Por Josué de A Soares.
“Porque em
verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til
jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.” (Mt 5.18).
Introdução
O capítulo 5 do Evangelho segundo Evangelho de Mateus ocupa lugar central na
tradição cristã, sobretudo por conter o denominado Sermão do Monte, um dos
discursos mais densos e influentes do ensino de Jesus. Este sermão constitui o
primeiro dos cinco grandes discursos estruturantes do evangelho mateano e pode
ser organizado, didaticamente, em três seções principais: (a) as
bem-aventuranças (Mt 5.3–12), que apresentam os valores do Reino de Deus; (b)
as exortações éticas (Mt 5.13–20; 6.1–7.23), que delineiam o estilo de vida dos
discípulos; e (c) os contrastes entre o ensino de Jesus e as interpretações
legalistas da tradição judaica (Mt 5.21–48). O discurso culmina com a parábola
dos dois fundamentos (Mt 7.24–27), ressaltando a necessidade da prática daquilo
que foi ensado, seguida da reação da multidão, que reconhece a autoridade
singular de Jesus (Mt 7.28–29).
O Contexto Histórico-Religioso
No contexto histórico-religioso do primeiro
século, Jesus frequentemente enfrentou oposição por parte de líderes
religiosos, especialmente escribas e fariseus, que o acusavam de negligenciar
aspectos tradicionais da observância da Lei. Contudo, em Mateus 5:18, Jesus apresenta uma declaração
enfática acerca da permanência e autoridade da Lei, afirmando que nem mesmo o
menor elemento textual será anulado até que tudo se cumpra. Tal afirmação não
constitui uma rejeição da Lei mosaica, mas antes uma reafirmação de sua
validade e de seu propósito divino.
Dessa forma, é fundamental compreender que Jesus
não se opõe à Lei em si, mas à interpretação distorcida e superficial promovida
por certos grupos religiosos. O problema do farisaísmo não residia na
observância minuciosa da Lei, mas em sua instrumentalização para fins de
autopromoção religiosa. Tratava-se de uma religiosidade marcada pela
exterioridade, na qual a aparência de piedade substituía a transformação
interior. Assim, enquanto a letra da Lei era rigorosamente seguida, seu
espírito era frequentemente negligenciado.
Nesse sentido, Jesus enfatiza que a verdadeira
justiça exigida no Reino de Deus transcende a mera conformidade externa. Em Mateus 5:20, Ele declara que a justiça dos seus
discípulos deve exceder a dos escribas e fariseus, indicando uma justiça
qualitativamente superior, caracterizada pela integridade do coração e pela
coerência entre fé e prática. Tal ensino aponta para uma ética do Reino
fundamentada na interioridade e na autenticidade, e não apenas na observância
formal de preceitos.
A análise de diferentes traduções bíblicas contribui
para a compreensão da força da expressão utilizada por Jesus. A Bíblia BKJ
traduz o texto afirmando que “nem um i ou o menor traço se omitirá da lei”,
enquanto a Bíblia de Jerusalém enfatiza que “nem um só i, nem uma só vírgula”
será suprimido. Essas variações ressaltam a referência às menores unidades do
sistema gráfico hebraico e grego, como o “yod” (י) no hebraico e o “iota” (ι)
no grego, bem como aos sinais diacríticos (nekudot), que, embora pequenos,
possuem relevância semântica significativa. Assim, a declaração de Jesus
utiliza uma figura de linguagem hiperbólica para afirmar a plena autoridade,
confiabilidade e permanência das Escrituras.
Do ponto de vista teológico, intérpretes como Finis Jennings Dake sustentam que cada “jota” e
“til” da Lei encontra seu cumprimento em Cristo, sendo plenamente realizado na
nova aliança estabelecida por Ele (cf. 2Co 3.6–15; Gl 3.19–25; Ef 2.15; Hb
8.6–13). Nessa perspectiva, o cumprimento da Lei não implica sua abolição no
sentido de invalidação, mas sua consumação em Cristo, que revela seu sentido
último e definitivo.
Por outro lado, Egidio
Gioia argumenta que a referência ao “yud” e ao “til” indica que até as
menores exigências da Lei possuem relevância e serão levadas em consideração.
Isso reforça a ideia de que a Lei, em sua essência, permanece imutável quanto
ao propósito para o qual foi dada, ainda que sua aplicação seja reinterpretada
à luz da revelação plena em Cristo.
Ademais, Jesus reconhece a existência de
mandamentos considerados “menores” e “maiores” (Mt 5.19), mas enfatiza que
todos possuem importância dentro da economia da Lei. A violação de um
mandamento, ainda que considerado mínimo, constitui transgressão da Lei como um
todo, ainda que haja distinção quanto às consequências. Assim, no contexto do
Reino de Deus, não apenas o cumprimento, mas também o ensino fiel dos
mandamentos é valorizado.
Conclusão
Em síntese, a perícope de Mateus 5.18–20 revela
uma profunda tensão entre continuidade e cumprimento: a Lei não é abolida, mas
levada à sua plenitude em Cristo. A justiça requerida dos discípulos não se
limita à conformidade externa, mas exige uma transformação interior que se
manifesta em obediência sincera e integral. Dessa forma, o ensino de Jesus
redefine a relação entre Lei e graça, deslocando o foco da legalidade para a
autenticidade do coração.
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- A expressão “até que o céu e a terra passem” é
entendida como uma fórmula proverbial de caráter enfático, indicando
permanência absoluta. Cf. GIOIA, Egidio. Notas e Comentários à Harmonia dos Evangelhos. Rio
de Janeiro: JUERP, p. 120.
- Comentário Bíblico Pentecostal: Novo
Testamento. Rio de Janeiro:
CPAD, p. 44.
- Finis Jennings Dake. Bíblia
de Estudo Dake. Belo Horizonte: Atos.
- Egidio Gioia. Notas
e Comentários à Harmonia dos Evangelhos. Rio de Janeiro:
JUERP.

Benção!
ResponderExcluirDeus é bom.
ResponderExcluirAprendendo, glória Deus!
ResponderExcluirBom é aprender!
ResponderExcluirFelicidades!
ResponderExcluirGostei.
ResponderExcluirSempre aprendendo.
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