quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Os Fariseus: Leigos ou Líderes Religiosos?

 

Por Josué de A Soares

A figura dos fariseus ocupa lugar de destaque na história do judaísmo do Segundo Templo (século II a.C. ao século I d.C.) e no contexto do Novo Testamento. Contudo, uma dúvida recorrente surge na leitura de textos históricos e teológicos: afinal, os fariseus eram leigos ou pertenciam à liderança religiosa oficial? A resposta exige uma compreensão histórica cuidadosa do que significava “leigo” naquele período.

1. O Contexto Histórico do Judaísmo do Segundo Templo

Durante o período do Segundo Templo, a liderança religiosa de Israel estava estruturada principalmente em torno do sacerdócio, especialmente da linhagem levítica e da casa de Arão. Os sacerdotes eram responsáveis pelo culto sacrificial no Templo de Jerusalém e possuíam autoridade religiosa institucional¹.

Ao lado desse grupo, surgiram movimentos religiosos que buscavam preservar e interpretar a Lei mosaica diante das transformações políticas e culturais trazidas pelo domínio persa, grego e, posteriormente, romano. Entre esses movimentos destacavam-se os fariseus, os saduceus e os essênios².

2. Os Fariseus como Grupo Leigo

Os fariseus não eram, como grupo, sacerdotes do Templo. Diferentemente dos saduceus, que estavam fortemente ligados à aristocracia sacerdotal, os fariseus eram em sua maioria judeus leigos, isto é, não pertencentes à classe sacerdotal³.

O termo “leigo”, nesse contexto, não significa ignorância religiosa ou ausência de formação. Significa, antes, que não exerciam funções sacerdotais nem dependiam de linhagem levítica para sua atuação. Sua autoridade não vinha do altar, mas do estudo e da interpretação da Lei.

3. Especialistas na Lei Escrita e na Tradição Oral

Paradoxalmente, embora fossem leigos em relação ao sacerdócio, os fariseus eram reconhecidos como os mais habilidosos intérpretes da Lei. Dedicavam-se profundamente ao estudo da Torá (Lei escrita) e também à tradição oral, que posteriormente seria sistematizada no que se tornaria o judaísmo rabínico⁴.

O historiador Flávio Josefo afirma que os fariseus eram considerados os mais precisos intérpretes das leis judaicas⁵. Sua influência estendia-se às sinagogas e à vida cotidiana do povo, enfatizando a santidade não apenas no Templo, mas em todas as dimensões da vida.

4. Piedade e Vida Religiosa

Os fariseus buscavam aplicar os princípios da pureza ritual e da observância da Lei à vida diária. Sua espiritualidade enfatizava oração, jejum, dízimos e rigor moral. No Novo Testamento, embora Jesus critique certas práticas marcadas pela hipocrisia (Mt 23), Ele também reconhece que estavam “assentados na cadeira de Moisés” (Mt 23.2), ou seja, exerciam autoridade no ensino da Lei.

Portanto, a tensão presente nos Evangelhos não anula o fato de que os fariseus representavam um movimento sério de fidelidade à Lei dentro do judaísmo da época.

 Conclusão

Os fariseus eram leigos no sentido institucional, pois não pertenciam ao sacerdócio oficial do Templo. Contudo, eram líderes religiosos no campo do ensino, da interpretação da Lei e da formação espiritual do povo. Não há contradição em afirmar que eram, ao mesmo tempo, leigos e profundos conhecedores das Escrituras.

Sua atuação foi decisiva para a preservação da tradição judaica após a destruição do Templo em 70 d.C., influenciando diretamente o desenvolvimento do judaísmo rabínico. Assim, compreender os fariseus requer distinguir entre autoridade sacerdotal e autoridade interpretativa, duas esferas distintas no judaísmo do Segundo Templo.

___________________________________________________________________

  1. Cf. Êxodo 28–29; Hebreus 5.1–4.
  2. Cf. FERGUSON, Everett. Backgrounds of Early Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
  3. Cf. SANDERS, E. P. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE–66 CE. London: SCM Press, 1992.
  4. Cf. NEUSNER, Jacob. From Politics to Piety: The Emergence of Pharisaic Judaism. New York: KTAV, 1973.
  5. JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, XIII.10.6.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário