sexta-feira, 10 de abril de 2026

NEM UM JOTA OU UM TIL JAMAIS PASSARÁ DA LEI

 

Por Josué de A Soares.

“Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.” (Mt 5.18).

Introdução

O capítulo 5 do Evangelho segundo Evangelho de Mateus ocupa lugar central na tradição cristã, sobretudo por conter o denominado Sermão do Monte, um dos discursos mais densos e influentes do ensino de Jesus. Este sermão constitui o primeiro dos cinco grandes discursos estruturantes do evangelho mateano e pode ser organizado, didaticamente, em três seções principais: (a) as bem-aventuranças (Mt 5.3–12), que apresentam os valores do Reino de Deus; (b) as exortações éticas (Mt 5.13–20; 6.1–7.23), que delineiam o estilo de vida dos discípulos; e (c) os contrastes entre o ensino de Jesus e as interpretações legalistas da tradição judaica (Mt 5.21–48). O discurso culmina com a parábola dos dois fundamentos (Mt 7.24–27), ressaltando a necessidade da prática daquilo que foi ensado, seguida da reação da multidão, que reconhece a autoridade singular de Jesus (Mt 7.28–29).

O Contexto Histórico-Religioso

No contexto histórico-religioso do primeiro século, Jesus frequentemente enfrentou oposição por parte de líderes religiosos, especialmente escribas e fariseus, que o acusavam de negligenciar aspectos tradicionais da observância da Lei. Contudo, em Mateus 5:18, Jesus apresenta uma declaração enfática acerca da permanência e autoridade da Lei, afirmando que nem mesmo o menor elemento textual será anulado até que tudo se cumpra. Tal afirmação não constitui uma rejeição da Lei mosaica, mas antes uma reafirmação de sua validade e de seu propósito divino.

Dessa forma, é fundamental compreender que Jesus não se opõe à Lei em si, mas à interpretação distorcida e superficial promovida por certos grupos religiosos. O problema do farisaísmo não residia na observância minuciosa da Lei, mas em sua instrumentalização para fins de autopromoção religiosa. Tratava-se de uma religiosidade marcada pela exterioridade, na qual a aparência de piedade substituía a transformação interior. Assim, enquanto a letra da Lei era rigorosamente seguida, seu espírito era frequentemente negligenciado.

Nesse sentido, Jesus enfatiza que a verdadeira justiça exigida no Reino de Deus transcende a mera conformidade externa. Em Mateus 5:20, Ele declara que a justiça dos seus discípulos deve exceder a dos escribas e fariseus, indicando uma justiça qualitativamente superior, caracterizada pela integridade do coração e pela coerência entre fé e prática. Tal ensino aponta para uma ética do Reino fundamentada na interioridade e na autenticidade, e não apenas na observância formal de preceitos.

A análise de diferentes traduções bíblicas contribui para a compreensão da força da expressão utilizada por Jesus. A Bíblia BKJ traduz o texto afirmando que “nem um i ou o menor traço se omitirá da lei”, enquanto a Bíblia de Jerusalém enfatiza que “nem um só i, nem uma só vírgula” será suprimido. Essas variações ressaltam a referência às menores unidades do sistema gráfico hebraico e grego, como o “yod” (י) no hebraico e o “iota” (ι) no grego, bem como aos sinais diacríticos (nekudot), que, embora pequenos, possuem relevância semântica significativa. Assim, a declaração de Jesus utiliza uma figura de linguagem hiperbólica para afirmar a plena autoridade, confiabilidade e permanência das Escrituras.

Do ponto de vista teológico, intérpretes como Finis Jennings Dake sustentam que cada “jota” e “til” da Lei encontra seu cumprimento em Cristo, sendo plenamente realizado na nova aliança estabelecida por Ele (cf. 2Co 3.6–15; Gl 3.19–25; Ef 2.15; Hb 8.6–13). Nessa perspectiva, o cumprimento da Lei não implica sua abolição no sentido de invalidação, mas sua consumação em Cristo, que revela seu sentido último e definitivo.

Por outro lado, Egidio Gioia argumenta que a referência ao “yud” e ao “til” indica que até as menores exigências da Lei possuem relevância e serão levadas em consideração. Isso reforça a ideia de que a Lei, em sua essência, permanece imutável quanto ao propósito para o qual foi dada, ainda que sua aplicação seja reinterpretada à luz da revelação plena em Cristo.

Ademais, Jesus reconhece a existência de mandamentos considerados “menores” e “maiores” (Mt 5.19), mas enfatiza que todos possuem importância dentro da economia da Lei. A violação de um mandamento, ainda que considerado mínimo, constitui transgressão da Lei como um todo, ainda que haja distinção quanto às consequências. Assim, no contexto do Reino de Deus, não apenas o cumprimento, mas também o ensino fiel dos mandamentos é valorizado.

Conclusão

Em síntese, a perícope de Mateus 5.18–20 revela uma profunda tensão entre continuidade e cumprimento: a Lei não é abolida, mas levada à sua plenitude em Cristo. A justiça requerida dos discípulos não se limita à conformidade externa, mas exige uma transformação interior que se manifesta em obediência sincera e integral. Dessa forma, o ensino de Jesus redefine a relação entre Lei e graça, deslocando o foco da legalidade para a autenticidade do coração.

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  1. A expressão “até que o céu e a terra passem” é entendida como uma fórmula proverbial de caráter enfático, indicando permanência absoluta. Cf. GIOIA, Egidio. Notas e Comentários à Harmonia dos Evangelhos. Rio de Janeiro: JUERP, p. 120.
  2. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, p. 44.
  3. Finis Jennings Dake. Bíblia de Estudo Dake. Belo Horizonte: Atos.
  4. Egidio Gioia. Notas e Comentários à Harmonia dos Evangelhos. Rio de Janeiro: JUERP.

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