Por Josué de A Soares
A figura dos fariseus ocupa lugar de destaque na
história do judaísmo do Segundo Templo (século II a.C. ao século I d.C.) e no
contexto do Novo Testamento. Contudo, uma dúvida recorrente surge na leitura de
textos históricos e teológicos: afinal, os fariseus eram leigos ou pertenciam à
liderança religiosa oficial? A resposta exige uma compreensão histórica
cuidadosa do que significava “leigo” naquele período.
1. O Contexto Histórico do
Judaísmo do Segundo Templo
Durante o período do Segundo Templo, a liderança
religiosa de Israel estava estruturada principalmente em torno do sacerdócio,
especialmente da linhagem levítica e da casa de Arão. Os sacerdotes eram
responsáveis pelo culto sacrificial no Templo de Jerusalém e possuíam
autoridade religiosa institucional¹.
Ao lado desse grupo, surgiram movimentos religiosos
que buscavam preservar e interpretar a Lei mosaica diante das transformações
políticas e culturais trazidas pelo domínio persa, grego e, posteriormente,
romano. Entre esses movimentos destacavam-se os fariseus, os saduceus e os
essênios².
2. Os Fariseus como Grupo Leigo
Os fariseus não eram, como grupo, sacerdotes do
Templo. Diferentemente dos saduceus, que estavam fortemente ligados à
aristocracia sacerdotal, os fariseus eram em sua maioria judeus leigos, isto é,
não pertencentes à classe sacerdotal³.
O termo “leigo”, nesse contexto, não significa
ignorância religiosa ou ausência de formação. Significa, antes, que não
exerciam funções sacerdotais nem dependiam de linhagem levítica para sua
atuação. Sua autoridade não vinha do altar, mas do estudo e da interpretação da
Lei.
3. Especialistas na Lei Escrita e
na Tradição Oral
Paradoxalmente, embora fossem leigos em relação ao
sacerdócio, os fariseus eram reconhecidos como os mais habilidosos intérpretes
da Lei. Dedicavam-se profundamente ao estudo da Torá (Lei escrita) e também à
tradição oral, que posteriormente seria sistematizada no que se tornaria o
judaísmo rabínico⁴.
O historiador Flávio Josefo afirma que os fariseus
eram considerados os mais precisos intérpretes das leis judaicas⁵. Sua
influência estendia-se às sinagogas e à vida cotidiana do povo, enfatizando a
santidade não apenas no Templo, mas em todas as dimensões da vida.
4. Piedade e Vida Religiosa
Os fariseus buscavam aplicar os princípios da
pureza ritual e da observância da Lei à vida diária. Sua espiritualidade
enfatizava oração, jejum, dízimos e rigor moral. No Novo Testamento, embora
Jesus critique certas práticas marcadas pela hipocrisia (Mt 23), Ele também
reconhece que estavam “assentados na cadeira de Moisés” (Mt 23.2), ou seja,
exerciam autoridade no ensino da Lei.
Portanto, a tensão presente nos Evangelhos não
anula o fato de que os fariseus representavam um movimento sério de fidelidade
à Lei dentro do judaísmo da época.
Conclusão
Os fariseus eram leigos no sentido institucional,
pois não pertenciam ao sacerdócio oficial do Templo. Contudo, eram líderes
religiosos no campo do ensino, da interpretação da Lei e da formação espiritual
do povo. Não há contradição em afirmar que eram, ao mesmo tempo, leigos e
profundos conhecedores das Escrituras.
Sua atuação foi decisiva para a preservação da
tradição judaica após a destruição do Templo em 70 d.C., influenciando
diretamente o desenvolvimento do judaísmo rabínico. Assim, compreender os
fariseus requer distinguir entre autoridade sacerdotal e autoridade
interpretativa, duas esferas distintas no judaísmo do Segundo Templo.
___________________________________________________________________
- Cf. Êxodo 28–29; Hebreus
5.1–4.
- Cf. FERGUSON, Everett. Backgrounds
of Early Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
- Cf. SANDERS, E. P. Judaism:
Practice and Belief, 63 BCE–66 CE. London: SCM Press, 1992.
- Cf. NEUSNER, Jacob. From
Politics to Piety: The Emergence of Pharisaic Judaism. New York: KTAV,
1973.
- JOSEFO, Flávio. Antiguidades
Judaicas, XIII.10.6.
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