, portanto, tornou-se espaço privilegiado para:

  • Ensino das verdades fundamentais da fé cristã;
  • Formação de obreiros e líderes;
  • Preservação da identidade confessional pentecostal;
  • Combate a heresias e modismos teológicos.

Além disso, esse culto reafirma a autoridade das Escrituras como regra de fé e prática, princípio caro à tradição protestante e pentecostal. Como observa Millard Erickson, a teologia cristã deve ser “bíblica, histórica e prática”³ — elementos que se encontram integrados no culto de doutrina quando bem conduzido.

4. Relevância Contemporânea do Culto de Doutrina

No contexto atual, marcado por discursos religiosos fragmentados e por uma espiritualidade muitas vezes desvinculada da verdade bíblica, o culto de doutrina assume caráter contracultural. Ele chama a Igreja de volta à centralidade da Palavra, à fidelidade ao evangelho e à responsabilidade teológica.

A negligência doutrinária tem produzido crentes frágeis, facilmente levados por “ventos de doutrina” (Ef 4.14). Por isso, o culto de doutrina não deve ser visto como repetitivo ou secundário, mas como ato de adoração consciente, no qual Deus fala por meio das Escrituras e molda o caráter do seu povo.

Conclusão

À luz das Escrituras e da tradição da Assembleia de Deus, conclui-se que o culto de doutrina é elemento indispensável para a saúde espiritual da Igreja. Ele preserva a fé apostólica, promove maturidade cristã e fortalece a identidade pentecostal bíblica.

Manter viva essa prática é honrar o legado da Igreja Primitiva, obedecer ao ensino apostólico e preparar o povo de Deus para permanecer firme em tempos de crise espiritual e teológica. Onde a doutrina é valorizada, a Igreja cresce de forma saudável; onde é negligenciada, a fé se enfraquece. Assim, perseverar na doutrina continua sendo um chamado urgente e inegociável.

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¹ GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
² GILBERTO, Antonio. A Bíblia através dos Séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
³ ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
⁴ BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

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